Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Trabalho, sofrimento e perversão: esqueletos no armário neoliberal

A tradição de um povo recorrentemente oprimido, surgida quando alguém, em tempos imemoriais, se viu diante da possibilidade de massacrar um semelhante de modo legítimo e sistemático, sendo aplaudido e estimulado em vez de criticado e punido


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Há algo de podre nos cubículos que concretizam a ideologia neoliberal. Existem pontas soltas por todos os lados, e ninguém disposto a lidar com elas, a assumir responsabilidade, a por ordem no caos. Há foco em mise-en-scène, jogos de poder, trocas de farpas, cumprimento de procedimentos, burocracias, tapinhas nas costas, momentos de descontração, enquanto o mais importante fica à margem; enquanto deixa-se de planejar, de atuar de maneira sistemática e vigorosa na simplificação, na orientação pragmática, no malabarismo corporativo de que qualquer negócio precisa lançar mão para se tornar e se manter relevante. Em vez disso, muda-se ao sabor dos ventos, como um velho veleiro à deriva, e o destino pouco importa, pois ninguém tem interesse genuíno no sucesso coletivo.

Há tantas demandas individuais, há protecionismo, corporativismo, queixas aleatórias, formalizadas ou não, há pedaços de papéis coloridos que são colecionados, fotografados, passados a limpo, descartados por orientação do departamento de papéis coloridos. Há um sem número de atividades sem significado, sem valor, totalmente dispensáveis. Há modos retrógrados de se pensar uma coletividade que remonta ao século 18, como se estivéssemos em uma linha de produção apertando parafusos ao som de um bumbo, ameaçados por açoites de um chicote ou pela possibilidade de ser dispensado e morrer de fome.

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Há uma herança maldita, de quem passou por longos processos de aculturamento desde cedo, das famílias oligárquicas, pseudoaristocráticas, vestidas de branco alvíssimo, relógio de ouro na algibeira, muleta cravejada de joias, chapéu panamá. Embora pareça realidade distante, formou-se, de lá para cá, um caldo de cultura em que fervilham certezas paranoicas e falaciosas, preconceitos arraigados, instrumentos de controle social, político, econômico.

Há uma necessidade de honrar esse passado, de reconstituir estruturas de outrora, ainda que em formato de simulacro, mas que deixam marcados os indivíduos desafortunados física e psicologicamente. A eles é prometido um sem fim de conquistas a serem alcançadas por uma suposta meritocracia. A eles é exigida dedicação absoluta, para além do razoável, lealdade ao extremo, foco e previsibilidade como só algumas máquinas podem garantir. A eles são negadas quaisquer facilidades que possam ser encaradas como benesses, enquanto os direitos básicos são classificados como enormes vantagens, pelas quais deveriam agradecer aos céus e a seus provedores.

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Todos são absolutamente substituíveis, especialmente se isso puder ser feito economizando algum dinheiro. Eventualmente, palavras gentis e de encorajamento são ditas em um tom passivo-agressivo que têm a intenção deliberada de confundir, ameaçar de modo sutil mas assertivo, prometer o que qualquer vítima sabe ser inalcançável. Passados os meses e os anos, figuras autocráticas angariam com certa facilidade capatazes de diversos formatos, cores e estaturas, estejam eles interessados em agradar o líder, em conquistar benefícios para si, ou, pior, inteiramente absorvidos pelo discurso megalomaníaco, cujas incoerências são internalizadas e passadas adiante por meio de mais opressão.

Com frequência, pelo fato de o capataz ter repertório e modos de agir bastante diversos da figura autocrática, criam-se distorções, e a virulência se torna cada vez mais explícita. Há regras, manuais, recados de proibição colados na parede, mensagens agressivas, episódios de descontroles, exageros, perseguições, demonstrações de poder, sabotagens. E, ao que parece, pouco importam os efeitos dessa cultura opressiva, persecutória, paranoica, centralizadora, repressora, fascista, tóxica, sádica.

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Ninguém se interessa pelas pessoas, pelo bem-estar alheio, pelas dores, dificuldades, pelos sacrifícios feitos, pelos adoecimentos. Quem está por trás desses mecanismos está mais preocupado em criar novos espaços de privilégios, em se afirmar perante outros núcleos, ostentar tudo aquilo que secretamente foi conquistado às custas do sangue, do suor e das lágrimas de centenas de pobres coitados, que sequer têm nome. São números minguados na folha de pagamento, sempre alvo de planejamentos estratégicos para torná-la cada vez mais enxuta, menos onerosa, de modo a abrir espaço para mais lucro.

Aos miseráveis, vítimas de um esquema perverso que parece existir desde sempre, cabe apenas resignação, sofrimentos pontuais e discretos, pedidos eventuais de clemência (frequentemente negados), ou, de modo mais extremo, partir para sublevações, levantes, cartas abertas, luta por direitos, exposição de todos os motivos que os levam a se indignar e sofrer diuturnamente. Essa opção, naturalmente, também representa uma previsível ruptura com a estrutura exploratória, o que não raro leva à maximização da miséria, da escassez, e à outras formas de padecimento, seja do corpo, da alma, da dignidade.

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E assim é garantida a perpetuação das engrenagens de um poder ébrio, errático, indeciso, inseguro, amador no seu cerne, mas sólido em sua origem e na manutenção da tradição. Não há nada que possa mudar de maneira sensível esse sistema de trocas desigual, vil, vexaminoso. Com o passar das décadas, surgirão novas camadas de maquiagem e escamoteação, novos modos de desumanizar aqueles que contam com tão pouco, que estão à margem, prestes a colher migalhas.

Discursos bem redigidos serão proferidos para anunciar uma nova era, um novo modo de se relacionar, mas por trás dos novos azulejos, das camadas de argamassa suvinil e de uma novíssima parede de gesso pintada de azul tiffany, há esqueletos de gerações de coitados. Perdurará, portanto, a realidade amarga daqueles que sofrem em silêncio, como manda a tradição de um povo oprimido sistematicamente desde que alguém, em tempos imemoriais, se viu diante da possibilidade de massacrar um semelhante de modo legítimo e sistemático, sendo aplaudido e estimulado em vez de criticado e punido. Esses dois homens, opressor e oprimido, são nossos pais fundadores.


Fellipe Torres

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