Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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A biblioteca de Freud

O pai da psicanálise era um apaixonado por livros. Em suas estantes não faltavam obras de Shakespeare, Flaubert, Goethe, Dostoievski.


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Sigmund Freud (1856-1939) era amante dos livros. Sua biblioteca em Viena, na Áustria, era composta de mais de 2 mil títulos. Eram obras de todos os gêneros: ciências do espírito e da natureza, religiões, história, filosofia, etnologia, mitologia, biografias, relatos de viagem, literatura alemã e estrangeira. Especula-se que alguns desses volumes lhe serviram de documentação para os próprios livros (por exemplo, A essência do cristianismo, de Feuerbach, para O futuro de uma ilusão; e os Cadernos de Leonardo da Vinci para Uma recordação de infância…)

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O autor com maior presença nas prateleiras era Shakespeare, com edições inglesas e alemãs. Dostoiévski era igualmente bem-representado nas prateleiras de Freud. Ali também estavam as obras completas de Gustav Flaubert (18 volumes), Guy de Maupassant (20) e Anatole France (21). Entre os alemães, Goethe, Heine e, em destaque entre os contemporâneos, Thomas Mann e Stefan Sweig.

Em vários livros havia frases sublinhadas e observações rabiscadas nas margens: “Não, não! Burrice. Estúpido!”. Poucos dias antes de morrer, voltou suas atenções para A pele de onagro, de Balzac. “Era justamente o livro de que eu necessitava; fala do encolhimento e da morte por inanição”, teria dito.

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Em 1907, Freud respondeu pesquisa de opinião feita pelo editor e livreiro Hugo Heller, que pediu a indicação de “dez bons livros”. Como resposta, Freud diz que ali não estão as dez maiores obras-primas da literatura, ou os dez livros mais importantes. Listou, portanto, “bons livros”, conforme solicitado: Cartas e obras, de Multatuli; O livro do jângal, de Kipling; Sobre a pedra branca, de Anatole France; Fecundidade, de Zola; Leonardo da Vinci, de Merejkóvski; A gente de Seldwyla, de G. Keller; Os últimos dias de Hutten, de C.F. Meyer; Ensaios, Macaulay; Os pensadores da Grécia, de Gomperz; Histórias alegres, de Mark Twain.

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A maior influência literária para o pai da psicanálise foi, sem dúvida, William Shakespeare (1564-1616). Freud não somente leu, como se referiu largamente a Shakespeare ao longo da vida. Assim como ele, o dramaturgo inglês foi a fundo na exploração da alma humana e dos seus conflitos, tumultos, fantasmas, loucuras. Ainda adolescente, Freud já recitava de cor cenas de Júlio César e Hamlet. Aos 16 anos, quando certa vez se apaixonou, escreveu em uma carta que só o seu “absurdo hamletiano” o impedia de revelar o sentimento. Tanto na vida pessoal quanto na profissional, Freud interagia sempre com obras como A tempestade, Macbeth, Sonhos de uma noite de verão.

O psicanalista dizia que Édipo Rei era uma “tragédia do destino” e Hamlet uma “tragédia do caráter”. Via em Hamlet um histérico. Alguém melancólico e ao mesmo tempo agitado. Por muito tempo estudou Macbeth, mas dizia “não encontrar solução” (não sabia explicar a prostração de Lady Macbeth após o crime por ela instigado).

Em um de seus textos, O tema dos três escrínios, Freud se inspira em O mercador de Veneza e Rei Lear. Vê na personagem Cordélia uma “figura de morte”, e no rei Ricardo III um “modelo para identificação das exceções”. Com a ajuda de Sonhos de uma noite de verão, Freud estuda o delírio poético.

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Outra influência importante foi Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Aliás, foi depois de ouvir leitura de A natureza, texto então atribuído a Goethe, que Freud decidiu cursar medicina (o ensaio era, na verdade, de Georg Tobler).

