Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Raimundo Carrero e a idiotice da morte

Quatro anos após sofrer acidente vascular cerebral, escritor se transforma em personagem para fazer "catarse da própria alma"


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JANEIRO DE 2015, BAIRRO DA BOA VISTA, RECIFE, 84 QUILOS. Depois de fazer o sinal da cruz e apanhar um táxi, desembarca na igreja Salesiano Sagrado Coração, frequentada desde a infância. Com passos vagarosos e mancos, caminha em direção ao altar. O homem de 67 anos é iluminado por raios de Sol filtrados por vitrais. Aparenta mais idade. Senta em um dos bancos de madeira, contempla o lugar sagrado e reza em silêncio. Dali a pouco, verbaliza as memórias reavivadas pela visita. Padres, missas, estátuas. A fala comprometida e a dificuldade de locomoção são sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há mais de quatro anos, e até hoje tratadas com hidro e fisioterapia.

O infortúnio na saúde de Raimundo Carrero teria pouco impacto no conjunto da sólida obra literária, não fosse a decisão de transformar o drama pessoal em uma "catarse da própria alma". Pela primeira vez em quatro décadas de carreira, o autor pernambucano se coloca como protagonista, no livro O senhor agora vai mudar de corpo. "Sinto angústia por estar exposto. Coloquei minha alma em julgamento para me reconhecer como pessoa. Quem é Raimundo Carrero? Quero respostas". O questionamento existencial busca elementos não só nas agruras da enfermidade, mas nas relações com mulheres, amigos, jornalismo e literatura.

OUTUBRO DE 2010, BAIRRO DO ROSARINHO, RECIFE, 100 QUILOS. De aspecto rechonchudo e barba cheia, bebia ao menos uma garrafa de uísque por dia. Associados ao alcoolismo e à ausência de exercícios físicos ("intelectual não tem tempo para isso, ou escreve ou anda"), surgiam problemas cardíacos. Na madrugada do dia 19, despertou sem conseguir se mexer. "Foi fascinante acordar, mesmo doente. Estava magoado e eufórico. Descobri que não estava morto e foi ótimo. Morrer é muito idiota. A gente põe uma carga tão grande na morte, mas é uma besteira". A confusão mental não permitia a Carrero diferenciar sonho e realidade, duas dimensões coexistentes no romance sobre o AVC. Internado em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), ouviu a voz de Jesus Cristo ("não temas, eu estou contigo"). Era o áudio de uma tevê distante, sintonizada em programa religioso.

NOVEMBRO DE 2010, ROSARINHO, 89 QUILOS. Ao receber alta do hospital, a primeira providência foi testar o teclado do computador para saber se voltaria a escrever. Com a mão parcialmente paralisada, redigiu linhas com um dos dedos indicadores, mas havia restrições de raciocínio. Tentou ditar os textos para a fisioterapeuta, mas não gostou. Por três vezes, começou versões do livro com um narrador na primeira pessoa, mas considerou os textos "relatoriais e sem beleza literária". O bloqueio seria um mecanismo inconsciente para não encarar os fantasmas do AVC. "Eu perdia a capacidade de pensar por estar colado na realidade. Revolvia acontecimentos dolorosos e me impedia de escrever".

Carrero passou a investir em uma "falsa terceira pessoa" para narrar o drama. Das próprias oficinas de criação literária, pinçou elementos e técnicas, como a evocação de símbolos para representar a mudança de corpo ("homem gordo, magro, anão, mulher grávida") e a angústia ("morcegos, andorinhas, aranhas, fezes"). Em um capítulo, conta o quão terrível foi encarar uma semana de diarreia ("um drama horrível e sujo"). Na realidade, segundo a esposa do escritor, o desarranjo durou apenas cinco minutos.

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FEVEREIRO DE 1960, BOA VISTA, 41 QUILOS. Aluno do Salesiano Sagrado Coração (naquela época, colégio interno), recém-chegado do Sertão do estado, o menino de 12 anos era péssimo estudante. Reprovou várias séries, tocou em banda de rock, até ser encarregado de ajudar o padre nas missas das seis da manhã, falando frases em latim. Nunca soube significados ou pronúncias corretas. Mas o fascínio maior era a estátua do Cristo morto, banhado em sangue, no canto.

Dali em diante, a igreja se tornaria a segunda casa do escritor e, a fé, o porto seguro. "A religião é tão fundamental quanto medicação e fisioterapia. Rezei muito. Hoje, levanto às 4h45 e peço a minha cura a Jesus. Mostro a necessidade de que eu fique bom logo". O próximo livro de Carrero, aliás, será uma biografia do líder cristão ("sem polêmica, sem pesquisa teológica, mas um relato sobre o Cristo me ensinado por minha mãe").

*Publicado originalmente nos jornais Diario de Pernambuco e Correio Braziliense


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