Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Como a ficção ajuda a despertar o medo de palhaço


joker-3.jpg A repulsa por palhaços - geralmente acompanhada de ataques de pânico, perda de fôlego, arritmia cardíaca, suores e náusea - não é facilmente explicada, haja vista as divergências entre pesquisadores do assunto. Para alguns, o medo se baseia em uma experiência pessoal com algum palhaço na infância, como um constrangimento durante espetáculo. Outros acreditam na forte influência da mídia e da cultura pop, sobretudo diante da associação da figura caricata a filmes de horror na televisão, no cinema, na literatura, nos quadrinhos. Esse primeiro contato geraria uma pré-disposição ao medo.

Pesquisa realizada em 2014 pelo instituto YouGov, na Inglaterra, apontou o palhaço como o décimo colocado em um ranking de elementos com maior potencial para despertar fobia. Participaram 2 mil pessoas. Outro estudo publicado pela revista New Ideas in Psychology apontou o fator da imprevisibilidade como algo fundamental para despertar a desconfiança do público em relação aos palhaços. Cerca de 1,3 mil voluntários com mais de 18 anos listaram características consideradas por eles assustadoras e fizeram um ranking das profissões mais arrepiantes. Os palhaços lideraram com folga.

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Cientes do fascínio pela figura do palhaço assassino em várias mídias, o coletivo Boca do Inferno - formado por Marcelo Milici, Filipe Falcão, Gabriel Paixão, Matheus Ferraz e Rodrigo Ramos - lançou Medo de palhaço: A enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop (Generale, 288 páginas, R$ 59,90). O livro analisa mais de 150 obras e busca explicações para a coulrofobia na história e na psicologia.

Para o pesquisador e jornalista pernambucano Filipe Falcão, o palhaço é uma figura facilmente identificável e com potencial para despertar o interesse do público. “No cinema, por ter ganho essa importância, tornou-se parte de uma receita fácil. É como um filme de zumbi. Não precisa ter roteiros mirabolantes, diferentemente de produções de drama e aventura, cuja audiência é mais exigente”, opina. Segundo o autor, os longas-metragens protagonizados por palhaços têm grande variedade, indo desde filmes muito bem produzidos até alguns de baixíssimo orçamento, com um elenco mais fraco.

Um divisor de águas, segundo ele, foi a adaptação, no fim dos anos 1980, do livro It (A coisa), escrito por Stephen King. Isso porque o palhaço deixou de ser coadjuvante - em produções “trash”, “bagaceira” - para se tornar um dos principais vilões da época. Sobre a recente onda de “palhaços assassinos” em espaços públicos, Filipe diz ter sido uma “feliz coincidência”, pois se tornou a “melhor divulgação possível” para o livro recém-lançado. “A brincadeira é válida, mas é preciso ter uma série de cuidados, principalmente com pessoas mal intencionadas. O problema do palhaço, assim como todo personagem mascarado, é não saber quem está lá”, finaliza.

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Episódios de pessoas fantasiadas de “palhaços assassinos” - ocorridos em todo o mundo - se tornaram recorrentes nos noticiários dos últimos cinco anos. Apesar disso, não chegam a configurar uma novidade. Casos assim já eram noticiados pela imprensa norte-americana nos anos 1980, quando personagens desse tipo eram recorrentes na indústria cinematográfica dedicada a filmes de horror.

O Brasil também tem a sua parcela de disseminação do medo, mas com outro viés. Em meados dos anos 2000, em pequenas cidades do interior de Pernambuco, surgiram relatos de homens vestidos de palhaços para capturar crianças, retirar órgãos das vítimas e vendê-los. A história - nesse caso, uma lenda urbana - é semelhante a uma outra, popularizada uma década antes entre os moradores de Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo. O pânico do Sudeste havia migrado para o Nordeste.

Enquanto a lenda ganhava força no Interior, atores profissionais encontravam dificuldade para levar adiante o trabalho como animadores de festas infantis. Na capital, durante apresentação em um projeto ligado à Igreja, a trupe da qual fazia parte Dodi Fontes, o Palhaço Bituca, era alvo de olhares atravessados de mães preocupadas. Nenhuma delas saiu de perto da prole antes de os artistas deixarem o local.

O episódio, ocorrido na década passada, é apenas um dos muitos contratempos enfrentados nos 25 anos de existência do personagem. “Tanto em eventos maiores quanto em festinhas de aniversário há crianças com receio de se aproximar, adultos com muito medo. Só pelo olhar deles a gente consegue perceber”, revela o animador. “Há vários linhas de palhaço e cada um trabalha com determinadas esquetes. Alguns usam o barulho e o susto, algo capaz de desencadear um trauma infantil”, completa.

