Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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As incoerências do trabalho na sociedade pós-industrial e como enfrentá-las

Em livro, sociólogo italiano Domenico de Masi esquadrinha os absurdos de uma sociedade capitalista que se nega a ajustar os próprios hábitos à pós-modernidade e que reproduz modelos da sociedade industrial


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"A opinião do indivíduo só vale quando coincide com o parecer dos poderosos". Com declarações como essa, o pesquisador e escritor italiano Domenico de Masi se consolidou, nas últimas décadas, como uma das maiores referências quando se fala em sociologia do trabalho.

De Masi é, portanto, leitura obrigatória para quem se interessa pelas vicissitudes e incoerências do capitalismo e, mais particularmente, das organizações contemporâneas (embora estas ainda se identifiquem com a lógica da sociedade industrial).

No livro "O futuro do trabalho: Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial" (2000), o autor aplica o seu já bastante conhecido conceito de "ócio criativo" ao ambiente corporativo. De Masi faz com que nós percebamos como o conceito de trabalho permaneceu "impregnado no nosso inconsciente pessoal e coletivo como algo de devorador e avassalador que está acima de todas as coisas e do qual quase tudo depende".

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PEÇAS DE ACUSAÇÃO

No trabalho excessivo, frisa o italiano, não se encontram identidade e socialização, mas "embrutecimento, marginalização, conflito e isolamento". Desse modo, ele lança mão de algumas "peças de acusação sobre a atual organização do trabalho":

1 - As organizações produtivas fabricam infelizes porque constrangem os seus dependentes a serem (ou pelo menos parecerem) eficientes e competirem a todo custo.

2 - A tristeza estética do seu teatro de guerra. A degradação física das instalações de outrora foi substituída pela monotonia, o anonimato, a limpeza hospitalar dos escritórios, o infantilismo dos símbolos de status. Nesses aquários periféricos, dirigentes tubarões e dependentes trutas nadam durante dez horas por dia, fingindo-se atarefadíssimos, comendo-se uns aos outros e flutuando no enfado das reuniões inúteis.

3 - A inútil extorsão de tempo com a prática da hora extra. As empresas têm fama de máquina de tortura cerebral, onde a maioria dos funcionários é forçada a ficar no escritório até tarde da noite para digerir suas cargas de trabalho, excessiva por definição. Na maioria dos casos, esse trabalho extraordinário não é nem remunerado e adquire todo o sabor de um sacrifício espontaneamente oferecido à empresa, em sinal de fiel integração e com a tácita esperança de se obter vantagens de carreira.

4 - Incapacidade de compensar os inconvenientes que a maioria dos trabalhadores experimenta no contexto profissional.

5 - Obstinada recusa de modificar os tempos do trabalho. As empresas preservam os mesmos modelos de organização de 100 anos atrás, insistindo nos mesmos horários exorbitantes computados por semana e não por ano. Isso significa impedir que as vantagens do progresso tecnológico cheguem aos produtores além dos consumidores, melhorando a vida dos indivíduos, das empresas, das famílias e das cidades.

6 - O sadismo das organizações: "A sensação deprimente de que ninguém mais tem um emprego seguro, nem mesmo quando a empresa para a qual trabalha é próspera, permite a difusão do medo, da ânsia, da confusão", diz Daniel Goleman.

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EM BUSCA DA ALEGRIA

No livro, Domenico de Masi faz afirmações que podem parecer óbvias para um leitor incauto, mas que nos fazem perceber o quão despropositada é a lógica do ambiente corporativo contemporâneo: "Quando um trabalho é perigoso ou cansativo, não gera motivação, mas repulsa. Para vencê-la, é usada a força (para os escravos) ou a remuneração (para os assalariados). Para lubrificar-lhes a resignação, são mobilizadas ideologias, religiões, sociologia e psicologia".

