Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Montaigne e o tempo desperdiçado

Escritor e filósofo do século 16 foi um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes). Analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência.


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Há quem considere perda de tempo acompanhar os comezinhos alheios nas redes sociais. Estão certos. Mas tempo foi feito para se perder, mesmo, oh gente! Com moderação, até bula de remédio vale a pena ser lida (há reações adversas para quase tudo na vida). Bem antes da internet, lembrem-se, já éramos seres sociais, comentaristas do cotidiano, prosadores. Já “curtíamos" e “compartilhávamos" belos pratos de comida, nascimento de filho, papo com taxista, coração partido, tombo na calçada, missa de sétimo dia, o ponto de vista e a experiência de vida alheia.

Um mestre dos assuntos realmente pequenos (e, por isso mesmo, muito grandes) foi Michel de Montaigne, escritor e filósofo do século 16, considerado o inventor do gênero ensaio. Nada era desimportante para a pena do francês. A sua vasta obra analisou a ociosidade, as cócegas, a bebedeira, o sono, o sexo, a flatulência. A beleza das prostitutas de Florença. O cheiro do gibão, a coceira na orelha, o gosto do vinho. Tudo era digno de investigação. Assuntos tratados com tanta seriedade quanto a guerra, a tristeza, a morte. Fez perguntas como: será que os elefantes têm religião?

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O mais famoso de seus ensaios trata do forte laço de amizade com Etienne de La Boétie, relacionamento que durou apenas cinco anos, antes de ser interrompido pela morte do colega conselheiro, autor de um tratado contra a tirania. Montaigne escreveu pela primeira vez sobre o amigo na mesma época em que começou a produzir seus ensaios, em 1572. Como possuía o hábito de revisar e alterar seus escritos, acrescentou novas ideias ao texto pelos próximos 20 anos. Na primeira versão, lia-se: “Se pressionado a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso”. Depois, e aos poucos, incluiu a frase: “Exceto dizendo: porque era ele; porque era eu”.

Fantástica introdução aos ensaios e à biografia de Montaigne é a obra Quando brinco com minha gata, como sei que ela não está brincando comigo? (Difel, 2013), de Saul Frampton. Por meio dela, acompanhamos o pensador em sua investigação sobre a experiência de si próprio. O trabalho de valorização do comum e ordinário, a importância do aqui e agora. No livro, Frampton classifica os escritos de Montaigne como a "primeira representação sustentada da consciência humana na literatura ocidental”. Ou seja, ele foi pioneiro em dar atenção à experiência real de viver. Buscar lições morais nas pequenas coisas.

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O questionamento que dá nome à publicação de fato foi considerado por Michel de Montaigne. A frase sobre brincar com a gata ficou famosa como uma expressão do ceticismo do autor (será que ela é mesmo o animal de estimação dele, ou seria o contrário?). A escrita de Montaigne, aliás, é repleta de animais, baseada no extenso conhecimento do escritor sobre pecuária, agricultura e caçadas. Ele pondera sobre o canto dos galos, a imponência dos cavalos, o hábito de “conversarmos” com cachorros, a alimentação das andorinhas, a organização das abelhas e das aranhas, a automedicação das tartarugas e das cegonhas. Nessas observações, misturam-se fatos, histórias absurdas e fábulas.

Entre as características mais importantes dos ensaios de Montaigne, está o fato de serem extremamente humanos, preocupados com o autoconhecimento, com as semelhanças e diferenças entre as pessoas. Ao lado de Dom Quixote e das peças de Shakespeare, compõem aquela que é considerada uma das mais importantes obras literárias da Renascença. São mais de cem textos, ora específicos, ora genéricos.

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Embora alguns sejam datados, outros soam extremamente atuais, e inspiram a sociedade até hoje. É o caso de seus pensamentos sobre educação, em que critica o apego demasiado aos livros e à “decoreba”. Para o filósofo, esse modelo exige muito tempo e esforço, o que “afastaria os jovens dos assuntos mais urgentes da vida”. Afinal, a educação deveria formar indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática. Essa perspectiva humanista, defensora de uma educação voltada para a ação e para a experiência, é resumida em uma frase: “Entre os estudos, comecemos por aqueles que nos façam livres”.

No seu volumoso trabalho, Montaigne desvia de razões definitivas, de questões centrais levantadas pela filosofia moderna (surgida 30 anos depois dele, com Descartes). Está mais interessado no conhecimento empírico, nas pequeníssimas coisas da vida. Fica a meio caminho entre o individualismo e a descoberta do outro. Não busca verdades indubitáveis, mas se faz perguntas simples e eficazes, como: “Terei desperdiçado o meu tempo?”. Uma possível resposta está nas primeiras páginas dos Ensaios: “Portanto, leitor; sou eu o próprio assunto do meu livro. Não há razão para você gastar seu tempo livre com um assunto tão frívolo e fútil. Então, adeus. Montaigne, nesse primeiro dia de março de mil quinhentos e oitenta”.

* Publicado originalmente no suplemento literário A Palavra, da Academia Pernambucana de Letras.


Fellipe Torres

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