Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Homenzinhos desenhados não são ninguém

Em ensaio pouco conhecido, o escritor alemão Thomas Mann (1905-1955) faz um apelo: nunca pergunte quem é a pessoa no desenho ou quem é determinado personagem de um romance


01.jpg Recentemente escrevi artigo para um suplemento literário sobre a delícia de ler os ensaios de Michel de Montaigne, um filósofo pé no chão, interessado pelos temas mais diversos possíveis. Ele se deu ao trabalho de investigar empiricamente e escrever a respeito de cócegas, ociosidade, bebedeira, sono, sexo… Sobre a beleza das prostitutas de Florença. O cheiro do gibão, a coceira na orelha, o gosto do vinho. E por aí vai.

Não apenas me tornei um admirador da leveza literária de Montaigne, como passei a me interessar bastante pelo gênero ensaio. Por coincidência, há poucos dias chegou até minhas mãos um ótimo lançamento da editora Zahar: "Thomas Mann - Travessia marítima com Dom Quixote - Ensaios sobre homens e artistas”. O livrinho faz parte da coleção Ensaios & Escritos, que resgata a pouco conhecida obra não-ficional do romancista alemão, Nobel de Literatura em 1929.

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Embora as temáticas de Mann não deem voos tão rasantes quanto as de Montaigne, os textos são um verdadeiro achado. A impressão é de que estamos conversando frente a frente com o escritor, de maneira informal, sobre questões pertinentes tanto para a época em que foram levantadas quanto para os dias de hoje. A cereja do bolo é a beleza e o refino na argumentação de Thomas Mann.

Logo no primeiro texto da coletânea, Bilse e eu, escrito em 1905, o alemão se vale de uma ironia fina para se defender da acusação de ter retratado "com escárnio lascivo” alguns burgueses de sua cidade natal. Mas quando começamos a supor estarmos diante de uma picuinha datada e, portanto, desinteressante para nós, leitores de hoje, Mann desata a fazer reflexões valiosíssimas a respeito da produção literária. Isso com uma elegância invejável, sem irromper para a erudição.

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De cara, ele diz que o talento da invenção, mesmo que poético, "não pode nem de longe valer como critério para a profissão do escritor". Mais ainda: "parece que é um talento subordinado, percebido pelos bons e melhores autores como algo já quase desprezível, de que eles de qualquer jeito não sentem falta”.

Thomas Mann é enfático ao reforçar o chavão do “nada se cria, tudo se copia”, e citar exemplos contundentes. Ele diz: "Não importa se é na história, na lenda, na antiga novelística ou na própria realidade viva que um poeta se apoia - o valor, na essência, não é o mesmo? O que, pois, um Schiller, um Wagner, inventaram nesse sentido? Praticamente nenhuma figura, nenhum enredo”.

Mais adiante, ele recupera um caso conhecido de todos nós para explorar a ideia de apropriação de outras obras para construção das próprias narrativas. William Shakespeare sem dúvida tinha capacidade de inventar (como tinha capacidade de todo o resto), diz Thomas Mann, para depois sugerir que "ele não dava muito peso nem fazia muito uso da invenção”.

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"Ele alguma vez inventou uma fábula? Nem as confusas intrigas de suas comédias foram por ele inventadas. Ele trabalhava de acordo com peças antigas de teatro, novelas italianas e, aliás, leitor enraivecido, retratou contemporâneos seus". De fato, Shakespeare preferia achar a inventar. E Mann destaca como isso acontecia: o bardo inglês garimpava alguma história ingênua que lhe parecia útil para "servir de parábola e vestimenta colorida, de instrumento sensual para representar alguma experiência, alguma ideia".

"Sua obediência à fábula encontrada, sua humildade em relação à exterioridade dada é surpreendente, é comovente; deveria parecer subserviente e infantil se não explicasse como um perfeito desprezo do objetivo, como desprezo de um poeta para quem a materialidade, o aspecto carnavalesco da fábula não significava nada, mas a alma, insuflar a alma, tudo".

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Levantado o argumento, bate o martelo: "Não é o talento da invenção, é a arte de infundir alma que faz o poeta. Não importa se ele preenche uma lenda tradicional ou um pedaço de realidade vivi com seu hálito e sua natureza, a alma, a penetração e a realização do assunto com aquilo que o poeta é, faz o assunto ser de sua propriedade, algo em que, de acordo com sua opinião mais íntima, ninguém, pode pôr a mão".

O ponto de vista do Nobel de Literatura, segundo ele mesmo explica, foi consolidado quando ainda era criança. Dizia se sentir enfurecido com o costume do grande público de "farejar aspectos pessoais em qualquer grande realização”. Então prossegue com um exemplo pessoal: "Eu desenhava homenzinhos a lápis em papel e achava que tinham ficado bonitos. Mas, quando os mostrava na esperança de colher elogios para a minha arte, as pessoas perguntavam 'Quem é?'. ‘Ninguém', gritava eu, quase em prantos. 'É um homenzinho, como você vê, um desenho meu, feito de contornos, meu Deus do céu…’”

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Nada mudou com o tempo. A pergunta acompanhou Thomas Mann por toda a vida. Continuavam perguntando: “Quem é esse personagem?”. Mann considerava uma “verdade imortal” a máxima de que “o artista que não se revela por inteiro é um servo inútil”. E a partir desse pressuposto, ele se pergunta: “Como posso me revelar por inteiro sem ao mesmo tempo revelar o mundo que eu imagino? Minha imaginação, minha vivência, meu sonho, meu sofrimento?"

O texto se encerra com um brilhante e revoltado apelo do escritor:

"Leiam isso! Atentem para isso! É uma mensagem coletiva, um pequeno manifesto. Não perguntem sempre 'Quem é esse personagem?'. Continuo desenhando homenzinhos feitos de contornos, e eles não representam ninguém mais além de mim mesmo. Não digam sempre 'esse sou eu, esse aqui é fulano'. São apenas manifestações do artista baseadas em vocês. Não atrapalhem com fofocas e infâmias a liberdade do artista, que o capacita a fazer o que vocês amam e elogiam e sem a qual ele seria um servo inútil".

PARA SABER MAIS

Travessia marítima com Dom Quixote - Ensaios sobre homens e artistas - Thomas Mann

O escritor e sua missão - Goethe, Dostoiévski, Ibsen e outros - Thomas Mann

Discursos contra Hitler - Ouvintes alemães! - Thomas Mann


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