Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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O legado oculto da Polaroid

Fundador da empresa de câmeras fotográficas, Edwin Land dedicou a carreira a proteger invenções de grandes empresas


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Tradução livre de artigo assinado por Ronald K. Fierstein, publicado no TheAtlantic.com. Leia o texto original (em inglês).

Em 1928, aos 19 anos, Edwin Land, que mais tarde se tornaria o pai da fotografia instantânea e o fundador da Polaroid, abandonou a graduação em Harvard logo no início do curso. Ele precisava terminar seus experimentos focados na invenção daquilo que, para ele, seria um produto de imenso potencial de mercado: um polarizador de plástico.

Até então, o processo de polarização (remoção do excesso de brilho) demandava a utilização de enormes pedras de cristal. O adolescente desenvolveu um material mais útil para polarizar a luz. Colocou pequenos cristais em um saquinho de plástico e deu o nome à essa invenção de "polaroid".

O produto se tornou um grande sucesso, obviamente. A Kodak passou a utilizar nas lentes de suas câmeras. Outras empresas usaram para óculos escuros. Hoje, polarizadores de plástico são encontrados em quase tudo, desde parabrisas de carro até televisões LCD.

Mas antes de mostrar a Polaroid a qualquer pessoa, Land buscou os direitos legais da invenção. Através de um amigo, ele foi apresentado a Donald Brown, um jovem advogado especialista em patentes que iria trabalhar no caso.

Essa proteção legal permitiu Land obter grande sucesso comercial e construir uma empresa gigante, além de manter os concorrentes a uma distância segura. Foi a partir daí que se tornou um dos inventores mais prolíficos da história. Quando ele morreu, em 1991, possuia 535 patentes em seu nome, o que o coloca como o terceiro na lista dos inventores dos Estados Unidos.

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A gênese do sistema de patentes norte-americano pode ser associada à lei de patente inglesa de 1624. A constituição autorizava o Congresso a produzir leis para incentivar a inovação intelectual e proteger os direitos dos criadores.

Em 1860, o ex-presidente americano Abraham Lincoln comentou esse avanço: "Antes (da lei de patentes britânica), qualquer homem poderia instantaneamente usar o que outro homem inventasse, então esse inventor não teria nenhuma vantagem especial em relação à obra. O sistema de patentes mudou isso, garantiu ao inventor por um período de tempo o uso exclusivo de suas invenções e, assim, adicionou combustível ao fogo do interesse dos gênios na descoberta e produção de coisas novas e úteis".

Enquanto o sistema de patentes certamente contribuiu para o avanço tecnológico durante a revolução industrial, o posicionamento em relação ao sistema começou a mudar nas primeiras décadas do século 20. A urgência das pujantes e poderosas companhias norte-americanas desencadeou um medo anti-monopólio que, por sua vez, gerou leis antitruste. Nessa era, as patentes começaram a ser vistas como parte de um problema, uma vez que significava a possibilidade de grandes empresas acumularem monopólios. Como resultado, a tendência anti-patentes persistiu no Congresso até a década de 1970. Várias invenções tiveram as patentes invalidadas e se tornaram frágeis diante da justiça.

Na tentativa de contrabalancear a visão negativa a respeito do sistema de patentes, a Associação de Direitos de Patentes de Boston convidou Land para liderar um jantar, em 1959, voltado para membros da elite e juízes federais. Ele aceitou o desafio e apresentou uma defesa apaixonada e racional do sistema de patentes, em particular a sua vital importância para pequenas empresas e para os jovens empreendedores científicos. "Deveria ser o papel do nosso sistema de patentes trazer encorajamento, um senso de recompensa, um estímulo para a pronta publicação de homens e mulheres na ciência aplicada. Há centenas de novos campos de conhecimento prontos para serem abertos. Somente um punhado desses será usado pelas corporações, deixando muitas áreas intocadas. Sem a proteção do sistema de patentes, não poderemos contar com os jovens empreendedores científicos para desenvolver o restante".

O discurso de Land foi recebido com muito entusiamo. O conselho geral de patentes da General Electric's chamou de "o mais impressionante e significativo depoimento sobre o assunto feito em muitos anos". O texto repercutiu bastante e Land passou a ser chamado do "Campeão das Patentes".

