Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Brasil no front da Segunda Guerra Mundial

Setenta anos após o cessar-fogo, participação de pracinhas tupiniquins em conflitos na Itália ainda é investigada por historiadores, escritores e cineastas


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No apagar das luzes da Segunda Guerra Mundial, entre 1944 e 1945, 25 mil brasileiros lutaram ao lado dos aliados norte-americanos contra efetivos de soldados alemães, em território italiano. Entre eles, 681 militares pernambucanos, todos treinados em um quartel-general ianque montado no Recife. Enquanto as batalhas eram travadas na Europa, Pernambuco vivia tempos de paranoia em relação a ataques aéreos e de racionamento de alimentos e energia elétrica. O povo estava distante do front, mas vivia, assim mesmo, uma guerra de metáfora.

Quando não desconhecida, a atuação da Força Expedicionária Brasileira é cercada de informações imprecisas, às vezes contraditórias. Não é para menos. A própria guerra dificilmente tem as motivações compreendidas. Poucos têm a dimensão de como os desdobramentos daquele período sombrio se prolongam até hoje, 70 anos depois do cessar-fogo. Para pesquisadores, o fim da batalha global não ocorreu em 1945, mas com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução do império soviético. A movimentação encontra ecos em episódios atuais, como a guerra civil na Ucrânia e a anexação da Crimeia pela Rússia.

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A atualidade das discussões em torno do maior confronto bélico da história, com mais de 100 milhões de combatentes, fez o jornalista William Waack, correspondente de guerra em nove ocasiões, revisar e ampliar investigação jornalística feita há 30 anos, em 1985. No livro-reportagem As duas faces da glória (Editora Planeta, 344 páginas, R$ 41), agora reeditado, são apurados os pontos de vista de aliados e inimigos a respeito da atuação da FEB na Itália. Baseado em documentos e entrevistas, ele revela, por exemplo, como a maioria dos alemães desconhecia a atuação dos brasileiros. Do lado norte-americano, havia dificuldade de se compreender o caráter nacional dos pracinhas tupiniquins.

Para o jornalista, foi uma maneira de driblar a “versão oficial” dos fatos, até então somente narrados e interpretados pelos próprios militares. Na época da primeira edição, a obra foi encarada como “provocação” e "tentativa de denegrir as forças armadas”. Ao longo dos anos, as críticas se multiplicaram, vindas também de pesquisadores como o historiador norte-americano Frank McCann (Waack “violentou a verdade histórica”) e o jornalista Bonalume Neto, autor de A nossa segunda guerra (para ele, o livro do colega é “lamentável” e “uma catilinária anti-FEB").

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QUARTEL NO RECIFE No Campo de Ibura, no Recife, um quartel-general norte-americano em funcionamento desde 1942 (United States Army Forces South Atlantic – USAFSA) foi essencial para o nascimento da FEB. Em negociações com os brasileiros, o governo dos Estados Unidos deixou clara a necessidade de os militares daqui serem treinados nos padrões de lá. Era essencial conhecer os aliados como povo, sociológica e antropologicamente, além de ter acesso a treinamento político e técnico-militar. Enquanto isso, o caminho inverso era feito por Carmem Miranda, vista como um pedaço exótico do Brasil nas passagens pela terra do Tio Sam.

FEIJÃO COM SALSICHA Ex-oficiais alemães entrevistados por William Waack demonstraram total desconhecimento sobre a participação de brasileiros na guerra. Uma exceção foi Klaus Dietrich Polz, segundo-tenente das forças de Hitler. Aos 20 anos, o jovem nazista foi capturado pela FEB em 11 de março de 1945. Depois de receber um prato de feijão com salsicha dos inimigos, não conteve a surpresa ao ver, pela primeira vez, uma pessoa negra. Levou "algumas tapas", mas acabou sendo liberado. Décadas depois, disse ser muito grato aos brasileiros. “Se tivesse sido capturado pelos russos, estaria morto”. O episódio protagonizado pelo veterano nazista havia sido narrado, ainda durante o conflito, pelo escritor e correspondente de guerra Rubem Braga.

