Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Gastadores e solitários

Estamos nos tornando cada vez mais individualistas e dependentes do consumo como fonte de felicidade, diz o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.


zygmunt-bauman-1-1_27392.jpg Com mais de 30 livros publicados no Brasil, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, 88, é um dos mais profícuos e renomados pensadores da contemporaneidade. Para ele, a sociedade enfrenta grave problema: “parece que o caminho para a felicidade passa, necessariamente, pelas compras. E as pessoas querem comprar os produtos e rapidamente descartá-los, substituindo por novos. Isso representa grande desperdício de recursos naturais do planeta”.

Para Bauman, a relação da sociedade com o consumismo é tão intensa, que se tornou comum as pessoas gastarem o dinheiro que não têm, por meio do crédito. São hábitos que convergem para o conceito de “liquidez” da sociedade pós-moderna, principal linha de raciocínio de sua obra.

“É uma metáfora simples. Nosso arranjo social, nos dias de hoje, se comporta como um líquido em um recipiente. Ou seja, não se mantém por muito tempo em um mesmo estado. Está sempre mudando. Enquanto gerações passadas se acostumaram a uma estabilidade de todas as coisas, o homem contemporâneo enxerga as rápidas mudanças nos partidos e movimentos políticos, nas causas, nas instituições que acabam, na moda, tudo muda várias vezes. Tenho 88 anos e já vi vários arranjos sociais”.

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“Na modernidade líquida prevalece o deus do tipo ‘faça você mesmo’. Não um deus recebido, mas inventado individualmente”. Para além do âmbito religioso, o sociólogo afirma, ainda, que nos tornamos os nossos próprios poderes legislativos, executivos e judiciários.

Como contraponto a essa individualização, nos é oferecida a visão da internet como “presságio da visibilidade dos invisíveis, da audibilidade para os mudos, da ação para os incapazes de agir”. Na visão de Bauman, internet é sinônimo de liberdade, e precisaria ser inventada caso ainda não existisse.

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Ele aproveita para ressaltar fenômenos inerentes à vida dois-ponto-zero: “as redes de relacionamento prometiam romper os limites da sociabilidade, mas não o fizeram e não o farão”, diz, após relembrar que por definição biológica nossas relações significativas estão limitadas a 150. Se além desse número as suas contas em mídias sociais somarem outros milhares de contatos, saiba: “são meros voyeurs”.

Isso porque na visão do autor vivemos em uma sociedade confessional, onde fazemos de tudo para aumentar o próprio “valor de mercado” por meio do marketing pessoal na web. “As pessoas são ao mesmo tempo promotores de mercadoria e as mercadorias que promovem”.

E como se pretendesse pôr em prova a teoria, questiona: “será que o sucesso do Facebook não é consequência de ele fornecer uma feira em que a necessidade pode encontrar-se todo dia com a liberdade de escolha?”

Além de individualistas, somos, para Bauman, vítimas da perversidade do mercado financeiro, responsável por nos transformar de consumidores inativos em multidões de gastadores e/ou devedores.

Ao citar o caso específico da população norte-americana, o sociólogo radicado na Inglaterra não mede palavras: “os Estados Unidos são famosos por quebrar recordes em todos os campos, e o da estupidez financeira nao é exceção”. Como exemplo do infame estímulo ao consumismo, menciona a publicidade “sob medida” oferecida pela internet, adaptada de acordo com o perfil de cada usuário (prática comum entre as gigantes da web, como o Google).

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Se os jovens são enxergados como novos mercados prestes a serem explorados, ao mesmo tempo são surpreendidos com a falta de empregos e a desvalorização dos diplomas universitários. Assistem de longe às mudanças na “geografia do trabalho”: empregos migram para países em que “há poucas leis e regulamentos restringindo a liberdade dos capitalistas”.

Diante do cenário, Zygmunt Bauman mostra grande preocupação com a falta de preparo da juventude para enfrentar um mercado em transição, que talvez já esteja na era pós-industrial. Com cautela, ele lança mão das pesquisas: o 1% mais rico dos americanos não é mais formado por donos de indústrias, e sim por financistas, celebridades, designers. “Hoje, a fonte básica de riqueza e poder são conhecimento, inventividade, imaginação, capacidade de pensar e coragem para fazer de modo diferente”, sugere.


Fellipe Torres

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