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Ainda assim, o sistema de patentes navegou por mares revoltos nos anos seguintes. Foi nesse ambiente anti-patentes que começou a briga entre Polaroid e Kodak a respeito da fotografia instantânea. Ironicamente, o Land precisaria confiar piamente no sistema de patentes para salvar a própria empresa.

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Polaroid e Kodak tiveram um longo relacionamento desde os anos 1930, quando a Kodak se tornou o primeiro cliente significativo para o polarizador de plástico inventado por Land. Nos anos 1940, Land começou a fazer pesquisas que o levaram a lançar, em 1948, a primeira câmera fotográfica e filmadora com sistema em uma etapa. Era preciso algum tempo para processar a imagem, e retirar a impressão positiva do negativo.

Quando a Polaroid finalmente tinha um produto pronto para comercializar, foi a Kodak quem Land pediu ajuda na fabricação dos filmes. Pelas próximas décadas, a Kodak continou a trabalhar em parceria com a Polaroid em cada novo produto, do sépia ao preto e branco e, depois, colorido.

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Em 1968, com a Polaroid estabelecida como um dos principais compradores da Kodak, Land mostrou aos executivos da Kodak o protótipo para um filme Polaroid de nova geração, que iria colaborar com as vendas. Pela primeira vez, a fotografia sairia da própria câmera e não precisaria de nenhuma manipulação por parte do consumidor. Bastaria clicar e esperar a foto se auto-revelar.

Aos colegas da Kodak, Lend disse - com bastante entusiasmo - que acreditava ser aquele um sistema capaz de revolucionar a fotografia definitivamente. Os executivos levaram a história a serio, e colocaram equipes de marketing para analisar a questão. Se Land estivesse correto, a Kodak poderia perder bilhões de dólares por causa do novo sistema da Polaroid.

Esse insight mudou o posicionamento da Kodak imediatamente, que passou a exigir que em troca da ajuda para colocar filmes fotográficos no mercado, a Polaroid permitisse à Kodak entrar no mercado da fotografia instantânea.

Mas a Polaroid negava conceder qualquer liberação à Kodak, a despeito da relação de dependência entre as duas empresas (com a Polaroid, muito menor, em clara desvantagem). Após perder o apoio da Kodak, a Polaroid foi forçada a seguir com os próprios recursos. Demorou até 1972 para a empresa de Land conseguir lançar o produto com o qual seu dono tanto sonhava (câmera SX-70).

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A Revista Time chamou a máquina de "impressionante conquista tecnológica. A Life, considerou que aquele seria uma "ameaça à supremacia da Kodak na indústria fotográfica de US$ 6 bilhões". Todos na Kodak concordavam com isso, e começaram a despender bastante tempo e recursos no desenvolvimento de tecnologia própria para entrar no mercado da fotografia instantânea.

Ao se deparar com o equipamento lançado pela Polaroid, os cientistas da Kodak não tinham certeza se poderiam alcançar aquele nível de tecnologia. O desânimo se prolongou por muitos anos, embora a empresa não desistisse do embate. Tanto, que essa se tornou uma das maiores batalhas do universo tecnológico já vista nos Estados Unidos. Entre 1968 e 1976, entraram em discussão cerca de 250 patentes. Após um longo processo judicial, a Kodak perdeu e voltou à estaca zero.

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Somente em 1976 a Kodak foi capaz de lançar uma câmera fotográfica instantânea, apesar dos riscos. Entre os muitos artifícios utilizados, a Kodak acusou a Polaroid de manipular e monopolizar o mercado, uma vez que repatenteava as mesmas invenções várias vezes.

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A "guerra" só foi acabar em 1991, com nova vitória (desta vez definitiva) da Polaroid. A Kodak foi forçada a retirar do mercado todos os seus produtos que infringiam as patentes, além de pagar multa de mais de US$ 1 bilhão à concorrente.

A briga entre as duas empresas representou um retorno à era anterior às patentes. Hoje, empresas como a Apple podem novamente confiar nas duas patentes para proteger a tecnologia usada em seus produtos e, assim, exigir punição a possíveis concorrências desleais, como ocorreu com a Samsung.

Esse avanço foi bastante satisfatório para Edwin Land, que viu o sistema de patentes como uma ferramenta necessária para encorajar a inovação. A sua carreira foi de extensa dedicação não somente à Polaroid, mas à defesa das patentes.


Fellipe Torres

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