Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Mais de 60 anos após lançado, 'Grande Sertão: Veredas' ainda tem muito o que nos ensinar


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Um dos maiores divisores de águas da literatura brasileira ocorreu em maio de 1956, quando a publicação de um romance de mais de 600 páginas, sem divisão de capítulos, revolucionou o mundo das letras. Até então, não havia surgido nada parecido com aquele livro enigmático, paradoxal, inovador. De mãos dadas a temas e costumes regionais, conseguiu ser universal como poucos. A partir de conflitos pessoais de personagens aparentemente simples, foi capaz de traduzir o mistério e a angústia da existência humana. Desde Machado de Assis, no século anterior, uma publicação nacional não extrapolava com tanta veemência as fronteiras da nação. Ainda hoje, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (1908-1967), intriga cada vez mais acadêmicos, a ponto de ser considerada uma obra inesgotável.

Pesquisadora do título há 30 anos, Karina Bersan Rocha testemunhou a profusão do interesse ao longo das décadas pela a principal obra-prima do escritor, médico e diplomata brasileiro. Doutora em letras pela PUC Minas, ela considera infindáveis as possibilidades de exploração temática, pois, a cada leitura, o livro revela novos vieses, abre novas perguntas, sem trazer respostas. “Você pode passar a vida toda buscando. Ele trouxe uma linguagem transformadora, jamais repetida”. Nos estudos acadêmicos, a professora se dedicou sobretudo às características líricas da escrita utilizada por Guimarães Rosa, cuja pena imprimiu significativo aspecto poético à prosa.

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“Ele desenvolveu um trabalho de linguista muito importante, no sentido de dar uma dimensão internacional a um modo de falar sertanejo. Pegou uma característica local e a transformou dentro das possibilidades da universalidade da linguagem. Isso dá uma nova dimensão à literatura brasileira”, conclui Karina Rocha. Essa particularidade colocou Grande Sertão no mesmo bojo de importantes obras latino-americanas, muitas delas fundadoras do chamado realismo mágico. Foi quando começou a se falar em uma nova tradição literária, construída sem seguir os cânones europeus.

Narrado pelo ex-jagunço Riobaldo - cuja atração pelo colega Diadorim se revela um conflito psicológico -, o romance se vale de várias dicotomias para suscitar reflexões. Para o professor de literatura Janilto Andrade, doutor em letras pela UFPE, o livro joga luz sobre a significação humana, o embate do ser humano com o aspecto dialético da existência, entre o bem e o mal, Deus e o diabo, certo e errado. Ademais, ao quebrar os limites entre prosa e poesia, Guimarães Rosa constrói imagens extraordinárias. “Ele desnuda a linguagem para mostrar sua força reveladora, estonteante. Fala sobre o grande Sertão da vida, de veredas escuras, traiçoeiras, e é uma referência à própria travessia da existência. O ser humano se assusta diante da vida, mas viver é prazeroso”, frisa Andrade.

De certa forma, o Sertão rosiano guarda ligações com outros surgidos antes dele, mas vai além, ao assumir uma postura transcendental. Segundo o coordenador do curso de letras da Focca, o professor Neilton Limeira, a obra alarga a noção de Sertão trazida pela prosa da geração de 1930, e de Os sertões (1902), de Euclides da Cunha. “Guimarães Rosa amplia o recorte, traz a palavra transformada em som, poesia, com uma linguagem fluida, carregada de metáforas”. A partir do domínio da escrita, ladeado por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, o romancista passa a ser um farol para as futuras gerações, um novo paradigma.

Em pesquisa sobre o tema, o professor Lourival Holanda, doutor em letras pela USP, teve acesso a um exemplar de Os sertões outrora pertencente a Guimarães. Na publicação, ele costumava marcar de amarelo passagens relacionadas ao sagrado, de verde aquelas que considerava bonitas, e ainda escrevia em alguns trechos a expressão “M 100%” (interpretada por estudiosos como “meu 100%”).

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“Ele leu muito, se alimentou, transfigurou por aquilo que passou. Quando você vê a biblioteca dele, entende porque é um monstro”, avalia Holanda. Grande Sertão: Veredas cumpre, segundo o acadêmico, a modernidade prometida décadas antes por Mário de Andrade. Guimarães Rosa exerce, frente à língua portuguesa, papel semelhante ao de James Joyce diante do inglês. Ou seja, foi responsável por um alargamento nas possibilidades de dizer, pelo enriquecimento do idioma.

