São Reino

É malabarista, jardineira e padeira freelancer, tendo em virtude desta última actividade conhecido Hammershøi, onde há uns anos participou numa convenção sobre fermentos. Quando se irrita, pode fazer sapateado.

"A Vergonha" de Bergman


 Bergman Cinema Filmes Guerra Vergonha "A Vergonha" de Bergman, mesmo na sua escala admirável, é um filme extraordinário. Trata da guerra. Com muita nudez. E como não se sabe que guerra, onde, quando, porquê, que regimes e ou exércitos se enfrentam, "A Vergonha" é um filme sobre todas as guerras. Sendo de 1968, foi por vezes visto, na altura, como um filme sobre e contra todas as guerras, oposição, à época, muito focada na contestação contra a guerra do Vietname.

"A Vergonha" não é, porém, essencialmente um filme sobre a guerra ou não é só um filme sobre a guerra. Há um casal de músicos, Eva (Liv Ullmann) e Jan (Max von Sydow, que jogou xadrez com a Morte no "Sétimo Selo" e 16 anos depois foi o padre hollywoodesco do "Exorcista"), ela violoncelista e ele violinista, que vivem numa casa de campo numa ilha desde que a guerra obrigou ao desmantelamento da orquestra em que tocavam. São jovens. Cultivam frutas e legumes que vendem no mercado mais próximo, criam alguns animais, subsistem.

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A guerra dura há aproximadamente cinco ou seis anos quando o filme começa e afectou-os até aí na medida em que os obrigou a sair da cidade e a procurar outra forma de ganhar a vida. Para quem vive em paz parece muito mas é pouco, muito pouco em comparação com o que vem a seguir. Mesmo Eva e Jan vivem, no início do filme, numa vaga consciência da guerra: mudaram-se mas continuaram, pode até dizer-se que gostam da vida que levam e das suas rotinas de ritmos largos, e a influência maior que sentem liga-se com a impossibilidade de terem filhos enquanto as coisas não acalmarem.

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Bergman queixa-se, em "Imagens" (Martins Fontes, São Paulo, 1ª edição-1996, 2ª tiragem-2001 - pp. 296-301), porque a primeira parte do filme, a que nos diz de onde partimos com Eva e Jan, é demorada e péssima, "um prólogo que se prolonga indefinidamente". Não comparei ainda os tempos dessa parte e daquela em que a guerra se mostra e tudo muda, mas esta última pareceu-me muitíssimo maior; num momento até, quando a lógica me fez adivinhar o que ainda teria de acontecer, senti que iria ver o filme durante séculos e que não conseguiria, que me custava demasiado. O que começa com o filme, o que é novo, é pois a violência mais extrema da guerra, a violência directa contra Eva e Jan, e de seguida a corrupção e a decadência de ambos. Quer vejamos dois indivíduos, quer vejamos um casal, a destruição será presente e corrosiva a partir desse momento. Não nos é dito muito sobre as razões pelas quais a guerra entra numa fase mais feroz - o rádio e o telefone de Eva e Jan estão avariados e as suas idas à localidade mais próxima, fora da ilha, para vender o que produzem são espaçadas e breves. Severos bombardeamentos matam a maioria da população e levam a uma série de prisões arbitrárias, com tortura, algumas mortes e, no final, uma reviravolta do mais politicamente manipulador que há: depois de convencer e montar um cenário em que tudo levava a crer que os prisioneiros - poucas dezenas de pessoas que são a totalidade do povo da ilha e da região adjacente após os ataques - seriam fuzilados, as autoridades fazem saber que, embora estivessem previstos os fuzilamentos, o governo, misericordioso, resolveu perdoar as ofensas - que ofensas, exactamente, não se sabe.

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Esta reviravolta surte os seus efeitos no casal e marca o princípio da derrocada moral de Eva e Jan. Presos nessa manhã, tinham primeiro sido interrogados sobre uma entrevista que Eva dera, coagida e assustada, após um bombardeamento, a um grupo de rebeldes. Na entrevista Eva afirmara de si e de Jan que eram apolíticos, mas as imagens haviam sido montadas com o som falso da voz de outra mulher a encorajar o inimigo, o que incriminava Eva como traidora. Tentara defender-se - "mas essa não é a minha voz"- e em resposta fora agredida e expulsa da sala, onde Jan ficara para ser espancado. À noite, famintos, assustadíssimos, foram perdoados.

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Jacobi (Gunnar Björnstrand) personifica o pequeno poderoso local que, em nome do governo clemente, liberta os prisioneiros e que nessa mesma noite ordena a um subalterno que Eva e Jan sejam levados imediatamente a casa. Passa a ser visita assídua do casal e torna-se amante de Eva, o que talvez nunca tivesse acontecido sem o fascínio exercido sobre eles na noite do perdão. O entendimento das razões pelas quais foram acusados e absolvidos no mesmo dia, pelas mesmas pessoas, é vedado a Eva e Jan; mas o esquema, o esquema do medo e do alívio - juntos e inexplicáveis - faz com que no momento em que são enviados para casa, fisicamente livres e íntegros, se sintam especiais, o que os coloca tacitamente ao lado do poder.

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Embora surja em Bergman nas pessoas de Eva e Jan, este falso sentimento de especialidade é universal nas guerras e nas ditaduras e é aquilo que explica que os homens fiquem ao lado do poder que esmaga, que mata, que oprime os seus vizinhos, os seus amigos, os seus irmãos. Sendo apolíticos, Eva e Jan eram mais fáceis de corromper, mas ainda que possuíssem apuradas consciências políticas não deixariam por isso de ser vulneráveis: o medo, no limite e aliado aos mais básicos instintos de preservação, opera revoluções interiores capazes de grandes e nem sempre bonitas revelações. É isto que a história desenvolve. Nesta perspectiva a guerra é um bom mote, mas não seria o único.

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É malabarista, jardineira e padeira freelancer, tendo em virtude desta última actividade conhecido Hammershøi, onde há uns anos participou numa convenção sobre fermentos. Quando se irrita, pode fazer sapateado..
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