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A atriz Laura Muniz corrobora a necessidade do tato para a atividade. Para ela, cuja identidade secreta por muitos anos foi a de Palhaço Bolota, muitos colegas apostam no grito e no estardalhaço. “É preciso entrar macio, sorrindo, para não espantar”. Com 27 anos de experiência, ela abandonou o personagem Bolota há uma década, em um cenário cada vez mais desfavorável para os palhaços menos famosos, na avaliação da artista. “Há 20 anos, era comum o medo de alguns crianças, sim. Hoje, elas adoram zumbis, vampiros, monstros. As festas infantis mudaram muito, têm mais espaço para recreadores, brinquedos, outras atrações”, atesta Laura Muniz.

Sobre a onda de pessoas vestidas de palhaços assustadores em vias públicas, Dodi Fontes demonstra preocupação relativa a quem faz graça como ganha-pão. Muniz é mais enfática, ao classificar a brincadeira de “terrorismo” praticado por “um bando de loucos varridos”. As aparições ganham lastro na ficção: existe mais de uma centena de longas-metragens com palhaços assustadores lançados nas últimas décadas. O mais famoso vilão desse subgênero, Pennywise, ressurgiu em 2017 no remake do filme A coisa, com visual repaginado e bem mais assustador.

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CASOS DA VIDA REAL

O primeiro caso notório de um crime associado a um palhaço foi em 1836, quando o artista francês Jean-Gaspard Deburau, vestido de pierrô, atingiu um garoto na cabeça com sua pesada bengala, matando-o. A motivação do crime teriam sido insultos por parte da criança. Deburau foi preso. Mais recentemente, o serial killer John Wayne Gacy Jr. Passou a fazer parte do imaginário popular, tamanha a repercussão de seus crimes. Também conhecido como Palhaço Assassino, Gacy cometeu ataques sexuais contra adolescentes na década de 1960 e foi condenado por sodomia. Ao sair da prisão, passou a se vestir de palhaço para entreter crianças em festas e hospitais, em supostas ações de caridade.

No mesmo período, esfaqueou e enforcou vários jovens, cujos corpos eram enterrados no terreno da própria casa de Gacy. Foram 33 vítimas fatais. John Gacy foi condenado à pena de morte. A sua imagem foi vastamente explorada pela televisão e pelo cinema. Entre os filmes baseados na história dele, estão To catch a killer (1992), Dear Mr. Gacy (2010), Dahmer vs. Gacy (2010), 8213: Gacy house (2010). No subúrbio de Chicago (cidade natal de John Gacy), nos EUA, o centro de entretenimento Robie Zombie’s Great American Nightmare - cuja especialidade é a atração no formato “casa dos horrores” - tem um espaço todo dedicado ao serial killer. O empreendimento tem sido duramente criticado por familiares das vítimas.

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DISFARCES PARA COMETER CRIMES

A maquiagem carregada ou a utilização de máscaras é uma solução óbvia para esconder a identidade de criminosos em potencial. Em alguns casos, o susto causado nas vítimas surge como um bônus. Há pelo menos uma dezena de filmes cujos enredos trazem esse tipo de palhaço circunstancial, a maioria deles lançada nas décadas de 1970 e 1980. O personagem mais famoso talvez seja Michael Myers, da aclamada franquia de terror Halloween. No longa A noite do terror (1978), com apenas 6 anos de idade Myers se fantasia de palhaço para o Dia das Bruxas e comete seu primeiro crime: mata a irmã esfaqueada.

Outros filmes:

Terror on tour (1988) – Músicos se apresentam com maquiagem de palhaço e simulam assassinatos. Durante os shows, alguém com a mesma caracterização comete crimes reais.

Out of the dark (1988) – Além de se vestir de palhaço, Bobo atua como um durante os assassinato, brincando com as vítimas.

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PALHAÇO PROFISSIONAL E CRIMINOSO

Antes de mais nada, ser palhaço é um meio de vida. Pessoas com essa profissão - assim como quaisquer outras - estão sujeitas a cometerem crimes e serem descobertas. Esse viés mais realista é explorado no longa-metragem Blood harvest (1987), cujo enredo conta a história de Mervo, palhaço de uma pequena cidade norte-americana. Ele se torna o principal suspeito de uma série de assassinatos - as vítimas eram penduradas pelos pés e degoladas. Sem nunca tirar a maquiagem de palhaço e dono de uma voz fina, Mervo é naturalmente assustador.

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A transição de palhaço para assassino é o ponto em comum com o longa 100 tears (2007), cujo protagonista é Gurdy, atração de um circo itinerante. Ao se envolver em intriga entre colegas de profissão, mata brutalmente o “homem forte” do circo e a sua esposa. Em seguida, ele foge e se torna o assassino em série conhecido como Teardrop Killer. De porte físico avantajado e sem falar nada, o palhaço promove matança por mais de duas décadas.

