Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Novela, produto de exportação

As "soap-operas" made in Brazil são consideradas parte de uma grife internacional de produtos mainstream. Fazem parte do "soft power" brasileiro, um entretenimento de massa que movimenta indústria milionária.


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Durante cinco anos, o pesquisador Frédéric Martel conduziu pesquisa em mais de 30 países sobre a produção e o consumo de conteúdos para entretenimento. No Brasil, ele visitou a Central Globo de Produção, conhecido como Projac, que descreveu como 130 hectares e dez estúdios, quatro deles dedicados inteiramente às novelas.

Lá, ele diz ter ouvido do cineasta pernambucano Guel Arraes: "Se quiser saber o que eram os estúdios norte-americanos na época de ouro de Hollywood, veja o que estamos fazendo aqui". Com 2500 horas de programas rodados todo ano, os estúdios pertencem à TV Globo, uma das quatro emissoras mais poderosas do mundo. É o coração da indústria brasileira de entretenimento.

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Após um passeio pelos estúdios, Frédéric descreve a megaestrutura em detalhes, como os 65 mil figurinos alojados na oficina de costura. Dos executivos da Globo, ele ouve a explicação: são seis episódios de cada novela por semana, e até cinco novelas por dia, três delas inéditas. Para dar conta do ritmo, portanto, o Projac precisa produzir cerca de 20 episódios por semana.

Ao questionar a temática das "soap-operas", como o gênero é chamado fora do país, ouve de Guel Arraes: "Grosso modo, é a história de um casal que quer se beijar mas que ao longo de quase 200 episódios não tem autorização do roteirista. Enquanto isso, há infinitas intrigas secundárias que mantém o suspense - elemento decisivo da novela".

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Mesmo antes de terminar a explicação, o diretor se corrige: "Mas os tempos mudam. Para a exportação, passamos a reduzir o número de episódios a 50, 60, muitas vezes eliminando as intrigas secundárias para conservar apenas a 'main story line'". Globalmente, 104 países compram novelas produzidas pela TV Globo.

O pesquisador define o Brasil como recém-chegado ao mercado de trocas culturais internacionais. Embora as novelas sejam vendidas há muito tempo, só recentemente passaram a ser realmente rentáveis. No país, o público com poder aquisitivo significativo, aquele mais visado por publicitários, é de apenas 6 milhões de pessoas. Mas a tendência é aumentar para até 100 milhões de pessoas.

Saiba quais são as novelas brasileiras mais exportadas da história:

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Avenida Brasil (2012): 106 países – A mocinha Nina, vivida por Débora Falabella, quer se vingar da vilã Carminha (Adriana Esteves).

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Da Cor do Pecado (2004): 100 países - A história era dos gêmeos, Paco e Apolo, interpretados por Reynaldo Gianecchini. Taís Araújo fez sua primeira protagonista na emissora.

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Terra Nostra (1999): 95 países - Novela de Benedito Ruy Barbosa, em que era abordada a imigração italiana. Foi o primeiro grande papel de Thiago Lacerda, que vivia Matteo. Ana Paula Arósio era a Giuliana.

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O Clone (2001): 91 países - A trama de Glória Perez se passava entre o Rio de Janeiro e Marrocos. Foi protagonizada por Giovanna Antonelli e Murilo Benício, que chegou a fazer três papéis. Além da clonagem, as drogas também foram incluídas na novela.

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Caminho das Índias (2009): 90 países - Outra novela de Glória Perez, que se passava na Índia. Vários bordões da trama viraram mania nacional. Rodrigo Lombardi e Juliana Paes eram os protagonistas. No mesmo ano, a produção ganhou o Emmy Internacional na categoria Melhor Telenovela.

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Escrava Isaura (1976): 79 países - A primeira versão do livro de Bernardo Guimarães marcou época para a televisão brasileira. Lançou Lucélia Santos para o mundo em seu primeiro trabalho.

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Laços de Família (2000): 76 países - História de Manoel Carlos que parou o Brasil com a cena de Carolina Dieckmann ficando careca, pois sua personagem tinha leucemia. Foi o primeiro trabalho de Reynaldo Gianecchini na televisão.

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Anjo Mau (1997): 67 países - Trama escrita por Maria Adelaide Amaral e inspirada em uma novela de 1976 de mesmo nome. Protagonizada por Glória Pires, em que vivia a babá Nice, uma personagem extremamente dúbia e que deixava o público confuso.

Para saber mais:

"Mainstream - A guerra global das mídias e ds culturas"- Frédéric Martel


Fellipe Torres

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