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DIRETO DO FRONT O também correspondente Joel Silveira definiu o cheiro da guerra como uma mistura de sangue velho e óleo diesel. No inverno gelado daquela região na Itália, o mais rigoroso das cinco últimas décadas, a neve restringia a locomoção e era tão democrática quanto o tédio dos longos dias - combatentes da FEB e jornalistas sofriam na mesma proporção. O corneteiro acordava todos às 5h, na escuridão de um lugar onde o sol só nascia depois das 10h e só se sustentava até 15h ou 16h. Era comum a água disponível para higiene pessoal amanhecer congelada. Em seguida, o café-da-manhã tipicamente norte-americano, com geleias, leite, presunto, bacon do Texas e suco de laranja da Califórnia. Ao sairem, ele e os demais jornalistas levavam consigo as pesadas máquinas de escrever. No caminho, frequentemente eram alvo de granadas atiradas por alemães. A cada explosão, um dos repórteres sempre dizia: “A sorte é que meu relógio é antimagnético”.

OTIMISTAS E ANALFABETOS Antes mesmo de os brasileiros chegarem na Itália, os oficiais norte-americanos já se comunicavam por meio de relatórios a respeito dos novos aliados. Nos documentos, registravam como a diferença entre classes e o preconceito racial tinha reflexo nas forças militares. A maior patente alcançada por um negro era a de major. Também teciam comentários diversos sobre o modo de ser dos latinos. Em abril de 1944, um militar dos EUA descreveu: “As pessoas no Brasil são extremamente hospitaleiras, alegres e otimistas. Conversam de maneira dramática, e expressam suas emoções em palavras fortes. Elas fazem e esperam elogios honestos, mas são rápidas em apanhar insinceridades. Os instruídos (há muitos na classe alta) são inteligentes, mentalmente rápidos e bem informados. O grosso da população, contudo, consiste na classe baixa. Eles são, em larga extensão, analfabetos (...) O brasileiro tem senso de humor e é interessado em música, arte etc. Uma vez que ele se torna seu amigo, tudo o que ele tem é seu”.

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FRANZINOS E RESISTENTES Depois de receberem o reforço brasileiro, os oficiais dos EUA passaram a ter uma visão mais positiva sobre os soldados (“embora franzinos, aguentam de maneira excelente as difíceis manobras de campo (...) Muitos deles poderiam marchar descalços, se necessário”). Uma preocupação dizia respeito à saúde fragilizada dos pracinhas, muitos deles com doenças venéreas. Posteriormente, várias queixas surgiram aos “hábitos desleixados” dos brasileiros.

ELES NUNCA VOLTARAM Pernambuco enviou 681 militares pernambucanos para compor a divisão do General Mascarenhas de Morais, da FEB. Mas nem todos voltaram dos campos de batalha. Treze foram mortos nos nove meses de combate e enterrados na Itália. Eram homens nascidos no Recife, Cabo de Santo Agostinho, Limoeiro, Igarassu, Catende e Taquaritinga do Norte. Em homenagem a eles, foi erguido em 1971 o Monumento aos Pernambucanos Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Parque 13 de Maio, bairro de Santo Amaro.

DEPOIMENTO >>> Karl Schurster Verissimo, pós-doutor em história pela UFRPE, professor da UPE e autor de O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. "Logo após a guerra, houve um processo de heroificação da FEB. Ela se torna a heroína da pátria, convenientemente às vésperas de um governo militar. Nesse período, surgiram muitas biografias e livros de memórias ufanistas. Passada a ditadura, começa um processo de ridicularização da FEB por parte da historiografia brasileira. O combatente passa a ser retratado como banguelo, por exemplo. Surgem relatos de soldados que invadiam casa de italianos para roubar relógio ou de brasileiro que vestiu roupa de alemão e, por isso, foi baleado ao chegar aos Estados Unidos. Foi um processo ridículo. Dizia-se que, como os soldados não conseguiam comer comida enlatada, as forças armadas precisavam mandar carregamentos de feijão e farinha. Acredito que, independente das condições de atuação da FEB, é preciso reconhecer os esforços de uma nação durante a guerra".

