Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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A efemeridade da vida traduzida em contos

Livro de escritor pernambucano Nivaldo Tenório explora decadência do corpo, doenças de toda espécie, fraquezas da alma, falhas de caráter


20171010114704985767u.jpg "A arte é uma espécie de protesto contra a morte”. O aforismo de Ariano Suassuna, levado pela Moça Caetana há três anos, caberia como epígrafe do terceiro livro de contos de Nivaldo Tenório, Ninguém detém a noite (Confraria do Vento, 112 páginas, R$ 45). É a primeira publicação do garanhuense desde o aclamado Dias de febre na cabeça (2012), responsável por fazê-lo circular muito além da cidade do Agreste pernambucano. Assim como na obra anterior, as narrativas curtas circundam temas existenciais pelos quais Nivaldo demonstra obsessão, e o fim da vida é o principal deles. A reboque, vêm a decadência do corpo, doenças de toda espécie, fraquezas da alma, falhas de caráter.

Não se trata, todavia, de pessimismo gratuito. A escrita labiríntica e, ao mesmo tempo, simples, aproxima o leitor e o força a vislumbrar questões demasiadas humanas. “Penso na imprevisibilidade, no azar, no que a qualquer momento pode acontecer. Me interessa a sondagem do humano e sua fragilidade”, comenta.

Nos contos, o foco é desviado para assuntos aparentemente menores, como se as miudezas fossem ganhar corpo adiante. O leitor mais atento, contudo, notará o essencial sendo tratado em outro substrato da história. Em uma narrativa, a morte de uma tartaruga mobiliza, por muitas linhas, uma família durante passeio. A programação logo se revela cortina de fumaça para (e metáfora do) sofrimento do casal no período da ditadura militar. Tal conto foi escolhido para se tornar um romance. “Quero explorar a dimensão psicológica e passar mais tempo na companhia dos personagens”.

As relações entre pais e filhos (mote inicial pensado para o livro, depois abandonado) são muito exploradas, como no conto sobre a constatação da doença mental de um idoso e de seu clamor por uma paixão antiga. “É baseado no meu pai. Ele levou uma queda, entrou em processo de demência e passou a falar de uma namorada de quando tinha 20 anos. A gente ri disso, mas com certa urgência. Tenho medo de chegar à velhice e não ter feito o que quis. Sou procrastinador”.

Embora o livro reúna infortúnios de todos os tamanhos, eles quase nunca estão postos diante dos olhos do leitor. Os óbitos não são repentinos, mas consequência de estar vivo. Eles assombram o passado, enlutam os entes queridos, espantam quando se avizinham. E mesmo quando ninguém fenece, ainda assim o clima sombrio ronda os lugares, as pessoas, os acontecimentos. “Neste livro, trabalhei mais a linguagem, os silêncios, o não dito”, reconhece Nivaldo.

A sugestão (em oposição ao relato) está presente em contos como O banquete, em que uma doméstica analfabeta folheia cenas do apocalipse em uma edição da Bíblia ilustrada, enquanto um caseiro encontra, entre as páginas de O Conde de Monte Cristo, centenas de baratas. Traços de fé e do exercício de doutrinas religiosas, por sinal, contribuem para as ações, os medos e as convicções dos personagens. Pairam como um fantasma causador de incertezas. Projetam o demônio como responsável por pecados e crimes cometidos. Se não estão à procura do sagrado, as pessoas buscam a juventude ao se relacionarem com parceiros de menos idade, manter relações com prostitutas, exagerar nas atividades físicas.

No conto que empresta título ao livro, o protagonista encontra consolo na possibilidade de se suicidar a qualquer momento, pois não suporta o “tédio de ser militar em tempos de paz” (possível referência ao tempo em que o autor serviu às Forças Armadas, em 1989. “O Exército não passa de um clichê”, define outro personagem, antes de assistir ao enforcamento de um colega pelo YouTube.


Fellipe Torres

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