Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Confesse ao padre que é ateu

A falta de crença em deuses não está necessariamente associada à desvalorização das religiões, cujos mecanismos são, sim, importantes para a sociedade


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Conversar sobre religião é bem difícil, sobretudo quando um dos interlocutores é ateu. Mas quando é inevitável que o diálogo siga nessa direção, o melhor a fazer é encarar o tema com firmeza e respeito pela opinião alheia.

Ao ler "Religião para ateus", do filósofo suiço Alain de Botton, fica claro como o ateísmo pode conviver bem com alguns valores e práticas religiosas que, independente da crença de cada um, exerce importantes funções sociais. Veja abaixo alguns exemplos de como os rituais religiosos mascaram boas intenções:

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Luto

Vários rituais religiosos demarcam um espaço no qual nossas demandas egocêntricas podem ser honradas e, ao mesmo tempo, domadas, a fim de que a harmonia a longo prazo e a sobrevivência do grupo sejam negociadas e asseguradas. Após a morte de um parente amado, há o perigo de que a pessoa em luto fique totalmente dominada pela dor e que pare de cumprir suas obrigações para com a comunidade. Assim, o grupo é instruído a permitir ao enlutado ampla oportunidade para expressar a tristeza, mas também exerce uma pressão gentil, e cada vez maior, para garantir que a pessoa por fim volte a cuidar da vida.

Assim como os católicos têm a missa de sétimo dia e de um mês, os judeus tem os sete dias da shivá, quando há permissão para um período de "confusão cataclísmica"; então uma fase de 30 dias mais controlada (shloshim), em que a pessoa fica isenta de muitas responsabilidades grupais, e depois 12 meses (shneim asar chodesh) nos quais a memória do morto é celebrada em uma oração durante os serviços na sinagoga. Ao final do ano, após a inauguração da lápide (matzevá), mais orações, e uma reunião em casa, as exigências da vida e da comunidade são definitivamente reafirmadas.

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Bar Mitzvah / Festa de debutantes

Por trás da alegria do ritual, está a necessidade de aliviar tensões interiores. Embora pareça preocupado em celebrar o momento em que um menino judeu entra na vida adulta (ou, no Brasil, que uma jovem é apresentada à sociedade, aos seus 15 anos), é igualmente focado na tentativa de reconciliar os pais com a maturidade em desenvolvimento do (da) jovem. Os pais podem nutrir pesares complexos de que o período de criação que começou com o nascimento do filho esteja chegando ao fim e que logo terão de lidar com o próprio declínio e com uma sensação de inveja e ressentimento por serem igualados e substituídos por uma nova geração. No dia da cerimônia, mãe e pai são parabenizados de maneira efusiva pela eloquência e pela realização do (a) filho (a), ao mesmo tempo em que também são gentilmente incentivados a dar inicio ao processo de deixá-lo (la) partir.

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Casamentos

É difícil comparecer à maior parte das festas de casamento sem notar que essas celebrações estão, em algum nível, também marcando uma tristeza, o enterro da liberdade sexual e da curiosidade individual em favor de filhos e estabilidade social, com a compensação da comunidade na forma de presentes e discursos.

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Dia do Perdão

No judaismo, o Yom Kippur é um importante mecanismo psicológico para resolução de conflitos. Trata-se de evento solene onde os judeus devem fazer revisão mental das ações no ano anterior, identificando todos aqueles a quem fizeram mal ou trataram de forma injusta. Na sinagoga, repetem uma oração cuja letra diz “somos todos culpados”. Em seguida, devem procurar aqueles a quem frustaram, enfureceram, traíram ou trataram sem consideração. Aqueles a quem se desculparam, por sua vez, são instados a reconhecer a sinceridade e o esforço feito pelo ofendedor ao pedir desculpas.


Fellipe Torres

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