De Masi menciona uma pesquisa feita na década de 1920 com trabalhadores alemães que constatou que "todo trabalhador procura instintivamente a alegria no seu trabalho, mas que esse impulso é frequentemente exacerbado, desviado e enfraquecido por obstáculos de organização".

(...) Apenas uma parte mínima dos trabalhos, relembra De Masi, é de natureza criativa e mobiliza todos os conhecimentos possuídos por aqueles que os executam. "A grande maioria consiste de tarefas banais, repetitivas, executivas, que requerem conhecimentos inferiores ao que o trabalhador possui e gostaria de valorizar". (...)

HERANÇA INDUSTRIAL

Em determinados momentos do livro, a melhor maneira encontrada por Domenico de Masi para esquadrinhar a sociedade contemporânea é justamente olhando para a sociedade industrial, cuja maneira de pensar ainda está arraigada em nós. "A indústria fabrica produtos, serviços e valores para depois impô-los à sociedade que, por isso mesmo, se chama industrial". No livro A terceira onda (1980), de Alvin Tofler, são descritas algumas práticas dessas organizações produtivas:

1 - A padronização dos produtos, dos processos, dos sistemas de distribuição, dos preços e dos gostos.

2 - A parcialização das tarefas, até a transformação dos operadores em autômatos afeitos à cadeia de procedimentos nas burocracias.

3 - A economia de escala, para a qual um número crescente de operários é amontoado em oficinas cada vez maiores, um número crescente de doentes, de estudantes, de cidadãos é amontoado em hospitais, escolas e cidades cada vez mais agigantadas.

4 - Sincronização dos tempos de vida e de trabalho, pelos quais massas incontáveis de trabalhadores devem chegar pontualmente ao trabalho, operar de modo perfeitamente predefinido e sincronizado, dividir as 24 horas do dia em oito para o trabalho, oito para o sono e outro para a vida privada, sair de férias anualmente e voltar todos juntos no mesmo dia.

5 - Centralização das informações e dos poderes no topo das empresas e a repartição das responsabilidades e gratificações segundo uma rígida ordem hierárquica que dá à organização a forma de uma pirâmide.

6 - Maximização da eficiência e da produtividade, entendidas como relação sempre mais desejável entre a quantidade de bens produzidos e a quantidade de tempo empregado para produzi-los.

Domenico de Masi, então, aponta que esse modelo - aprovado pelo Ocidente ao longo do século 19 e do século 20 - entra em uma fase crescente de inadequação, depois da Primeira Guerra Mundial e da Crise de 1929, até revelar atualmente uma obsolescência e impotência irreversíveis.

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VALORES EMERGENTES

Mais à frente, De Masi frisa valores emergentes na sociedade pós-industrial: a progressiva intelectualização de toda a atividade humana, confiança, ética, valor estético, qualidade de vida, subjetividade. Sobre esta última, ele desenvolve: "Hoje sentimos a necessidade de afirmar a nossa subjetividade, as particularidades que nos distinguem dos outros, o direito de ser respeitados na nossa dignidade individual e prescindir do fato de perceber a um determinado grupo em determinada coletividade".

Isso é importante porque o esquema representativo das relações entre empresa e sociedade, entre empresa e mercado, está invertido em comparação ao anterior: agora é a sociedade que elabora as novas necessidades, os valores emergentes, a demanda latente. As empresas, via de regra, deixaram de ser "product oriented" para ser "market oriented".

Nós aprendemos, diz Domenico de Masi, a apreciar virtudes ignoradas pela organização industrial e indispensáveis para uma organização pós-industrial: a flexibilidade dos deveres, a possibilidade de intercâmbio das funções, a primazia do sistema informativo e da criatividade, a colaboração, a solidariedade, a passagem do tempo definido para o tempo escolhido, a recusa do local de trabalho fixo e fechado para a produção de ideia, a capacidade de operar em mais lugares e de outros modos, de repousar e de folgar.

