Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Cangaceiros: algozes ou vítimas?

Livro "Guerreiros do Sol" redefiniu a visão até então predominante sobre o cangaço - um fenômeno complexo e essencial para explicar o Sertão. Cerca de três décadas depois, as múltiplas facetas do tema se estruturam em duas correntes de pensamento pelas quais o papel histórico do cangaceiro oscila entre o de bandido e herói


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“O velho muito sofreu com aquela morte do menino. E deu no que tá. Tenho pra mim que vai morrer. (...) Vem aqui aquele homem de beiço lascado. (...) E ele só vive de conversa. Eu nem quero imaginar. Pois inté desconfio de coisa com cangaceiro. Também era só o que faltava ao Capitão Custódio. Era esta amigação com cangaceiro. É o diabo. Nem quero imaginar”. O diálogo entre os personagens Bento e Donata, em Cangaceiros (1938), de José Lins do Rego, dá um vislumbre do quanto os romances regionalistas da década de 1930 pintavam as relações entre coronéis e os fora-da-lei do Sertão (estes, uns “injustiçados sociais”). O modo controverso de enxergar a participação de autoridades no combate (ou auxílio?) ao cangaço extrapolou a literatura e passou a dominar os saberes das universidades brasileiras.

Há cerca de 30 anos, o historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello resolveu romper com a tradição acadêmica e alterar o rumo de como o fenômeno social nordestino vinha sendo estudado até ali. Naquela época, o tema, segundo ele, era entregue a muitos preconceitos e visões apaixonadas. Era hegemônica uma visão engajada, acostumada a interpretar o cangaço como fenômeno econômico, fruto da opressão do coronel sobre o cangaceiro. Isso foi derrubado por terra mediante pesquisas de campo.

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Assim surgiu a primeira edição de Guerreiros do sol - Violência e banditismo no Nordeste do Brasil (A Girafa, 520 páginas, R$ 55). Contribuição valiosa da obra foi ter explicado o comportamento e as motivações daqueles vistos muitas vezes como “facínoras”. Isso foi possível por meio de um “anteparo para a existência moral” do cangaceiro, cujas justificativas para as próprias ações variavam. Uns diziam serem decorrentes de um desejo de vingança (pela morte de um parente, por exemplo), de uma necessidade de fugir das autoridades ou de ter alguma fonte de renda por falta de opções. “Nem sempre eram verdades, mas, pelo quadro de valores prevalecentes no Sertão, quando se alega estar em missão de vingança, por exemplo, mais do que direito, você é visto como detentor de um dever”, diz Frederico.

No prefácio da edição de 1985, o sociólogo Gilberto Freyre assinalou um trunfo da mudança de visão, a respeito de “haver dois Nordestes, não um só, o que leva à consideração de existir mais de um banditismo, e não de um só, sob o mesmo sol tropical”. E concluiu: “São vários cangaços, várias honras”.

Para o também pesquisador do tema e historiador João de Sousa Lima, o cangaço é uma página histórica escrita unicamente no Nordeste brasileiro e, como todo fato do passado, não pode ser julgado. “Lampião foi, antes de tudo, história. Andou à margem da lei, matou, roubou. Contudo, a polícia foi muito pior. Mataram mais, roubaram mais e estupraram mais”.

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Autor da antologia O cangaço na poesia brasileira (2009), o professor da UFPE e doutor em literatura Carlos Newton Júnior destaca como escritores como Ariano Suassuna se anteciparam de alguma forma em destacar o lado “vítima” dos protagonistas do banditismo. “Se você observar o enredo da peça Auto da Compadecida, de 1955, os cangaceiros são os únicos que vão direto para o céu. Isso talvez se explique pelo fato de a família de Ariano ter sido de alguma forma perseguida pelo cangaço”. De maneira semelhante, poetas das décadas de 1920 e 1930, como Rodrigues de Carvalho e Serrote Preto, já construíam um mito em torno da figura de Lampião, ao abordar o suposto “corpo fechado” dele.

O OUTRO LADO Eles eram cangaceiros, mas também homens e mulheres como eu e você. Antes de aderirem à saga sanguinolenta e bandoleira, tinham vidas comuns, geralmente sofridas. Quem foram essas pessoas? A questão é essencial para entender o comportamento de quem viveu no contexto do banditismo sertanejo.

Em Viagens ao Nordeste do Brasil (1942), o pintor inglês Henry Koster descrevia os sertanejos da época do cangaço: “Eram geralmente resolutos e bravos. Corajosos, sinceros, honestos e hospitaleiros, ainda que extremamente ignorantes e dados a crenças em encantações, relíquias e coisas da mesma ordem”. Embora ele classifique os sertanejos como “boa raça de homens”, adverte: “Essa gente é vingativa. Ofensas muito dificilmente são perdoadas e, em falta de lei, cada um exerce a justiça pelas próprias mãos”.

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Em outras palavras, Euclides da Cunha, autor do clássico Os sertões (1902), dizia o quanto o sertanejo “calcula friamente o pugilato (confronto), livre de expansões entusiásticas (...) para não desperdiçar a mais ligeira contração muscular, a mais leve vibração nervosa sem a certeza do resultado”. Em suma: “É o homem que dorme na pontaria”. O próprio Euclides diagnosticava o atraso na vida sertaneja, segundo Frederico Pernambucano de Mello, classificada como “retrógrada” por estar “envolta por toda uma estrutura familiar, política, econômica, moral e religiosa arcaica e arcaizante, fruto de isolamento de séculos”.

A escritora Marilourdes Ferraz, na obra O canto do Acauã (1978), descreve o Sertão pernambucano testemunhado pelos pais e avós: “Nos primórdios do século 20, a região sertaneja do rio Pajeú permanecia estática no tempo, com seus habitantes vivendo quase tão isolados quanto os primeiros colonizadores que ali se estabeleceram”. Em consonância com o depoimento, Frederico Pernambucano chama a atenção para a existência, naquela época, de “um Sertão tardiamente feudal”, com indiferença em face da morte (derivado do fatalismo religioso) e uma insensibilidade no trato com o sangue (por causa da natureza cruenta da atividade pecuária).

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“Não é de se estranhar que cangaço tenha sido forma de vida criminal orgulhosa, ostensiva, escancarada, carnavalesca”, avalia. E essas características se mostravam nos mais diversos tipos de figuras violentas, para além do cangaço, como o valentão (espécie de justiceiro), o cabra (fiel escudeiro do patrão, agressor e defensor), capanga (guarda-costas), pistoleiro (matador) e jagunço (profissional “freelancer” cuja lida diária com as armas era o meio de vida.

Da parte da população, a cultura sertaneja abonava o banditismo dos “cabras da peste”, e até torciam pela vitória dos grupos com os quais simpatizavam, como times de futebol. Nas feiras, as façanhas de guerra dos capitães do cangaço começam a povoar os versos dos cantadores de feira, dos emboladores, rabequeiros. De maneira semelhante, chega à literatura de cordel e torna Lampião e Maria Bonita ícones pop absolutos.


Fellipe Torres

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