Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Em 1940, frevo era dançado com faca e guarda-chuva

O trabalho de pesquisadores e de grupos cênicos como os Guerreiros do Passo ajuda a compreender o passado do frevo e do comportamento durante os dias de carnaval


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O carnaval de Pernambuco nem sempre foi tão multicolorido quanto vemos hoje, com passistas saltitantes, vestidos com roupas chamativas e sombrinhas em punho. O acessório, aliás, foi originalmente pensado para crianças, e apropriado pelos dançarinos somente com o surgimento dos concursos de frevo realizados por emissoras de televisão, na década de 1960.

Até então, as roupas adequadas para cair no passo (todos se consideravam, de algum modo, passistas) eram quase monocromáticas. Um dos registros mais emblemáticos da folia de antigamente são as imagens feitas pelo fotografo francês Pierre Verger, no Recife de 1947. Essa atmosfera é recuperada pelo grupo de artes cênicas Guerreiros do Passo em diversas apresentações, muitas delas ao ar livre.

Com 14 anos de existência, a trupe se baseou em farto material de pesquisa para compor a frevança retrô. “Mergulhamos em diversos elementos, desde a textura do tecido das roupas até os estereótipos da época, mas vamos além do figurino. Todos os movimentos remetem a um outro período, quando não se dançava como hoje. Era um frevo acrobático mas sem a plástica atual, era muito mais pé no chão”, diz o pesquisador, coreógrafo e coordenador do grupo, Eduardo Araújo. Veja, abaixo, a diferença entre os passistas de antigamente e os contemporâneos, e conheça dois elementos comuns nos carnavais de outrora, mas proibidos nos de hoje.

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+passista de raiz

roupa comum

Nas décadas de 1940 e 1950, diz o pesquisador Eduardo Araújo, não existia a figura do passista profissional. Pessoas comuns desfilavam pelas ruas com as roupas do cotidiano. “Ao largar do trabalho, a pessoa já caía no passo, fazendo o molejo. Logo se misturava a um monte de malandros e bêbados que, depois de um gole de cachaça inventava novos passos de dança”. O mais comum era o uso de roupas claras. Segundo o historiador Leonardo Dantas Silva, era raro o uso de adereços. “Quando observamos fotos da época, como as feitas por Pierre Verger, vemos homens geralmente vestidos de paletó e suspensório, com roupas de mulher ou então fantasias muito simples. Já nos bailes, o folião estava melhor trajado. Os homens vestidos a rigor, geralmente com traje summer – smoking com paletó branco, calça preta e gravata borboleta”.

guarda-chuva

A principal função do guarda-chuva ou sombrinha era se proteger do sol escaldante. Contudo, ajudava também no equilíbrio do folião na hora de executar os passos de frevo e, para quem estava à procura de briga, servia como arma. Capoeiristas e integrantes de clubes rivais usavam guarda-chuvas velhos e esfarrapados (geralmente grandes e pontiagudos) para golpear e se defender. “Além de o guarda-chuva ser um componente comum da indumentária, há também a questão da herança afro. Os negros sempre gostaram de usar o guarda-sol, talvez inspirados nos sobas africanos, que saíam aparados por um zumbi que protegia o rei do maracatu”, acrescenta Dantas.

chapéu

Assim como o guarda-chuva, chapéus grandes eram muito usados para se proteger do sol.

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PASSISTA CONTEMPORÂNEO

sombrinha

Conforme foi se tornando característico do carnaval, uma empresa chamada Casa Bastos , localizada na rua da Indústria, nas proximidades do Pátio de São Pedro, criou sombrinha pequena e colorida para crianças.

vestes coloridas

“Com o surgimento da televisão, na década de 1960, apareceram concursos de passistas, que passaram a utilizar a indumentária colorida que conhecemos até hoje. Eles também se apropriaram da sombrinha, pois com ela era mais fácil de fazer passos e acrobacias aéreas”, explica Leonardo Dantas. lança-perfume.jpg

proibidões

a pernambucana

Antigamente, um tipo de faca de ponta muito comum, conhecida como “a pernambucana” fazia parte da vestimenta de qualquer homem de família. Debaixo da axila, junto ao colete, andava-se com a faca cheia de gravações em ouro e pedras semipreciosas. Em modelo mais modesto, era também a arma do malandro que, ao invés de ameaçar as inimizades com navalha, típica do Rio de Janeiro, usava a tal faca, diferente da peixeira ou do punhal pelo tipo de lâmina. A arma branca inspirou frevo composto por João Valença que dizia: “meto-lhe a pernambucana/ E sangro no pé da goela”.

lança-perfume

Surgiu no carnaval em 1904, no Rio de Janeiro, e logo se espalhou pelos festejos em todo o Brasil. Inicialmente, o produto era importado da Argentina, até que a empresa Rhodia abriu, na década de 1920, uma fábrica em São Bernardo do Campo, São Paulo. Era usado principalmente para perfumar os salões e esguichar os outros foliões, causando sensação de congelamento. Contudo, passou a ser cada vez mais inalado, até ser proibido, na década de 1960.


Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
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