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MONSTROS, DEMÔNIOS, ZUMBIS Quando a intenção é se aproveitar de fobias guardadas no imaginário coletivo, não é preciso muita justificativa para evocar a figura de um palhaço. Muito menos para mixá-la com outras criaturas medonhas. Não é de se estranhar a existência de palhaços-vampiros em Hellbreeder (2004), de palhaços-demônios em Kill joy (2000) ou de palhaços-zumbis em Dead clows (2004), Terra dos mortos (2005).

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LOUCOS MAQUIADOS

Transtornos psicológicos ou doenças mentais são argumentos utilizados com alguma frequência pela sétima arte para justificar matanças causadas por alguém vestido de palhaço. Essa é a premissa de Maniacal (2003), sobre um jovem perturbado devido a “estranhos carinhos da mãe”. Ele foge de instituição mental, rouba uma máscara de palhaço e sai para uma noite sangrenta. O longa britânico Clown around (2011) tem enredo semelhante: um paciente catatônico foge de um manicômio, encontra uma máscara de palhaço.

Outros filmes:

Fear of clowns (2004) e Fear of clowns 2 (2007) – No primeiro, um psicopata é persuadido por seu psiquiatra a se vestir de palhaço, perseguir e matar a sua esposa. Termina preso. No segundo, o personagem foge e se une a outros dois palhaços: um estuprador e canibal e um assassino esquizofrênico.

Palhaço assassino (1989) – Bippo, Dippo e Cheezo matam palhaços do circo local e reproduzem com exatidão a maquiagem das vítimas. Os três, na verdade, são fugitivos de um sanatório.

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LITERATURA COMO FONTE DE PALHAÇOS ASSASSINOS

Palhaços já foram descritos como criaturas desajustadas em obras como As aventuras do Sr. Pickwick (1836), de Charles Dickens, considerado o criador do palhaço assustador. No livro, um ator decadente, doente e enlouquecido vaga pelas ruas de Londres com trajes circenses. No conto Hop-Frog of the eight chained ourang-outangs (1849), de Edgard Allan Poe, um bobo da corte arma situação para queimar o rei vivo e escapar da tragédia como inocente. Mas o personagem do gênero com maior destaque na literatura foi criado por um autor contemporâneo: Stephen King.

O livro It (1986) introduziu a figura conhecida como “A Coisa”, combinando elementos como lembranças, traumas de infância e horror em pequenas cidades. A história foi adaptada para o cinema em 1990 e vai ganhar uma nova versão em setembro de 2017. Outros livros a abordarem palhaços assassinos foram The Pilo Family circus (2006), de Will Elliott), e The grin of the dark (2007), de Ramsey Campbell.

Já nos quadrinhos, um dos vilões do Batman, o Coringa, é um caso à parte, conhecido como Príncipe Palhaço do Crime.

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Bizarros também na telinha

Desde os primórdios da televisão, os palhaços são figuras frequentes entre os programas voltados para o público infantil. Não raro, muitos deles adquirem um ar bizarro e taciturno. O mais bem-sucedido entre esses personagens foi criado em 1946 por Alan W. Livingston para uma série de histórias em disco. Três anos depois, Bozo estreou na TV norte-americana, interpretado por Larry Harmon. Com o sucesso do palhaço, Larry comprou os direitos autorais do personagem e o transformou em uma franquia de sucesso, a ponto de treinar mais de 200 atores para interpretá-lo em emissoras do país.

Nessa mesma época, a rede de fast-food McDonald’s - uma das anunciantes do programa do Bozo - criou o próprio palhaço, Ronald McDonald. Somente na década de 1980 Bozo ganharia uma versão brasileira, interpretada inicialmente por Wandeko Pipoca. Nessa mesma época, surgiriam outros personagens nacionais (igualmente excêntricos e com potencial assustador), como Vovó Mafalda (Valentino Guzzo) e Papai Papudo (Gibe).

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O intérprete mais popular do Bozo brasileiro, no entanto, foi Arlindo Barreto, à época movido a uísque, maconha e cocaína. A inalação da droga chegou ao ponto de corroer as cavidades nasais do palhaço, cuja ostentação incluía o namoro com a dançarina Gretchen e uma coleção de carros conversíveis. A saga do homem por trás da maquiagem foi contada no cinema em filme de 2017, no longa-metragem dirigido por Daniel Rezende e protagonizado por Vladimir Brichta. Para driblar os direitos autorais norte-americanos, características e alguns nomes foram trocados: o filme foi chamado de Bingo, o Rei das Manhãs.


Fellipe Torres

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