Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
[email protected]loud.com

Fingir matar, fingir morrer

Todas as narrativas são, de algum modo, variações de outras, podendo conter colagens, referências, adaptações. A morte simulada de Chicó, em "O auto da Compadecida", é um eco do falso suicídio de Basílio, em "Dom Quixote de La Mancha", e do assassinato de Leucipe, na obra de Aquiles Tácito.


globo__Selton Mello e Matheus Nachtergaele_NR__gallefull.png

A cena é bastante conhecida. Diante da invasão de cangaceiros à cidade de Taperoá, na Paraíba, João Grilo finge matar o amigo Chicó, que escondia embaixo da camisa uma bexiga com sangue falso. Uma punhalada acerta em cheio a barriga do sertanejo, que tomba moribundo. Depois da falsa morte, ele "ressuscita" ao som da gaita "mágica" de João Grilo, supostamente benzida pelo Padre Cícero.

O trecho de O auto da Compadecida, peça escrita por Ariano Suassuna e posteriormente adaptada para a televisão e para o cinema, parece absolutamente original. Quando o lemos (ou assistimos) pela primeira vez, só podemos dar créditos à capacidade de invenção do autor, à engenhosidade com que traduziu, na cena, a maneira sagaz do pobre sertanejo lidar com as adversidades.

Sem jamais tirar o mérito de Suassuna, é curioso lembrar que a literatura, o teatro e até mesmo as produções audiovisuais são fortemente influenciadas por narrativas do passado. Isso não configura, a rigor, plágio, e sim uma natural apropriação de histórias ouvidas, lidas e assistidas ao longo da existência. A partir da bagagem cultural de cada um, é possível criar o "novo", sem medo de se decalcar alguns pormenores (como é o caso).

A peça mais conhecida de Ariano foi escrita em 1955. Cerca de 350 anos antes, Miguel de Cervantes publicava sua magnum opus, Dom Quixote de La Mancha. A certa altura do livro, é descrita a cerimônia de casamento entre Camacho e Quitéria. A união havia sido arranjada pelos pais da moça, a despeito de ela ser apaixonada pelo vizinho, Basilio, que também a ama.

Manuel_Garcia_Hispaleto_Casamiento_Basilio_Quiteria.jpg

Em dado momento da celebração, Basílio surge aos gritos e diz que, sendo ele um obstáculo para a felicidade do casal, está decidido a morrer. Então saca uma espada, apoia no chão e se joga contra a lâmina, que atravessa o seu corpo. Arquejando, prestes a dar o último suspiro, ele insiste que Quitéria lhe dê a mão em casamento. Diante da situação, Camacho concorda, e então Basílio se levanta e revela o truque: a espada havia furado um tubo de sangue, e não o seu corpo.

Pois bem, um estratagema semelhante já havia sido registrado muito antes da publicação de Dom Quixote, pelo escritor Aquiles Tácito, de Alexandria, que viveu no século 2 ou 3. No livro erótico Os amores de Leucipe e Clitofonte, o autor descreve com riqueza de detalhes como a protagonista é assassinada, cena que Clitofonte, o amante, testemunha a uma certa distância, sem poder fazer nada.

v-day-painting-640x480.jpeg

Mais tarde, no velório de Leucipe, é revelado que tudo havia sido encenação. Colegas fingiram matar a mulher com uma faca de lâmina retrátil, comum nos teatros, e uma bexiga cheia de sangue escondida sob as roupas dela.

Terá sido coincidência? Não podemos afirmar com toda a certeza que Aquiles Tácito influenciou Miguel de Cervantes, e que este, por sua vez, inspirou Ariano Suassuna. Mas é sempre bom lembrar que todas as narrativas são, de algum modo, variações de outras, e podem conter colagens, referências, adaptações.

PARA LER

O auto da Compadecida - Ariano Suassuna

Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes

Os amores de Leucipe e Clitofonte - Aquiles Tácito

PS: A ligação entre as cenas de Cervantes e Aquiles Tácito é apontada no ensaio "Travessia marítima com Dom Quixote", de Thomas Mann


Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Fellipe Torres