Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Nazismo à brasileira

Há 50 anos, o fotógrafo Luiz Alfredo registrou imagens do manicômio brasileiro onde mais de 60 mil pessoas morreram. Dessas, 42 mil não tinham problemas psiquiátricos, mas eram prostitutas, alcoólatras, mendigos. Hoje, ao negligenciar e protestar contra essas minorias, o cidadão brasileiro repete ideias nazistas de eugenia e limpeza étnica.


AAAAAAAAAAAAAA.jpg No finzinho do ano passado, em dezembro, circulou pela mídia a notícia de que moradores de Florianópolis estavam protestando contra os mendigos, e exigiam a retirada deles das ruas. Quando li a repercussão dessa prova de estupidez humana, rapidamente recordei de uma conversa por telefone que havia tido uns meses antes com o repórter fotográfico Luiz Alfredo, um respeitável senhor de quase 80 anos.

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Não nos conhecíamos, mas eu precisava falar com ele sobre um assunto muito sério. Algo terrível. Cinco décadas atrás, Luiz havia fotografado um manicômio na cidade de Barbacena, em Minas Gerais, que por muito tempo funcionou como uma câmara da morte. Foram mais de 60 mil vidas. Como se não bastasse, naquele lugar apenas 30% das pessoas tinham diagnóstico de doença mental. O restante era formado por minorias excluídas do convívio social, como alcoólatras, homossexuais, prostitutas e, claro, mendigos, tais quais os de Florianópolis.

A conversa não foi longa. O assunto era amargo demais, e muito tempo havia se passado desde aqueles cliques na máquina fotográfica. Do outro lado da linha, a voz de Luiz soava melancólica e pesada, como a de quem muito já viu na vida. Fazia sentido. Em nossa rápida conversa, ele me contou da surpresa e do horror sentidos quando chegou à instituição psiquiátrica, em 1963, quando era funcionário da revista O Cruzeiro. “Diferente do trabalho de um profissional que vai para a África e encontra cenas de miséria por lá, cheguei em Barbacena sem saber direito o que estava fazendo e sem saber o que iria encontrar. De repente vi tudo aquilo. Fiz imagens chocantes”.

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O que se vê nas fotos são fragmentos de uma realidade cruel. Naquele lugar, pacientes comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Alguns morriam de frio, fome e doenças. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município.

Ao que parece, 50 anos não foram suficientes para mudar a mentalidade do povo. O que os moradores de Florianópolis estavam exigindo era a aplicação do conceito de eugenia. Ou seja, "controlar os meios para criar uma sociedade de bem nascidos". Foi com essa ideia absurda de "limpeza social" que o Hospital Colônia de Barbacena matou dezenas de milhares de seres humanos, assim como outros milhões de pessoas morreram no holocausto nazista. Sobre o trágico hospício mineiro você pode ler no livro "Holocausto Brasileiro", da jornalista Daniela Arbex, que já foi tema de postagem aqui no Obvious, assinada por Alexia Alves.

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Para ter uma perspectiva mais ampla a respeito da realidade psiquiátrica no Brasil e no mundo, visitei um dos maiores especialistas no assunto ainda em atividade, o médico Othon Bastos. Ele, que tem mais de cinco décadas de atuação como psiquiatra, me recebeu em sua casa, onde ficamos batendo papo por mais de duas horas. Debatemos, por exemplo, os impressionantes dados do Ministério da Saúde: cerca de 12% da população do país (22 milhões de pessoas) precisa de algum atendimento em saúde mental. E nas três perguntas e respostas abaixo, ele comentou as origens da psiquiatria.

Doentes mentais sempre foram vítimas de preconceito?

Sim. Trata-se de um fenômeno pancultural e pan-histórico, ou seja, os transtornos estão presentes em sociedades de todos os tempos. Historicamente, sempre houve discriminação. A própria bíblia se refere aos doentes mentais como “amaldiçoados”. No século 15, dois padres dominicanos escreveram o Malleus Maleficarum, ou, em português, Martelo das bruxas, espécie de manual da inquisição, que descrevia as doenças mentais e relacionava orientações para torturar e matar os doentes.

O isolamento também tem raízes históricas?

Se observarmos o episódio da Queda da Bastilha, na França, veremos que aquela era uma prisão habitada sobretudo por doentes mentais, tanto recolhidos nas ruas quanto entregues pelos parentes. A rejeição familiar é algo muito presente. Há pouca tolerância. Antes dos tratamentos atuais, manter um doente mental em casa em surto agudo era impossível. Hoje ainda é muito difícil. A instituição do asilo para doentes mentais surge com fins filantrópicos, criada por João de Deus (1495-1550), considerado santo.

Quando a psiquiatria como a conhecemos tomou forma?

O pensamento psiquiátrico surgiu com o médico francês Philippe Pinel (1745-1826), que destruiu os grilhões que acorrentavam os doentes e escreveu uma classificação das doenças mentais. Esse fenômeno se repetiu no mundo todo, e cada país teve o seu próprio Pinel. No Brasil, tivemos Juliano Moreira (1873-1933). Aqui, os casos de doença mental na família real portuguesa inspiraram desde cedo os cuidados psiquiátricos, a começar por D. Maria, a Louca. O primeiro hospital, o Asilo D. Pedro II, foi criado no Rio de Janeiro e internou figuras como Lima Barreto.


Fellipe Torres

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