MEMÓRIA "A história oral dos sobreviventes da guerra fornece indícios maravilhosos, mas essas pessoas geralmente têm uma memória “ressignificada”, até porque as narrativas não foram feitas logo depois de eles voltarem, mas após eles “passarem o passado a limpo”. Entrevistei muitos, e o nível de conhecimento sobre o nazismo é incompatível com a idade que tinham durante a guerra. Eles mencionam informações sobre as quais ninguém tinha acesso, sobre eugenia, práticas alemães. Boa parte dos militares da FEB só entrou na escola depois da Segunda Guerra. Eles voltam em um processo heroico, recebido como heróis nacionais, mas caem em desuso. Há um número imenso de casos de depressão, porque são soldados de front de batalha e, quando retornam ao Brasil, não há mais batalha alguma".

GUERRA EM PERNAMBUCO Mesmo Pernambuco não tendo vivido uma guerra de fato, com bombas sendo atiradas dos céus, as pessoas mudaram seus hábitos, precisaram fazer racionamento de energia, comida, combustível. A imprensa dizia que era necessário se defender em abrigos antiaéreos, ensinava didaticamente como usar, mas não havia nenhum abrigo assim em Pernambuco. Um jornal de 16 páginas passava a ter somente oito, por causa da guerra, assunto que sempre ocupava a primeira página. O tradicional restaurante Leite fechava mais cedo para contribuir com o racionamento, e tudo isso fez parte de um discurso que modificou o comportamento para conviver com uma guerra sem guerra. Se não vivemos o front de batalha, vivemos uma guerra de metáfora. Ouvi pessoas que tinham medo real, viviam para defender a costa brasileira.

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DEPOIMENTOS >>>>>>>>>>> EX-COMBATENTES “À noite, ia ter instruções sobre armadilhas alemãs. Os americanos falavam português, começavam a mostrar que o soldado nunca devia entrar numa casa pela porta a abrir o trinco, detona um negócio e cai a casa. Nunca bater numa tecla de piano, não abrir torneira dentro de casa. Uma série de armadilhas que eles conheciam e que os alemães faziam” (Ferdinando Palermo, ex-combatente)

"Percebi como pode um soldado sentir-se solitário na sua trincheira, solidão no meio de muitas outras. Todos também deviam sentir aquele vazio, aquele terrível vazio de estar vivendo um pesadelo. Tudo fica irreal e inconcebível. São pensamentos bem amargos; alguns, se melhor examinados, talvez não tivessem razão de ser, mas parecia-me tudo desculpável. Eu estava vendo, como milhares de pracinhas, o mundo através de uma trincheira. E uma trincheira tem mais de amargo do que de heróico. (...) A guerra nada tem de heroico. É triste, e a trincheira é um dos piores lugares da terra." (Joaquim Xavier da Silveira, ex-combatente)

"Atravessar um terreno supostamente minado é o mesmo que atravessá-lo minado: um calafrio percorre a espinha, e um suor, mais frio do que os outros, escorre pela testa; a garganta se resseca e vem um gosto amargo na boca. A tudo isso chamávamos de 'paúra'." (Vicente Pedroso da Cruz, ex-combatente)

"Quando em ação na linha da frente, lembro-me de ter tomado no máximo oito ou nove banhos de setembro de 1944 até março de 1945, banhos em rio, no capacete ou em bacia de rosto dos italianos (...). Aliás, a falta de limpeza torna-se hábito, e a sujeira, depois de um certo tempo, parece não sujar mais." (Tenente Campelo de Souza, ex-combatente)

"A pior coisa da guerra é 'eu não te conheço, você não me fez mal, e eu tenho que te matar, senão você me mata'. Pra falar a verdade, eu sentia dó dos prisioneiros. Quando o cara era prisioneiro, para mim ele deixava de ser inimigo." (Attilio Camperoni, ex-combatente)

"Quando você ficava muito tempo na trincheira, se tirasse a luva, os dedos gelavam e endureciam, então você precisava ficar esfregando as mãos para poder enfiar o dedo no gatilho." (Santos Torres, ex-combatente)

* Publicado originalmente no site do jornal Diario de Pernambuco


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