Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Onde os negros não têm vez

Há um paradoxo na invisibilidade de escritores negros no Brasil, país formado sobretudo por afrodescendentes. A lacuna espelha tratamento dado à população enquanto autores internacionais viram best-sellers ao garantir a voz para a realidade onde vivem.


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O pernambucano Joaquim Nabuco não se sentia confortável quando classificavam o maior nome da literatura brasileira como negro ou mulato. Considerava pejorativo. Machado de Assis, contudo, não só tinha características afrodescendentes como era filho de ex-escravos e viveu parte da vida no regime escravocrata. Ainda assim, a grandiosidade da obra o alçou a um patamar inimaginável para a época. Mais de um século depois, a negritude permanece associada à falta de chances na sociedade e, por conseguinte, na literatura. Segundo pesquisa conduzida no ano passado pelo sociólogo Carlos Costa Ribeiro, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos/UERJ, quanto mais escura a cor da pele, menos renda, menos educação, menos oportunidades.

Em contraponto ao cenário nacional, novos autores de origem africana de países como Zimbábue (NoViolet Bulawayo), Serra Leoa (Ishmael Beah), Nigéria (Helen Oyeyemi), Etiópia (Dinaw Mengestu) ganham espaços generosos nos mercados editoriais do mundo, em especial o dos EUA. São, em média, jovens, habitam grandes cidades e falam e escrevem em inglês.

Vários dos temas escolhidos para a produção ficcional são duros, de foro íntimo, como o bullying e a exploração sexual dentro de casa (caso de Sapphire, autora de Preciosa). Em outros momentos, ganha nuances mais visíveis em quaisquer ambientes, como a desigualdade entre gêneros (Alice Walker, com A cor púrpura) - best-sellers adaptados em filmes homônimos.

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A abertura do mercado, sobretudo no caso dos mais jovens, é fenômeno com força própria, mas impulsionado por organizações internacionais como o African Writers Trust, cujo objetivo é colaborar para escritores de origem africana acontecerem no mercado. O grupo é liderado por Helon Habili, nigeriano radicado nos EUA, autor do best-seller Oil on water, sobre exploração predatória do petróleo.

“Conto a história real de empresas que destroem o meio ambiente para ganhar dinheiro, bilhões de dólares. As pessoas vivem nesse ambiente e não conseguem mais pescar, se alimentar, ter água”. Helon não pretende abandonar as temáticas sociais e políticas, e já prepara romance sobre a violência promovida pela organização terrorista Boko Haram na Nigéria. “Sou muito interessado em politica. Sinto que há muita injustiça no mundo, especialmente contra os pobres. Gosto de falar de tudo isso”.

A denúncia social também é tema de Beasts of no nation (Feras sem pátria, tradução livre), escrita por Uzodinma Iweala, em 2005, e transformada em filme pelo Netflix, em 2015. O livro-filme expõe as mazelas associadas ao recrutamento de crianças como soldados - assunto explorado em Muito longe de casa, autobiografia narrada por Ishamel, em 2008. São vivências com poder de transferir para as obras realidades nas quais ser negro é fator decisivo entre a vida e a morte.

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Enquanto isso, no Brasil, a publicação de autores negros se dá apenas por pequenas editoras, com baixo alcance e sem muita repercussão. No livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (Horizonte, R$ 49,91), a doutora em letras e professora da Universidade de Brasília Regina Dalcastagnè define o perfil do escritor médio brasileiro. É homem, branco, de classe média, morador do Rio de Janeiro ou de São Paulo, professor ou jornalista. Em 15 anos, ela analisou 258 romances nacionais publicados por três grandes grupos editoriais, e apontou prevalência de 93,9% de autores brancos, de 1990 a 2004. Ampliada a pesquisa para alcançar obras editadas até 2014, o número subiu para 97,5%. Quanto aos personagens, negros são quase sempre marginais.

“O autor negro de destaque realmente não existe nos nossos dias, só aqueles de periferia, marginais, cujas atitudes são de engajamento e a literatura é arma”, diz o doutor em letras Janilto Andrade, professor da Universidade Católica de Pernambuco. Ele cita como exemplo pernambucano o poeta Miró da Muribeca.

Já o crítico Thiago Corrêa, mestre em teoria literária pela UFPE, menciona Paulo Lins, autor de Cidade de Deus - obra adaptada em filme homônimo - como exceção. “No caso dele, foi um projeto surgido na universidade, incentivado no ambiente acadêmico. Isso que falta”. A problemática da educação, opina Thiago, ainda é pouco atenuada pelas cotas universitárias. “É um problema estrutural da sociedade. A quantidade de negros nas universidades é pequena. Muitos também têm condição social difícil, e estão mais preocupados em sobreviver do que em pensar no mundo, em produzir literatura”.

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Para o também professor da Universidade Católica Robson Teles, doutor em letras pela UFPB, as cotas são uma “atitude desesperada e imediatista” de resolver a questão. Serão precisos, estima, de 30 a 50 anos para a abertura gerar um reconhecimento significativo. “Vai demorar para isso ser digerido e institucionalizado de maneira natural. É um processo lento e não se restringe à literatura.”

