Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Vou repetir só mais uma vez

A repetição nos ajuda a preservar o passado, aumentar conhecimentos e até consolidar nossa identidade. Por outro lado, também é comum recriarmos problemas e empecilhos a partir do que vivemos.


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Quando falamos em "inconsciente", rapidamente associamos a palavra a lapsos, atos falhos, sonhos... mas na realidade ele é algo muito mais vital e íntimo para nós do que isso. Segundo o psicanalista J.-D. Nasio, autor de vários livros publicados no Brasil, o inconsciente é, primordialmente, a força soberana que nos confere identidade social e nos impele a escolher a mulher ou o homem com quem compartilhamos a vida, a profissão que exercemos, a cidade ou a casa onde moramos - "escolhas que julgamos deliberadas ou fortuitas, ao passo que, na verdade, nos foram sutilmente ditadas pelo inconsciente".

Uma outra força da inconsciência, mais irresistível ainda, é a da repetição (de comportamentos, sobretudo). Ela rege a incidência e a reincidência dos episódios felizes e infelizes que constroem nossa existência. "A repetição designa um movimento universal, uma pulsação que rege a ordem biológica, psíquica, social e até mesmo cósmica", define J. -D. Nasio.

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Esse conceito dialoga com a afirmação de Spinoza de que todo ser tende a "perseverar no ser", pois sejam boas ou más nossas escolhas cotidianas, estamos obstinados a continuar sendo o que somos. "Nossa existência é um plebiscito, a cada instante, de nosso desejo de viver. Todo dia, ao nos levantarmos e nos dedicarmos a nossos afazeres, implicitamente, dizemos sim à vida", diz Nasio.

Repetir a si mesmo é preservar o passado. É se apropriar desse passado, aumentar os conhecimentos a partir da experiência acumulada. O ato da repetição está associado à autopreservação, ao desenvolvimento pessoal e à consolidação de nossa identidade. Repetir nos estrutura, tranquiliza e faz bem (por mais que a rotina pareça, vez ou outra, de uma chatice insuportável).

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Como o leitor pode imaginar, porém, há o outro lado da moeda. Da mesma maneira que vivemos repetindo ações, ideias, resgatando memórias, também há as repetições patológicas. Assim define J.-D.Nasio: "o retorno compulsivo de um passado traumático que explode em comportamentos irreprimíveis, repetitivos, liberadores de tensão, por vezes violentos e sempre doentios".

O que Freud pensava a respeito da repetição:

"O amor de hoje é sempre a repetição do protótipo do primeiro amor infantil com a mãe. Amar é invariavelmente amar pela segunda vez. Entretanto, não simplifiquemos demais: incontáveis acontecimentos psíquicos tornam nosso amor de adulto complexo, único e misterioso".

"Alguns indivíduos passam a impressão de serem perseguidos pelo destino, de que uma força demoníaca guia sua existência, e desde o início a psicanálise sustentou que, para a grande maioria, tal destino era preparado pelo próprio sujeito".

"O que permanece incompreendido retorna sempre, como alma penada, até que sejam encontradas solução e liberação".

Para ler mais:

"Por que repetimos os mesmos erros" - J.-D. Nasio

"Carta 52 - Obra completa de Sigmund Freud"

"Recordar, repetir e elaborar" - Sigmund Freud


Fellipe Torres

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