Freud citou Goethe em várias de suas correspondências. As menções também surgiam de maneira inesperada nos textos técnicos, onde um pensamento poético se aliava a um pensamento metapsicológico. Os interesses científicos de Goethe reverberam na obra do pai da psicanálise: (ótica, botânica, geologia, osteologia)

O poema A dedicatória do Fausto, de Goethe, foi usado por Freud como prólogo ou epílogo de todos os tratamentos psicanalítico realizados por ele. As múltiplas manifestações da figura do Eros na obra de Goethe foram de grande valia para os estudos freudianos.

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Com E. T. A. Hoffmann (1776-1822), Freud redescobriu e conceituou um sentimento típico das crianças, e que pode ser atualizado na fase adulta. Trata-se da “inquietante estranheza”, ou seja, a emoção ou sensação de quando algo familiar, conhecido ou íntimo se torna estranha, angustiante, até mesmo aterradora. Freud considerava Hoffman “o mestre inigualável do ‘estranhamento inquietante’ na criação literária”, pois as obras do escritor eram recheadas de motivos capazes de despertar no leitor tal sensação.

Sentia-se muito atraído por temas e conceitos abordados na obra de Hoffman, considerado o inventor do conto fantástico moderno: o duplo, a alucinação, a magia, o mistério da arte e do canto, a telepatia. Em um dos ensaios freudianos, há uma exaustiva análise de O homem de areia, conto de E.T.A. Hoffman. Nesse mesmo texto, são citados Shakespeare, Heinrich Heine, Mark Twain, Friedrich Schiller, Goethe, Dante, Schnitzler, Oscar Wilde. Mais do que em qualquer momento, fica clara a grande intimidade de Freud com a literatura. Em outra ocasião, ele publicou nota em um periódico de psicanálise: E.T.A. Hoffman e a função da consciência.

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O escritor russso Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi tema do ensaio Dostoiévski e o parricídio (ato de matar o próprio pai), escrito por Freud em 1928 e utilizado como prefácio do volume A versão original de os irmãos Karamazov (esboços e fragmentos do último romance do autor). No texto, Freud sentencia: “Na rica personalidade de Dostoiévski, é possível distinguir quatro aspectos: o escritor, o neurótico, o moralista e o pecador”. Mais adiante, elogia: “Ele tem seu lugar não muito atrás de Shakespeare. Os irmãos Karamazov é o romance mais grandioso jamais escrito”.

Por meio da análise da obra de Dostoiévski , Freud consegue explicar a um público leigo ideias fundamentais de sua teoria (mais especificamente relacionadas ao ego, superego e id). O psicanalista condenava Dostoiévski por ser pecador, jogador, incapaz de renunciar às tentações. Dizia que ele “se entregava à experiência do mal como se o erro lhe fosse necessário para, em seguida, proclamar as mais exigências éticas, na condição de moralista”.

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Friedrich Schiller (1759-1805), por sua vez, era chamado por Freud de “poeta-filósofo”, pois uma característica marcante de sua poesia era a relação com as reflexões, assim como os poetas pré-socráticos. Em O mal-estar na civilização, um de seus livros mais importantes, Freud reconhece: “Em plena aflição do início, encontrei meu primeiro ponto de apoio na máxima do poeta-filósofo Schiller, segundo a qual ‘fome e amor’ movem as engrenagens do mundo.”

Freud chegava a sonhar com os poemas do escritor alemão. Chegou a usar estrofe do poema À alegria, de Schiller, no trabalho de interpretação de sonhos de um de seus pacientes, descrito como “um rapaz de homossexualidade forte, porém reprimida”.

Schiller também foi um importante teórico da estética, um dos dos primeiros a utilizar a palavra e o conceito de “trieb” (pulsão), em especulações sobre a percepção do belo e a função da arte. Esse conceito teve grande importância na obra de Freud.

Pode-se dizer que a vida e a obra do criador da psicanálise foi guiada por dois “gênios”, o de Goethe, relacionado ao Eros, ao gozo sensível da beleza do mundo e da criação artística, e o de Schiller, encarnação do sublime, da força do ideal, do drama do mundo interior, da revolta contra a injustiça e da exigência da ética.

PARA SABER MAIS

"Freud com os escritores", de J.-B.Pontalis e Edmundo Gómez Magno


Fellipe Torres

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