Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Mário de Andrade, carnaval e cocaína

Nos 70 anos da morte do poeta, a lembrança dos festejos de Momo no Recife, regados a éter, cocaína, frevo e maracatu


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A liberdade não é um prêmio, é uma sanção, dizia o poeta Mário de Andrade. E de ser livre e aproveitar a vida, o escritor paulista entendia bem. Em 1929, curtiu o carnaval do Recife ao som de Vassourinhas, regado a muito éter e cocaína, na companhia de figuras como Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre. Nem todos participavam da “loucura formidável”, conforme o autor narrou em anotações de viagem. Escritos dessa espécie fortalecem o quanto o intelectual foi além dos episódios pelos quais ficou mais conhecido: a Semana de Arte Moderna e a escrita de Pauliceia desvairada (1922), Amar, verbo intransitivo (1927) e Macunaíma (1928). Músico e folclorista, ele foi também um bon vivant, sempre interessado em aprender mais sobre a diversidade da cultura brasileira.

Com o aniversário de 70 anos da morte de Mário Raul de Moraes Andrade, neste 25 de fevereiro, começa a contagem regressiva para a obra completa entrar em domínio público, em 2016. A partir de então, romances, antologias, cartas, anotações e diários de viagens devem ganhar novas edições e até serem publicados na internet. Além de conhecer melhor a produção literária, será mais fácil ficar a par de episódios como as passagens pelo Recife em 1927 e 1929, durante expedição etnográfica pelo Brasil. “A experiência fez parte de extensa viagem feita a várias cidades do Norte e Nordeste. Considero fundamental para o conjunto da obra, tanto do ponto de vista literário quanto musical. Em várias cartas, ele faz menção a isso, a ter conhecido o ‘Brasil real’”, diz o professor de literatura da UFPE Lourival Holanda.

Na jornada, o poeta registrou as impressões em um diário de 28 páginas, com letras minúsculas para aproveitar bem o espaço. No regresso a São Paulo, os escritos dariam origem ao livro O turista aprendiz (fora de catálogo). Além do olhar curioso a respeito dos lugares e pessoas, os manuscritos descortinam revelações sobre o próprio escritor: “É incrível como vivo excitado, se vê que ainda não sei viajar, gozo demais, concordo demais, não saboreio bem a minha vida. Estas notas de diário são sínteses absurdas, apenas para uso pessoal”.

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Diário de bordo

FAZENDO AS MALAS Em carta ao amigo pernambucano Manuel Bandeira, de 19 de maio de 1926, Mário descreve os planos de viagem etnográfica para o “norte” do Brasil, omo se referia ao Nordeste. Viria a conhecer pessoalmente um “amigo do coração”, Luís da Câmara Cascudo. A viagem só aconteceria no ano seguinte, depois de passar pela Amazônia. Ele aceitou convite de Olívia Guedes Penteado, considerada mecenas dos modernistas. O poeta resistia, mas topou diante da insistência. “Afinal, quando tudo quase pronto, resolvi ceder mandando à merda esta vida de merda. Vou também”.

24 HORAS NO RECIFE Em 15 de maio de 1927, logo no começo da viagem, Mário desembarcou de um navio no Recife, onde era esperado por Ascenso Ferreira e Joaquim Inojosa. Escreveu: “Praia de Boa Viagem, manhã, água-de-coco gelada. Almoço no [restaurante] Leite, essa fatalidade recifense. Casa do Ascenso tarde toda, ele dizendo-cantando verso que mais verso, na completa ignorância das nossas inquietações ou fadigas. Imaginem onde jantamos? No Leite. Passeio Boa Viagem ao luar sublime, essas meninas...”. Passou só 24 horas na cidade.

