sanduíche de ovo

a arte ante os olhos.

Fernanda S.

Acredita na arte como a metáfora do vazio e na vida como fenômeno estético. Só não sabe, ainda, como conciliar isso

Kiki, a rainha de Montparnasse

“Kiki era maravilhosa de se ver, sendo seu rosto naturalmente bonito, ela o havia convertido em obra de arte, tinha um corpo prodigiosamente belo e uma voz agradável. Kiki foi sem dúvida a rainha desse bairro de artista, sonho e destino de milhões de pessoas nos anos 20, e chegou a simbolizar tudo que oferecia Montparnasse.” - Ernest Hemingway


3f6c22da2c747b844be15779abe9919c.jpg Kiki de Montparnasse, por Man Ray

Ela nasceu Alice Ernestine Prin, em 2 de outubro de 1901 em Châtillon-sur-Seine, França. Filha ilegítima, ela não teve lá uma boa infância: foi abandonada pela mãe, que a deixou aos cuidados da avó. Apesar da afeição recíproca, viviam em extrema pobreza.

Aos doze anos, quando foi enviada a Paris para viver com a mãe e trabalhar, Kiki (até então Alice) encontrou uma mãe que a ignorava e uma cidade que apesar de urbanizada, era movida pela marginalidade. Chegou a trabalhar em lojas e padarias, mas nesse novo contexto social e familiar foi obrigada a adultecer logo cedo.

Carismática e com um corpo amadurecido para sua idade, aos quatorze anos ela posa nua para um escultor, o que a faz ser expulsa de casa pela mãe. Em troca de comida e lugar para dormir, ela passa a ser modelo vivo de vários artistas, é quando conhece o pintor Soutine e este a leva pra morar com ele.

1e55173381a9f3be7cf47cc57abac7d8.jpg Kiki de Montparnasse, por E. Hemingway

Em 1921 torna-se companheira e modelo preferida de Man Ray, presente em suas mais conhecidas obras, incluindo a notável imagem surrealista Le violon d'Ingres e Noire et Blanche. Em 1922 posa para o pintor Amedeo Modigliani e Foujita cujo "Nu couché à la toile de Jouy" será sucesso no Salon d'Automne de 1922. Nesse período ela tem o cabelo à la garçonne, os olhos fortemente delineados, os lábios pintados de vermelho brilhante e começa a desenhar retratos de soldados britânicos e norte-americanos presentes na Rotunda.

3.png Le violon d'Ingres e Noire et Blanche, por Man Ray / Nu couché à la toile de Jouy, por L. Foujita

É na Paris boêmia, frequentando bares e posando para a nata de artistas da cidade que Alice Prin, uma jovem de origem pobre do interior, de beleza e personalidade emblemática, torna-se Kiki de Montparnasse, a musa da classe artística do período entre guerras. Um ícone cultural e sexual. Ela foi uma das primeiras mulheres emancipadas do século em que vivia, devendo isso a sua personalidade forte e impetuosa. Foi modelo, posando para dezenas de artistas, incluindo Chaim Soutine, Julian Mandel, Tsuguharu Foujita, Francis Picabia, Amadeo Modigliani, Jean Cocteau, Arno Brecker, Alexander Calder, Per Krohg, Hermine David, Pablo Gargallo, Mayo, Tono Salazar e Moise, além de cantora, dançarina, pintora, atriz e escritora.

Símbolo da boemia de Paris, aos 28 anos é declarada “La reine de Montparnasse".

9bb64e97946a6c490db429d1ff73890c (1).jpg Kiki de Montparnasse, por Kiesling

Em 1929 Kiki passa a ser a amante do jornalista Henri Broca, fundador da revista "Paris-Montparnasse", em que aparecem os primeiros capítulos do livro de memórias que Kiki está prestes a publicar, a autobiografia Memórias de Kiki, com apresentações de Ernest Hemingway e Foujita Tsuguharu. Em 1930, o livro foi traduzido por Samuel Putnam e publicado em Manhattan por Black Manikin Press, mas foi imediatamente expulso pelo governo dos Estados Unidos porque é considerado "indecente". O livro permaneceu proibido nos Estados Unidos até a década de 1970, quando ainda fazia parte da seção de livros proibidos na New York Public Library.

Couverture-KIKI-1929-819x1024.jpg Souvenirs, livro autobiográfico

Em 1936, Kiki abriu sua própria taverna, a "Chez Kiki". Mas anos depois ela deixou Paris para evitar o exército de ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial, que entrou na cidade em junho de 1940. Oficiais nazistas tinham uma reputação de intolerância para com a arte e os artistas associados a Montparnasse, que se estendia a todos os que abraçavam o seu estilo de vida liberal. Kiki nunca mais voltou a morar em Paris.

3d7e60c16025c484d61a569ff1040075.jpg Kiki de Montparnasse, por Man Ray

Kiki morreu em 1953, em Sanary-sur-Mer, França, com 51 anos, tudo indica que a causa da sua morte deve-se a sua dependência ao álcool e drogas. Uma multidão de artistas e fãs foram ao seu funeral em Paris e seguiu o cortejo de seu enterro no cemitério de Montparnasse. Em sua lápide está escrito: "Kiki, 1901-1953, cantora, atriz, pintora, Rainha de Montparnasse".

"Com Kiki, os dias gloriosos de Montparnasse foram enterrados para sempre." - Tsuguharu Foujita


Fernanda S.

Acredita na arte como a metáfora do vazio e na vida como fenômeno estético. Só não sabe, ainda, como conciliar isso.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp, eros //Fernanda S.