Teles frisa o fato de só na década de 2000 ter havido uma protagonista negra em novela da Globo, vivida por Thaís Araújo. Há poucas semanas, a atriz passou a ser discriminada na internet com comentários racistas. “É muito recente a questão da abertura dos negros pela famigerada Lei Áurea, história fantasiosa e romântica. Tem a ver com a falta de espaço, mesmo. O negro ficou livre da senzala mas continua refém de um açoite social”, diz Teles.

Entrevista >> Regina Dalcastagnè, pesquisadora

Como avalia o resultado da sua pesquisa a respeito da prevalência de 97,5% de autores brancos no Brasil?

A situação piorou muito. O número varia em relação ao último divulgado (93,9%, em 2013), mas pouca coisa mudou. Sobre a pesquisa, é preciso tomar cuidado porque trata somente dos romances editados em grandes editoras. Nesse caso específico, vemos que o negro não está presente, tem dificuldade de entrada, o que não quer dizer que não tenhamos excelentes escritores negros produzindo no Brasil. Há muitos bons poetas. Mesmo que eu fosse procurar poetas negros nas grandes editoras, eles não estariam lá, porque publicam em editoras pequenas ou aquelas que só editam autores negros.

O que explica a ausência?

Não sei o que acontece, se é racismo dos editores... Talvez não. O racismo é da sociedade brasileira, e isso vai penetrando em todos os âmbitos. Acham que escritores negros não são interessantes, não vendem... Quando penso em um nome como Conceição Evaristo, uma autora super respeitada e conhecida, acho impressionante que ela só publique por pequenas editoras.

E a predileção pela poesia, como se explica?

Há um incentivo para que autores negros publiquem coisas menores, porque vai ser mais fácil. Geralmente o negro passa por dificuldades maiores, até pela situação financeira, e para quem trabalha o dia todo é mais fácil escrever um poema do que se preparar para produzir um grande romance. É uma questão de tempo disponível, mesmo. Um branco, a depender, pode passar o dia todo escrevendo.

A escolaridade não tem papel importante nisso?

Sim. A literatura precisa do domínio da linguagem, então precisa de estudo, mas o domínio da língua é diferente da música - tem analfabeto que compõe, por exemplo. Na literatura, a ferramenta é o texto, não tem como fugir disso. Durante muito tempo no Brasil, tivemos negros proibidos nas escolas. Então voltamos para os dias de hoje, e vemos a situação econômica de muitos, a dificuldade maior de continuar na escola, pois as pessoas trabalham.

Parte dos escritores negros abraçam questões políticas e sociais. Há motivo especial?

Há a questão politica, de espaço de discurso. Como podemos falar que temos uma literatura brasileira, se quando vou ler romances praticamente não existe negro representado nem como autor nem como personagem dentro da obra? Não há representação literária. Quando surge um escritor negro ele está livre para escrever sobre o que quiser, mas sente a necessidade de incluir a questão negra, pois é uma responsabilidade que recai sobre ele. É como se fosse uma obrigação justamente sobre a ausência. Claro, não quer dizer que não tenhamos negros falando sobre amor, trabalho, vida. É importante conhecer a vivência das pessoas, o modo como vivem e se relacionam difere muito, e isso é trazido para a literatura. Trazer outras experiências sobre o negro, para a gente conhecer, vivenciar, pois isso só enriquece a nossa experiência, entender o jeito do outro, o jeito de ver o mundo. Ter acesso a outras histórias interessantes. Até para dizer que conhece a própria história.

E a representação do personagem negro na literatura?

Quando você cria um personagem literário você tem que criar um modo de viver. É questão estética e política. Em geral, os personagens negros são parecidos, têm problemas semelhantes. É uma grande homogeneidade. Só surgem personagens diferentes quando são criados por negros. Brancos podem escrever sobres negros, claro, o contrário também, mas a verdade é que cada um só fala do mundo que conhece.

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GUERRA E TRABALHO ESCRAVO

“Ouvíamos tantos tipos de histórias sobre a guerra que ela parecia estar acontecendo numa terra distante e desconhecida. Só quando os refugiados passaram a cruzar nossa cidade começamos a perceber que a guerra estava mesmo ocorrendo em nosso país.” Uma década e meia se passou até Ishmael Beah se sentir pronto para contar a própria história da maneira como ela realmente ocorreu. No livro Muito longe de casa (2007, relançado em 2015), ele fala como a infância em Serra Leoa, onde nasceu, foi interrompida de maneira brutal. Aos 12 anos, teve os pais e irmãos assassinados durante conflito armado. Sozinho e sem rumo, foi buscar proteção em uma base militar. A guarida logo se revelou uma armadilha e ele foi obrigado a se alistar a um exército de crianças-soldado, como são chamados pelas organizações mundiais os guerrilheiros menores de idade. Situações semelhantes ocorrem até hoje em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Caso fugisse, Ishmael seria assassinado pelos rebeldes, pois seria considerado inimigo. Logo foi treinado para manejar com habilidade um fuzil AK-47, instigado a usar vários tipos de drogas (desde maconha até uma mistura de cocaína com pólvora chamada “brown brown”). “No começo é difícil matar, mas o tempo passa, você se perde, aquilo começa a ser sua vida. Você vê no tenente uma figura paterna e, nos soldados, irmãos. Desenvolvemos um senso de ligação”, comentou ao canal de tevê CBS, na época do lançamento do relato autobiográfico.