Algumas saídas são apontadas por Tom Peters, no livro Liberation management: "A monstruosa empresa tecnocrática está acabada, superada, é suicida (...) É preciso fundir as funções empresariais, derrubar os limites, criar grupos de trabalho auto-administrados em contato direto com o mercado, estudar o produto junto com o cliente (...) realizar o management do conhecimento, procurar vender uma quantidade cada vez maior de inteligência e cada vez menor de bens materiais".

Infelizmente, conforme Domenico de Masi constata, à medida que as organizações que visam ao lucro se racionalizam e crescem, aumenta a sua burocratização, cresce a ineficiência, diminuem a flexibilidade e a produção de ideias. Em consequência disso, há a queda de motivação, de flexibilidade e criatividade.

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TEMPO TRABALHADO

Uma das heranças da sociedade industrial que vigora até hoje, diz De Masi, é uma "mania quantitativo de trabalho pelo qual um empregado é tão mais apreciado quanto mais tempo noturno extra e não remunerado sacrificar ao chefe e à diretoria".

Nesse contexto, ironiza De Masi, "apenas em particular muitos colarinhos brancos admitem que suas tarefas cotidianas poderiam ser executadas em uma quantidade de tempo muito menor e que o excesso de permanência na empresa tem como único objetivo - não declarado - o de fazer companhia ao chefe".

SADOMASOQUISMO

Domenico de Masi menciona alguns "estratagemas do sadomasoquismo laborioso". Destaco três deles:

1 - Mau emprego do tempo (período sobrecarregados de empenho e períodos incompreensivelmente vazios), na má distribuição das cargas de trabalho (pessoas obrigadas a matar-se de esforço, ao lado de colegas que se enfadam por falta do que fazer), no hábito de muitos chefes que, privados do poder na família e super poderosos nos locais de trabalho, ficam aterrorizados pelo fim da jornada e fazem de tudo para prolongá-la ao infinito, pretendendo com variadas desculpas a companhia de seus subordinados.

2 - Sincronizar e combinar todos os horários, como se toda atividade fosse comparável a uma linha de montagem. Desse modo, pode-se obrigar, sem nenhuma real necessidade técnica, milhares de trabalhadores a ir para o trabalho mesma hora, a tirar férias todos no mesmo dia, a voltar todos na mesma data.

3 - Fazer no escritório aquilo que se poderia muito bem fazer em casa com o teletrabalho.

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ABSENTEÍSMO

Como tem se tornado cada vez mais comum no século 21, sabemos que não basta estar longe da empresa para deixar de pensar no trabalho, isto é, para deixar de trabalhar. Da mesma maneira, sublinha Domenico de Masi, nem basta a presença física na empresa para que uma pessoa esteja trabalhando, considerando que a sua cabeça pode estar vagando por conta própria, sem se aplicar aos deveres estabelecidos. (...)

Caso as empresas resolvessem adotar o teletrabalho, sugere o autor, funcionários poderiam "ficar em casa e desfrutar do melhor de suas capacidades criativas nos horários mais favoráveis aos seus biorritmos, mas o ritual organizativo continua a impor também aos trabalhadores intelectuais aquela unidade de tempo e de local postulada pelas velhas atividades manufatureiras e até hoje não renunciadas pelos chefes habituados a controlar o rendimento dos seus subordinados não com base nos resultados mas no processo".

MUDANÇA ÓBVIA, PORÉM DIFÍCIL

Por fim, o sociólogo italiano conclui o quanto as engrenagens do capitalismo precisam de ajustes, mas que não são fáceis de serem colocadas em prática: "Quanto mais a organização tem necessidade de criatividade para corresponder prontamente aos valores emergentes do sistema social, mais deve dispor de pessoas motivadas. Mas quanto mais a organização fica ligada aos velhos métodos organizativos baseados no controle, mais provoca efeitos desmotivadores e cria barreiras criatividade, mesmo quando há maior necessidade de estar ativa".


Fellipe Torres

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