Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Cada escritor sabe a lábia que tem

Assim como na vida amorosa, há várias maneiras de ser conquistado por autores de ficção. Desde a discrição charmosa e crua de Rubem Fonseca até o método escancarado e infalível de Valter Hugo Mãe. Difícil é se manter indiferente aos encantos de quem escreve e do que é escrito.


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Tenho um certo pé atrás com escritores performáticos, do tipo showman. Claro, é compreensível que nos dias de hoje esteja cada vez mais difícil vender livros, e as editoras precisem de uma forcinha. Não basta escrever romance, é preciso sair em turnê, conceder entrevistas, fazer podcast, videocast, dar palestras, cantar, dançar, sapatear, posar nu, enfim, vender a mercadoria, vender-se.

Mas, como em tudo na vida, há casos e casos. Um de meus autores brasileiros preferidos é Rubem Fonseca, contista malicioso, cruel, de uma leveza e de um talento invejáveis. Rubão, como alguns se referem a ele, é um senhor de quase 90 anos e, por opção, não se submete a essa lógica de mercado. Ok, trata-se de um decano da literatura e, portanto, é cabível o argumento de que com uma carreira de sucesso como a dele, qualquer um poderia se dar ao luxo de negar entrevistas para a imprensa até o fim da vida.

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Adoro a discrição de Rubem Fonseca por um simples motivo: prefiro não conhecê-lo. Não saber de sua rotina, de seus pensamentos particulares, da vida pessoal. Para mim, ele é o advogado Mandrake, personagem recorrente em seus livros, com pinceladas de outras figuras interessantíssimas das quais só lembro o nome se correr ali na minha estante.

Esse “nariz de cera” todo (ou introdução desnecessária, no jargão jornalístico), no entanto, foi para falar do extremo oposto. No caso, o escritor português (nascido em Angola) Valter Hugo Mãe. Confesso ter torcido o nariz quando, em 2011, ouvi falar dele pela primeira vez, com aquele ar de poeta incompreendido e sotaque lusitano (estranhamente) pouco carregado. Até ali, uma das poucas referências que possuía era o fato de ele escrever apenas em minúsculas. Ouvi falar que também era cantor de uma banda de rock, artista plástico... Fiz cara feia.

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Hugo Mãe estava no Brasil para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Zapeando por entre os canais da TV, o vi dando entrevista sobre um assunto qualquer (livros, talvez? quem se importava?) Não atentei para o que falavam. Permaneci naquele canal porque gostei da camiseta que ele usava: preta, com referência a algum nome do jazz (não sei se John Coltrane ou Miles Davis). Foi o bastante para me desarmar e dar um google despretensioso sobre o "portuga". Sim, sou fácil de se convencer.

Dei logo de cara com duas poesias que muito me agradaram. Ambas eram pessimistas, quase apocalípticas, e refletiam sobre a dureza da vida (essa poderia ser a definição de quase todas as poesias que me agradam). Reproduzo uma delas abaixo:

o homem que já não sou

valter hugo mãe

não me olhes agora que estou

mais velho e não correspondo em

nada ao homem que

amaste, procura encarar a tristeza

sem me incluíres, seria demasiado

cruel que me usasses para a

dor.

para ti

quis trazer as coisas mais belas

e em tudo o que fiz pus o

cuidado meticuloso de quem

ama.

não me obrigues a cortar os

pulsos quando fores num minuto ao

jardim com o cão

esta noite, sem notares, sustive a

respiração e quase morri. não deste

por nada. julgaste que voltei a

ressonar e até terás esboçado um

sorriso. e se eu pudesse morrer

enquanto sorris, pergunto

deixo para depois, ou talvez

desista. mas não pode ser se

tu me olhares em busca de tudo o que

já não existe. não pode ser, levo a

faca maior para debaixo do meu

travesseiro, juro-te que me

mato se continuares assim

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Pois bem. Mesmo estando no Recife, resolvi dar alguma atenção à passagem de Valter Hugo Mãe pelo Brasil. Não pude viajar até à feira em Paraty, no Rio de Janeiro, mas me programei para assistir a participação dele pela internet. E me rendi, dei o braço a torcer, aplaudi Valter daqui do meu quarto, de frente para o computador. No fim da conversa para a qual foi convidado, o escritor deixou a cereja do bolo – uma “carta aberta” ao país que o acolhia naquele momento, quase uma declaração de amor. Coloco aqui o trecho em vídeo e a transcrição, para quem prefere ler:

“Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.”

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Anotei o nome de Valter Hugo Mãe na minha lista de autores a serem lidos. Mas pelas voltas e voltas que o mundo dá, dois anos se passaram e não li absolutamente uma linha do autor português. Havia tantas outras leituras urgentes! Além do mais, será que aquela multidão de letras minúsculas não iria me aborrecer? E então saiu a notícia: Valter estaria aqui em novembro do ano passado, na Fliporto, a nossa versão – bem pernambucanizada - da Flip.

Naquela altura eu já estava trabalhando como repórter setorista de literatura de um grande jornal impresso. Ou seja, as chances de entrevistar Hugo Mãe logo em breve eram enormes. Comprei “a máquina de fazer espanhóis”, um de seus livros editados no Brasil pela Cosac Naify. Li em menos de uma semana, o que é um bom sinal. Achei o romance muito bom, mas não excelente. Aliás, trata-se de um texto de minúsculas agradabilíssimas, com vários intervalos de falatórios razoáveis.