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O RETORNO Sete meses depois, retornou à cidade e ficou hospedado no Hotel Glória, na rua Nova, em Santo Antônio. Almoçou peixe-de-coco e feijão, comeu cajus e mangas. Anotou: “Queijo daqui é meio parecido porém mais gostoso que requeijão. Feijão-de-coco é sublime”. Aproveitou a noite para visitar igrejas e passear pelas ruas mais antigas da cidade. Passou a rabiscar comentários sobre as condições das estradas, das casas (“uma evolução dos mocambos”). Lamentava a pobreza nas ruas. Para o poeta, a “feiúra” era culpa da invasão dos “matutos, sertanejos, da zona do mato”, estabelecidos na cidade em busca de dinheiro, em casas “de barro feio, cobertas com folhas caídas dos coqueiros”. Enquanto no Rio e em São Paulo, os desvalidos se “disfarçam morando em cortiços invisíveis”, analisava, “o Recife é mais sincero, conta a ‘tristura’ de tantos desiludidos”.

CACHAÇA E LANCHA Após 13 horas de viagem até Igarassu, achou o lugar “uma cidade morta”. Tomou banho de rio e registrou: uma loja chamada Casa dos Pobres, um caminhão “Deus me perdoe”, o sabor de monjopina (“a melhor pinga do mundo, destilada em alambique de barro no engenho de Monjope, pura, macia, emoliente, extasiante, melhor que whisky com água-de-coco”). Aceitou convite de Gilberto Freyre para passear de lancha no Rio Capibaribe (“maravilhoso, com vista da cidade, depois dos arrabaldes, da Madalena, com os velhos cais das vivendas das famílias ricas antigas). Mas Freyre escreveu: “Má impressão pessoal de M. de A. [...] Seu modo de falar, de tão artificioso, chega a parecer - sem ser - delicado em excesso”. Para a antropóloga Fátima Quintas, a relação sempre foi conflituosa. “Havia um colóquio, mas com a presença constante de farpas. Gilberto era um sedutor, não gostava de romper com as pessoas. Mantinha o convívio superficial”.

FOLIA, ÉTER E COCAÍNA Em 8 de fevereiro de 1929, sexta-feira de Carnaval, Mário retornou ao Recife e saiu pela cidade em busca de um maracatu, mas não encontrou. (“Pelas 22 horas, achado o Cícero Dias, caímos todos no frevo do Vassouras. Loucura e formidável porre de éter”). No Sábado de Zé Pereira, outra droga. (“José Pinto e eu vamos no meu quarto de hotel tomar coca. Surge o pessoal todo, que soube pelo merdinha do pintor [Cícero Dias] do caso da coca. Daí em diante o pessoal, principalmente Ascenso, se tornaram intoleráveis”). Passada a confusão, o grupo saiu para comer sarapatel. No domingo, assistiu à apresentação do Maracatu Nação Leão Coroado. (“Depois foi a peregrinação através das ruas e dos frevos. Caí no frevo por demais. Acabei no Palace com amigos de improviso e o José Pinto, cocaína e éter”).

ENGENHO E IGREJAS Passada a quarta-feira de cinzas, visitou o engenho do pai de Cícero Dias, na Zona da Mata Sul, e cruzou os municípios de Jaboatão dos Guararapes (“estrada péssima”), Cabo de Santo Agostinho e Escada (“sem nenhum interesse excepcional”). Voltou ao Recife, faz um sobrevoo em pequeno avião (batismo aeronáutico no Campo de Ibura, onde hoje fica o Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes), e seguiu para Olinda, segundo a descrição dele, cidade “cheia de caráter, uma gostosura. A Sé, uma merda exterior. Convento de São Francisco, maravilha de azulejos e pinturas”). Conheceu igrejas como a Ordem Terceira de São Francisco, Madre de Deus (“Os pintores que andaram por aqui eram mesmo bons”). Na despedida, um almoço na casa de Cícero Dias com a presença de Murillo la Greca (“depois, ateliê de Murilo ver bobagens dele”).

*Reportagem escrita originalmente para o jornal Diario de Pernambuco.


Fellipe Torres

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