Fellipe Torres

Jornalista, repórter de literatura, mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Cântico Negro: O grito de liberdade de José Régio

Poema do escritor português é poderosa e definitiva crítica às pessoas que insistem em empurrar goela abaixo a maneira delas de existir, um "me larga, não enche", a proposição de um modo de vida


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"Eu tenho a minha loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios". As palavras de José Régio (1901-1969) nunca me abandonam. Vez por outra um trecho de Cântico negro salta em minha consciência, como uma lembrança. "Olho-os com olhos lassos - há, nos olhos meus, ironias e cansaços": O poema do escritor português é um grito poderoso de liberdade, uma crítica às pessoas que insistem em empurrar goela abaixo a maneira delas de existir, um "me larga, não enche", a proposição de um modo de vida.

Outros escritos dele são igualmente inspirados e inspiradores, sobretudo aqueles pertencentes ao livro de estreia, Poemas de Deus e do Diabo (1925), mas Cântico negro, se fosse uma oração, seria o Pai nosso. É inigualável. "Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos": seguir em frente a meu modo, desviando das padronizações, do establishment, das castrações inerentes ao convívio social.

"Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens, e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O que mais faço não vale nada": Se não for para impor as próprias crenças, gostos, traços de personalidade, impulsos, vontades; se não for para buscar nessas poucas décadas que temos de vitalidade algo que valha a pena para nós mesmos ou para os outros... Qual é, de fato, o sentido de tudo isso? Ser um punhado de graxa que lubrifica as engrenagens de sempre?

"Como, pois, sereis vós/ Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem/ Para eu derrubar os meus obstáculos? Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós/ E vós amais o que é fácil": lastreados pela normatização transmitida a cada geração (não só entre os dominantes e opressores, mas também entre os dominados e oprimidos), indivíduos aprisionados pela necessidade de manutenção social avançam em direção a todos os outros para garantir o cumprimento de tal utopia.

É inevitável para eles serem acometido de recorrentes sentimentos de angústia diante do que foge do padrão, das atualizações de sistema, da transgressão de valores, estilos de vida, papéis sociais. "Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátria, tentes tetos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios"

Se não há padrões a serem repetidos, se não há trilhas já traçadas a serem percorridas, por onde seguir? É uma pergunta sem resposta fácil, sem quaisquer traços de universalidade.

"Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, nasci do amor que há entre Deus e o Diabo": as afinidades entre forças supostamente opostas, entre heróis e vilões, ajudam a compreender a fragilidade dos rótulos e a possibilidade de superá-los vivendo plenamente.

"A minha vida é um vendaval que se soltou, é uma onda que se alevantou, é um átomo a mais que se animou. Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí".


Fellipe Torres

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