Mas vamos ao que interessa. O fim do ano chegou, e ficou decidido que sim, eu o entrevistaria para publicação no jornal. Seria uma conversa por e-mail, o que achei bom e ruim. Bom porque a maioria dos entrevistados (sobretudo escritores) dão melhores respostas dessa forma. Bom porque não correria o risco de bajulá-lo sem querer, ou de me perder no meio da conversa. Ruim porque conversas por telefone com pessoas interessantes aquecem o espírito. E-mails rendem, no máximo, uns bons sorrisos. Aqui estão as perguntas e as respostas:

Sua obra literária é construída a partir de temáticas existenciais e, como você mesmo já disse, traz reflexões sobre “o que é o tempo da vida”. Essas reflexões são a causa ou a consequência de seus romances? Ou nenhuma das duas coisas?

As duas coisas. Escrevo para ser, sou para escrever. Creio que os livros me fazem e eu faço os livros. Sem eles não me entenderia. Perderia o sentido. É horrível, mas é verdade que sou capaz de amar porque escrevo sobre isso. Sou capaz de ver porque escrevo ou posso escrever sobre isso. Sem a relação com a literatura, ou com a expressão verbal, eu desistiria de tudo. Recusaria tudo.

Saramago, figura que marcou sua carreira literária, dizia não sentir prazer ao escrever, e sim em decorrência de ter escrito. Essa ideia também se aplica ao seu processo de criação? Que sentimentos estão mais ligados à sua escrita?

Eu posso sentir um prazer incrível ao escrever, mas é verdade que, normalmente, apenas temos possibilidade de auferir por completo do que fazemos depois de haver texto. Perante o texto definimos o sentimento. Essa coisa de conquista ou frustração. Podemos considerar, às vezes, que o texto não compareceu. Apenas um lixo qualquer.

Eu sou muito absorto no gesto da escrita. Posso esquecer do gesto e estar apenas no lugar das personagens. Elas bastam-me. O romance vai sendo feito como se eu estivesse perto, muito perto. Por isso, choro muito e rio muito conforme o que sucede às personagens seja bom ou mau.

Em alguns momentos, a literatura, ela mesma, acorda-me. Fico sensibilizado com as frases, com a possibilidade de definir algo que é tão indefinível. Enfim, tudo acontece. A literatura é a arte de fazer tudo acontecer.

Para além de suas poesias e romances, há um tom carregado de emoções também na sua fala, o que ficou bem claro, por exemplo, durante a Feira de Paraty, em 2011, quando a plateia ouviu sua “declaração de amor” ao Brasil. Desde então, foi criada uma relação afetiva entre você e o público leitor, o que não é tão comum quando se trata de escritores (eles são vistos geralmente como criaturas distantes). Esse envolvimento acontece também em Portugal e em outros países? O que mais lhe marcou no contato com o público brasileiro?

Sou muito grato pela experiência de viver e não compreendo bem como grande parte das pessoas desperdiça o espanto de estar vivo. Sim, sou muito emotivo, e já me emocionei diante de várias plateias e já várias plateias se emocionaram comigo. O meu público em Portugal é maravilhoso, como o é em vários países. No Brasil, país que eu já conhecia mas que nunca visitara como autor aí publicado, era muito importante para mim explicar o fascínio que sempre senti, o quanto a sua cultura me marcou e meu encheu de sonhos. Paraty foi isso. A oportunidade de eu explicar que o Brasil me fascinou sempre.

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A sua decisão de adotar maiúsculas a partir de “O filho de mil homens” revela o quanto você busca se reinventar. Além do fator estético, que outras mudanças vem ocorrendo na sua obra? É verdade que pretende passar um tempo morando no Brasil para escrever um livro? Por que?

Vou sempre criar um novo perigo para mim. Preciso de voltar a pensar em mim e no modo como penso e escrevo. Por isso mudo o enfoque dos meus livros. Mudo muito de figuras e de temas. Creio que todos os escritores querem o mesmo. Escrever algo que realmente nunca escreveram. E, sim, adoraria passar um bom tempo no Brasil e escrever um romance de ambiente brasileiro. Mas teria de ser um lugar recôndito. Sou atraído por populações minúsculas. Lugares quase sem ninguém. Era o que gostaria de trabalhar acerca do Brasil. Um lugar com pouco gente. Perdido na paisagem.

Você já veio ao Nordeste do Brasil? Quais referencias tem da região? O que espera da vinda ao Recife? Pretende visitar locais específicos, fazer algum passeio?

Nunca fui. Ouço muito acerca da beleza. É um paraíso de férias. Até hoje não tive oportunidade, mas já vou de olhos abertos. Ontem mesmo alguém fez um elogio acerca de Olinda que me impressionou. Estou muito curioso. Como estou sempre acerca do Brasil. E sei que é lugar de artesanato. Adoro artesanato figurado. Vou ter de comprar um bom Bumba Meu Boi. Tenho um pequeno. quero um maior e lindo que se veja bem na minha sala.

Quando li que você mora em Vila do Conde, lembrei imediatamente que é a terra natal de José Régio, grande poeta português, infelizmente pouco lembrado no Brasil. A obra dele lhe influenciou de alguma maneira? Em alguns de seus poemas há uma melancolia e um fatalismo diante da vida que me lembram bastante José Régio.

Li quando jovem. Gosto do lado trágico dele. Não sei se sou muito marcado pela sua obra, mas reconheço o seu valor e admiro sobretudo o seu ensaio. Era um escritor muitíssimo inteligente. Vila do Conde tem uma riqueza imaterial inestimável com a sua presença aqui.

* Entrevista de Valter Hugo Mãe originalmente publicada no site do jornal Diario de Pernambuco


Fellipe Torres

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