Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Um brinde à tolice ocasional

Todo bom pecador precisa extravasar de vez em quando. No cristianismo medieval, uma vez por ano os membros do clero se entregavam à bebedeira, à zombaria de signos religiosos, na festum fatuorum, a Festa dos Loucos.


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"As religiões são sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com todas as nossas emoções. Sabem como pode ser confuso e humilhante admitir desespero, luxúria, inveja ou egomania", diz o filósofo Alain de Botton, no livro Religião para ateus.

Desse modo, explica ele, as religiões nos dão alguns dias do ano para que nós possamos processar "sentimentos perniciosos". Elas nos ensinam a ser educados, a honrar uns aos outros e a ser fiéis sóbrios, mas também sabem que, se não nos permitirem o contrário de vez em quando, "quebrarão nosso espírito".

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Bom exemplo disso é mencionado no livro: festum fatuorum, a Festa dos Loucos, um ritual comum no cristianismo medieval. Leia a descrição de Alain de Botton:

Durante quatro dias do ano, o mundo ficava de cabeça para baixo: membros do clero faziam competições de bebedeira na nave.

Jogavam dados em cima do altar, zurravam como burros ao invés de dizer “Amém”, faziam sermões de galhofa, baseados em paródias do Evangelho (o Evangelho segundo o Traseiro da Galinha, o Evangelho segundo o Dedo do Pé de Lucas).

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Embalados pela bebedeira, seguravam os livros sagrados de ponta-cabeça, faziam orações para vegetais e urinavam de cima das torres dos sinos. “Casavam” burros, amarravam pênis gigantes de lã em suas batinas e tentavam fazer sexo com homens e mulheres dispostos a tanto.

Mas nada disso era considerado apenas piada. Era sagrado, uma "parodia sacra" idealizada para garantir que durante todo o resto do ano as coisas permanecessem em ordem.

Em 1445, a Faculdade de Teologia de Paris explicou aos bispos da França que a Festum fatuorum, Festa dos Loucos, era um evento necessário no calendário cristão,

“para que a insensatez que é nossa segunda natureza, e inerente ao homem, possa se dissipar livremente pelo menos uma vez ao ano. Barris de vinho de tempos em tempos estouram se não os abrimos para entrar um pouco de ar. Todos nós, homens, somos barris reunidos inadequadamente, e é por isso que permitimos a tolice em certos dias: para que, no fim, possamos regressar com maior fervor ao serviço de Deus”.

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A moral que devemos tirar é que, se desejamos comunidades que funcionem bem, não podemos ser ingênuos quanto à nossa natureza. Precisamos aceitar a profundidade de nossos sentimentos destrutivos, antissociais.

PARA LER

Religião para ateus - Alain de Botton (Editora Intrínseca)


Fellipe Torres

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