Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Armadilhas do mecenato moderno: o caso Alain de Botton


As manifestações artísticas não teriam tido a mesma força, ao longo da história, caso não houvesse existido o mecenato. A prática de patrocinar e fomentar a produção literária e artística data do reinado de Augusto (27 a.C. - 14 d.C.), fundador e primeiro imperador de Roma. Um de seus conselheiros e amigo pessoal, Caio Clínico Mecenas teve certa atuação política no contexto da Roma Antiga, mas entrou para a história como um relevante apoiador de figuras como os poetas Horácio, Virgílio e Propércio. Com o aval de Augusto, atuou na construção de templos e teatros, além de financiar uma vultuosa quantidade de esculturas.

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Desde então, o financiamento de artistas se tornou uma constante, e favoreceu inúmeros indivíduos dotados de talento, como Michelangelo, Rafael Sanzio, Leonardo da Vinci, Goya, Velasquez, Caravaggio. Em contrapartida, os mecenas também eram e são beneficiados, ao adquirirem certa projeção social. Aliás, no mecenato moderno, essa equação é um pouco mais complexa, e pode envolver um jogo de interesses que envolve galerias, museus e outras instituições ligadas à arte. Os apoios podem se configurar na compra de obras de arte à medida em que são produzidas - em muitos casos assumindo, portanto, o risco inerente a esse mercado bilionário -, no financiamento de traduções literárias e exposições comerciais, na viabilização de viagens e participação dos artistas em eventos.

Outra variação desse patrocínio às artes decorre das leis de incentivo, como a brasileira Lei Rouanet, que permite deduções fiscais e projeção das marcas das empresas incentivadoras de expressões artísticas. É nessa última categoria que se enquadra uma curiosa encomenda aceita pelo escritor e filósofo suíço Alain de Botton (autor dos ótimos "Como Proust pode mudar sua vida" e "Religião para ateus"), cujos esforços deram origem ao livro "Uma semana no aeroporto".

A obra foi encomendada pela empresa BAA Liimted (hoje chamada Heathrow Airport Holdings Limited), administradora do aeroporto internacional localizado no oeste de Londres, na Inglaterra. De Botton recebeu carta branca para circular livremente pelo aeródromo e, posteriormente, escrever suas experiências. Nesse período, foi identificado como "escritor residente", com direito a uma pequena estação de trabalho em um espaço movimentado. Acompanhado de um fotógrafo, circulou pelo local, conversou com passageiros e funcionários, teceu dezenas de elucubrações sobre os mais diversos temas ligados àquela atmosfera e, por conseguinte, à vida.

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O livro atrai curiosidade justamente por ser tão improvável. Primeiro, por ter partido de um convite esdrúxulo, feito por uma empresa em busca de publicidade, naturalmente. Segundo, por não ter sido recusado. Enquanto alguns poderiam encarar tal proposta como uma afronta, De Botton abraçou a ideia e manteve seu estilo nesse livrinho diminuto, com uma narrativa agradável que registra instantes cotidianos e reflete sobre temas universais.

Embora o produto final tenha essa aura de "ganha-ganha", a razão pela qual grande parte dos escritores renomados recusaria esta oferta (indecorosa?) não foi contornada pelo filósofo suíço. O livreto de letras grandes e muitas imagens ilustrativas não consegue se livrar da pecha de peça publicitária, embora o autor faça malabarismos para não seguir por esse caminho, arriscando até algumas críticas discretas ao aeroporto.

À época do lançamento do livro (2009), a jornalista Jessica Holland escreveu no The Guardian que, embora o fato de a obra ser fruto de uma encomenda da administradora do aeroporto e de ter sido escrita em um intervalo de poucas semanas "não fazer justiça à prosa elegante de De Botton, à sua curiosidade evidente sobre o assunto em questão e às suas gentis exortações para encontrar beleza até mesmo nos lugares mais monótonos, ele explica por que o livro é tão otimista, prolixo e tão curto".

Lançado o livrinho, a administradora do aeroporto, satisfeita com o resultado, distribuiu 10 mil cópias entre os transeuntes de suas instalações. Nesse contexto específico, como Jessica Holland pontua, é bem provável que a obra funcione como um "remédio para baixar a pressão e estimular as pessoas a olharem para o lugar com novos olhos. (...) Mas não encare o livro como se ele fosse oferecer análise de uma indústria, fazer uma aprofundada investigação jornalística ou ser uma obra chamativa escrita em primeira pessoa: ele é alegre e calmo como uma aeromoça".


Fellipe Torres

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