Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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A sobrevivência de Frei Caneca

Fuzilado há mais de 190 anos, contra as paredes do Forte das Cinco Pontas, no Recife, o revolucionário pernambucano ocupa espaço tímido na história oficial, à sombra da figura de Tiradentes


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Em mais de 70 municípios brasileiros, há pelo menos uma Rua Frei Caneca. A reverência ao carmelita Joaquim do Amor Divino Rabelo tem forte relação com o desfecho de uma vida de luta pela democracia e liberdade. Em 13 de janeiro de 1825, por ordem da Coroa Imperial, o revolucionário foi vítima de arcabuzamento na muralha do Forte de São Tiago das Cinco Pontas, no bairro de São José. Hoje, 190 anos depois, vê-se no local um pequeno busto em memória do mártir pernambucano, mas as homenagens não costumam ir além. Da mesma forma, os livros didáticos reservam ao frade um papel de coadjuvante nos movimentos políticos impulsionadores da Independência do Brasil (1822) e da Confederação do Equador (1824), conflito separatista do qual o líder político foi protagonista.

Embora tenha sido lembrado como figura central por algum tempo, logo o republicano líder da Revolução Pernambucana perdeu o título de “pai da pátria” para Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Herói da Inconfidência Mineira, o mineiro foi escolhido pela história oficial como patrono cívico do Brasil, enquanto Frei Caneca seguiu rumo ao ostracismo. A explicação mais simples para tal interpretação é o prevalecimento dos episódios históricos ocorridos mais ao sul do país, mormente em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

Pesquisador do imaginário da república, o historiador mineiro José Murilo de Carvalho aponta a legitimidade das lutas encampadas pelo pernambucano, uma pela independência e outra contra o absolutismo do primeiro imperador. Para o acadêmico, enquanto Tiradentes morreu cercado de misticismo e fervor religioso, tal qual um Cristo, Frei Caneca seguiu até o último momento como um mártir rebelde, desafiador, agressivo. Eis a diferença entre uma vítima religiosa e um líder cívico.

Intrigado com tamanha “injustiça”, o escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto narrou a vida e a morte de Frei Caneca na poesia longa O auto do frade (1924). Gostaria de fazer um filme, mas, diante da falta de intimidade com o cinema, delegou a tarefa à filha, Inez, cujos esforços estão até hoje direcionados para a produção do longa-metragem. Do Rio de Janeiro, onde mora, ela se desdobra para dar prosseguimento ao desejo do pai.

Aprovado pela Lei Rouanet, o projeto tem orçamento de R$ 577,4 mil e prevê distribuição gratuita em DVD, mas acumula poeira na gaveta por falta de recursos. Enquanto isso, começam os preparativos para Um certo Joaquim, filme sobre Tiradentes orçado em R$ 3 milhões e dirigido pelo pernambucano Marcelo Gomes. O mineiro também será enfocado pela série Inconfidência, programada para ser exibida ainda em 2015, na TV Globo.

No ano passado, ao menos três romances históricos foram lançados em torno da figura do inconfidente mineiro. Para este ano, a editora Companhia das Letras planeja o lançamento da biografia de Tiradentes, escrita por Lucas Figueiredo. Quando se trata do herói pernambucano, por outro lado, as portas do mercado editorial quase se fecham. Uma das poucas publicações recentes sobre ele foi a novela gráfica A morte e a morte de Frei Caneca (2013), com roteiro do historiador Rodrigo Acioli Peixoto e ilustrações de nove artistas. A história em quadrinhos foi viabilizada pelo Fundo de Incentivo à Cultura (Funcultura) e teve circulação restrita ao estado. O mártir também deu nome a uma emissora pública de radiodifusão no Recife, de caráter educativo e cultural, a rádio Frei Caneca. Atualmente, a estação funciona apenas na internet (freicanecafm.org).

No âmbito acadêmico, a presença mais significativa do frade carmelita é nos cursos de direito, onde se estuda a atuação do intelectual na escrita de comentários nas cartas constitucionais brasileiras. Além de político e advogado, Frei Caneca atuou também como jornalista, e chegou a fundar o jornal Thypis Pernambucano, veículo divulgador de ideias liberais. Fazia parte da equipe o tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão, futuro fundador do Diario de Pernambuco, em 1825. Uma das poucas tentativas por parte do poder público de fazer justiça à memória de Joaquim do Amor Divino Rabelo foi com o projeto de lei 5.299/2005, criado para colocar o nome do revolucionário no Livro dos Heróis da Pátria, ao lado de Dom Pedro I. Na prática, o gesto simbólico não teve grandes repercussões. Mas assim como Frei Caneca não temia o fim da vida, sairá incólume das sombras do esquecimento. Sobreviverá à segunda morte.

* Artigo publicado originalmente no Diario de Pernambuco de 13 de janeiro de 2015


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