Ishmael e as outras crianças passaram por uma lavagem cerebral para acreditarem na invencibilidade, ao ouvir histórias sobre poderes mágicos dos líderes do exército, além de assistirem a filmes de guerra e a assassinatos a sangue frio. Ele foi salvo – a contragosto - mais de dois anos depois, por um grupo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Demorou oito meses para voltar a si, embora a “cura” até hoje não tenha chegado, haja vista os pesadelos recorrentes (“vou tomar banho e vejo sangue sair do chuveiro”).

“É difícil recuperar a humanidade. Muitas pessoas perseveraram para nos trazer de volta, resgatarem tudo o que havíamos perdido. Eu havia perdido a fé nos seres humanos”. Radicado nos Estados Unidos desde 1998, ele aponta como motivo para contar a história pregressa o fato de muita gente romantizar a guerra e não ter ideia do nível de sofrimento envolvido. Em 2007, a Unicef o nomeou Defensor das Crianças Afetadas pela Guerra, ao classifica-lo como "símbolo eloquente de esperança para os jovens que são vítimas da violência, bem como para todos aqueles que estão a trabalhar em prol da desmobilização e reabilitação de crianças envolvidas em situações de conflito armado".

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PORTA-VOZ DOS VULNERÁVEIS

“Eu levei bomba quando tava com 12 anos por causa que tive um neném do meu pai. Foi em 1983. Fiquei um ano fora da escola. Esse vai ser meu segundo neném. Minha filha tem Sindro de Dao. É retardada. Levei bomba na segunda série também, quando tinha 7 anos, porque não sabia ler (e ainda mijava nas calças)”. As primeiras frases de Preciosa, da norte-americana Sapphire, escancaram logo a densidade do romance lançado em 1996 e adaptado para os cinemas em 2009, protagonizado por adolescente negra, pobre e vulnerável. Depois da apropriação da história por Hollywood, o best-seller superou a marca de um milhão de exemplares vendidos e o filme arrecadou mais de US$ 63 milhões. A principal conquista da autora, no entanto, não tem nada a ver com sucesso comercial.

A ficção de Sapphire conseguiu transpor uma barreira raríssima. Por ter sido pioneira em descrever o ponto de vista de quem sofre abuso sexual ao invés da visão estereotipada de médicos, assistentes sociais e psicólogos, a história se tornou referência em centros acadêmicos. Não em cursos de literatura, mas de várias especialidades em ciências humanas. Com ajuda da narrativa fictícia de Preciosa, profissionais em formação passaram a aprender ainda na universidade como lidar com vítimas de estupro, por exemplo. Esse é o maior prêmio já conquistado pela autora.

No outro espectro do problema, o dos ofensores sexuais, ela incentiva as mulheres a nunca calarem diante dos assédios e cobra da sociedade medidas para combater tais crimes. “Nos Estados Unidos, especula-se que 40% das mulheres sofrem ou já sofreram agressão sexual. Você pode imaginar? Digamos que 1% fala sobre isso e o resto cala a boca... Então, mais importante do que falar sobre o assunto é fazer algo sobre isso”.

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Para dar noção da fragilidade das vítimas, ela dá o exemplo das dezenas de queixas apresentadas contra o comediante Bill Cosby. “Cinquenta foram estupradas por ele e ficaram caladas porque ele é bilionário e famoso. Dinheiro é tudo nos EUA. Isso acontecia desde o começo da carreira, na década de 1960. Foi preciso reunir muita gente para ter poder suficiente contra ele. Você não pode calar 50 mulheres, seus parentes e advogados”, exemplifica.

Sapphire compara a violência contra o sexo feminino com a sofrida por negros de Nova York por muitos anos. Segundo ela, a brutalidade das forças policiais dava carta branca para os oficiais atirarem em quem quisessem. Nunca eram presos, pois sempre ganhavam quando a palavra de um era colocada contra a outra. Agora, diz a escritora, há uma revolução em curso graças às câmeras espalhadas, cujas gravações são capazes (como já foram, em alguns casos) de colocar policiais atrás das grades por balearem negros sem justificativa.

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"Sou uma artista e falo nos meus livros de assuntos muito difíceis. Se eu tivesse um impulso de ativismo ao escrevê-los, seria muito negativo, quase pornográfico. Contudo, quando você abre a porta e entra nesses assuntos horríveis, é preciso ter uma habilidade de colocar isso tudo na cultura de maneira aberta, positiva, caso contrário não haverá o poder de mudança. Eu sei que da maneira como os escrevo tenho ajudado a mudar. É por isso que Preciosa é um livro estudado nas universidades" Sapphire, escritora

* Texto adaptado de série de reportagens publicada pelo mesmo autor, no jornal Diario de Pernambuco


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