Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Mamãe mandou eu escolher esse daqui

A cada decisão tomada, surgem inevitáveis frustrações. Voltar atrás, às vezes, é absolutamente necessário, a despeito dos constrangimentos.


close-up-of-a-pencil-eraser_shutterstock_55561411.jpg A frustração decorrente de cada escolha nem sempre é no singular. Algumas decisões, embora não sejam definitivas, são reafirmadas de tempos em tempos, e mesmo a inércia é capaz de garantir a sua manutenção. Nada muda antes de manifestação contrária. Isso não implica em se tornar imune a eventuais crises. Vestir um decote e se sentir leve ou pesadamente frustrada por não ter escolhido uma camisa social, no caso de uma mulher diante do armário, é um exemplo possível, para se ater às questões mais práticas e menos existenciais.

O sentimento de frustração costuma ser confundido com arrependimento. Não tem nada a ver. Você pode interpretar o fato de o ser humano ser instado a fazer escolhas centenas de vezes como um exercício natural da cidadania, mas basta observar as opções descartadas para pôr em questionamento esse ponto de vista. A cada instante, somos obrigados a negar, nos afastar, recusar, deixar de lado, abandonar qualquer elemento em detrimento de outro. Estamos sempre sendo impostos à negação. Com frequência não nos interessamos tanto assim pelo descarte. Mas o desapego não é fácil. Descartar uma ou várias opções é assumir a responsabilidade pública dessa escolha, algo nem sempre feito no melhor juízo.

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Como o cotidiano nos enfileira novos assuntos a tratar, mal sobra tempo para repensar os casos individualmente. E se não há certeza a respeito do item escolhido? E se a dúvida permanece mesmo após a escolha? Em poucos casos é possível voltar atrás e desfazer uma má escolha. Já em outros casos, o erro não está na seleção inicial, mas decorre do fato de as coisas mudarem a todo instante, e as pessoas idem. Um acerto pode virar um erro, a depender da hora, lugar e ocasião. O inverso também é proporcional, mas, de tão improvável, não vale a pena ser considerado.

A questão crucial é saber o limite entre a transformação de uma situação menos favorável em uma mais interessante e a simples fluidez das coisas. Porque tudo ao nosso redor flutua e se move como a maré, como costuma repetir um sociólogo-filósofo dedicado a estudar a "liquidez" da vida moderna. A metáfora é incrivelmente universal para a contemporaneidade. Claro, ser líquido é um nome bonitinho para um conceito abstrato, relacionado à fluidez e à fugacidade de tudo ao nosso redor. E por não ser muito preciso, a transformação das coisas (sejam elas decisões, modos de pensar, jeito de ser etc) nos coloca diariamente em impasses. Porque mudar uma decisão pode custar muito caro. Aliás, a mudança, mesmo de uma decisão mal feita para uma outra mais acertada, pode se revelar um erro, haja vista a necessidade de se movimentar e, por conseguinte, alterar estruturas mais complexas.

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Escolher é preciso, apesar das inevitáveis frustrações. Voltar atrás de algumas escolhas é igualmente necessário, a despeito dos constrangimentos.


Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
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