Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Pescar baleias e fabricar alfinetes

Em qualquer emprego, é essencial ser conduzido pelos próprios valores, ter metas significativas, respeito, e oportunidade para usar os próprios talentos


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"Moby Dick", de Herman Melville, foi considerado revolucionário em 1851, ano de seu lançamento. O romance traz longas descrições imaginativas do narrador – Ishmael, um pescador de baleias -, suas reflexões pessoais, além de longas passagens de não ficção sobre temas diversos. Há vários livros dentro do livro.

Lá pela página 30, na edição mais recente da Cosac Naify, lê-se as seguintes passagens, que nos fazem refletir sobre a função social do trabalho na perspectiva de alguém vivendo no século 19.

“Quem não é escravo? Responda essa. Pois bem, por mais que velhos capitães me deem ordens, por mais que me deem bordoadas e murros, tenho a satisfação de saber que está tudo certo, que todos os homens, de um jeito ou de outro, serviram do mesmo modo – isto é, tanto da perspectiva física quanto metafísica; e , assim, a bordoada universal dá a volta, e todos deveriam trocar tapinhas nas costas e dar-se por satisfeitos”.

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“O ato de pagar talvez seja o castigo mais desagradável que os dois ladrões do jardim nos legaram. Mas ser pago – o que se pode comparar a isso? A atividade urbana pela qual um homem recebe dinheiro é mesmo maravilhosa, considerando-se que acreditamos que o dinheiro esteja na raiz de todos os males terrenos, e que em hipótese alguma um homem endinheirado possa entrar no reino dos céus. Ah!, com que alegria nos entregamos à perdição!”

“Alguém poderia pensar que [pescar baleias] era um jeito ruim de acumular uma fortuna magnífica – e era mesmo um jeito muito ruim. Mas não sou daqueles que buscam fortunas magníficas e fico bastante satisfeito se o mundo me aloja e me alimenta.” whale_image1.jpg

Como diz o historiador britânico Roman Krznaric no excelente “Sobre a arte de viver” (Zahar), durante séculos as pessoas tiveram pouca escolha em relação aos próprios empregos. As atividades laborais estavam quase sempre ligadas ao destino e à necessidade. Na Europa medieval, a imensa maioria da população era de servos, presos a propriedades rurais e aos caprichos dos senhores.

Nos séculos 18 e 19, com a revolução industrial e a urbanização, embora os cidadãos estivessem livres do feudalismo, precisavam vender a força de trabalho para a burguesia. Isso quase sempre significava um emprego monótono em alguma fábrica. Nessa época, foi percebido que a melhor maneira de aumentar a produtividade industrial (e o crescimento econômico) era dividir tarefas complexas em pequenos segmentos.

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Veja a descrição que o filósofo e economista político Adam Smith faz da fabricação de um simples alfinete (atividade com 18 estágios), no livro “A riqueza das nações” (1776):

“Um homem estica o arame, outro o endireita, o terceiro o corta, o quarto o aponta, o quinto martela no topo para receber a cabeça; o fabrico da cabeça requer duas ou três operações distintas; sua colocação é uma atividade peculiar; alvejar os alfinetes é outra; até envolvê-los no papel é um ofício à parte”

O próprio Smith reconhecia, já no século 18, que embora houvesse aumento da produção, passar o dia inteiro endireitando arame causava “torpor da mente” e perda de “sentimento delicado”. Ele admitiu que “o homem cuja vida é passada executando algumas operações simples... não tem nenhuma oportunidade de exercer seu entendimento ou de exercitar sua invenção”.

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Esse modo de pensar está presente até os dias de hoje, com a divisão do trabalho e a imensa quantidade de empregos monótos que contribuem pouco (ou nada) para o espírito dos funcionários.

Roman Krznaric sugere, em contraponto, quais são os propósitos que mais nos motivam: ser conduzido pelos próprios valores; perseguir metas significativas; obter respeito; e usar a série completa de nossos talentos. Essa é uma possível saída para deixarmos de encarar empregos como grandes fardos em nossas vidas. Ao invés disso, fazer as pazes com o cotidiano e enfrentar o trabalho como parte integrante de uma jornada coerente, instigante e - por que não? - prazerosa.

PARA SABER MAIS

Moby Dick - Herman Melville

Sobre a arte de Viver - Roman Krznaric

O ócio criativo - Domenico de Masi


Fellipe Torres

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