“Ele não abre portas, mas escancara, põe portas abaixo. Com todo o respeito à literatura brasileira, Guimarães Rosa é um caso à parte. Ele é revolucionário porque libera a língua do sentido tradicional, quase automático. É responsável por um alargamento da visão do mundo, expresso pela linguagem”.

20160522230849913588i (1).jpg [ Entrevista Lourival Holanda // professor da UFPE, doutor em letras pela USP

Qual impacto Grande sertão: Veredas trouxe para a literatura brasileira?

Em 1956, tanto Guimarães Rosa quanto João Cabral de Melo Neto são vistos como marcadores da modernidade. O livro é de importância muito grande. Trouxe a impressão para novos escritores de que era preciso escrever à moda de Guimarães. Uma besteira. Importante, mesmo, é ser criativo como ele foi. Não gosto de falar em influência, pois isso implica em colocar um autor como mais importante em detrimento do outro. Contudo, em muitos romances posteriores, vê-se um conceito experimental de linguagem, que não tem nada de Guimarães Rosa, mas, para ser tão criativo assim, é preciso ter passado por ele.

O livro é apontado como atemporal e universal. Você concorda?

É arriscado dizer isso, pois nada em literatura é atemporal, universal. O que há é uma experimentação na linguagem que a gente descobre quando a literatura não é só aquilo que é dito, mas como é dito. Tenho uma obsessão por Guimarães Rosa porque gosto de explorar as possibilidades latentes da língua. Ele usa expressões como “muita fraternura”, “sozinhozinho”... A linguagem tenta tangenciar aquilo que ela nunca vai abarcar totalmente, pois não diz sobre o que é mais fundo em nós. Tem consciência das suas limitações, e, por isso, joga sinais.

Como enxerga o crescente interesse da academia pela obra?

Não fico muito feliz com isso, porque termina sendo um clássico que a gente reverencia mais do que lê. Cria-se uma “vulgata Guimarães”, assim como há uma “vulgata Clarice”. Um livro rico é aquele que se presta a diversos tempos. Dante, por exemplo, era lido como religioso, depois passou a ser lido como político e, no século 20, como linguista, alguém que alargou e, de certa forma, criou a língua italiana. Guimarães é reverenciado pelo mesmo motivo. Escreveu um romance que fez revolução na linguagem brasileira, uma espécie de épico pelo avesso (no tradicional, os gestos são exteriores. No caso dele, é um conhecimento de si mesmo que vai avançando por dentro).

[ Lições de Veredas

PAIXÃO CONTROVERSA

Um dos pontos centrais do livro são os sentimentos de Riobaldo pelo colega Diadorim. No entender do ex-jagunço, estar apaixonado por outro homem só pode ser coisa do diabo. O assunto, no entanto, é tratado com naturalidade por Guimarães Rosa, sem levantar bandeiras ou julgar os personagens.

Para Lourival Holanda, se a questão levantada pelo livro se resumisse à homossexualidade, seria algo pobre. “O mais interessante é o que não é dito, a ambiguidade. A obra não defende causas, mas mostra o quanto o mistério com o outro é rico. A literatura não revela, ela tangencia”.

Frequentemente despida de qualquer tabu, a homoafetividade é marca de muitos romances contemporâneos, como Nossos ossos, do pernambucano Marcelino Freire, Garoto encontra garoto, de David Levithan, As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky.

ALÉM DA SUPERFÍCIE

Embora muito poética e baseada no modo de falar dos sertanejos, a linguagem utilizada por Guimarães Rosa exige um olhar atento por parte dos leitores. Grande Sertão: Veredas abusa dos experimentalismos, significados ocultos, aliterações, metáforas, neologismos. A profundidade da obra força o leitor a ir além da superfície, a entrar no jogo de significações proposto pelo autor, que inclui a germanização do português. O mergulho nas entrelinhas é tão necessário como quando se está diante de Avalovara, de Osman Lins, ou Macunaíma, de Mário de Andrade.

Embora a literatura produzida atualmente seja quase toda voltada para o simples entretenimento, com apostas em leituras mais fáceis e rasas, romances clássicos e de fôlego ainda são bastante consumidos. São exemplos Anna Karenina, de Liev Tolstoi, David Copperfield, de Charles Dickens, Os miseráveis, de Victor Hugo.

MULHER MUTÁVEL

A obra-prima rosiana apresenta uma mulher que assume identidade masculina, de um guerreiro, embora tenha características femininas. No mesmo texto, uma prostituta é narrada sem nenhum preconceito na linguagem, sem quaisquer estereótipos ou limitações.

Enquanto na obra de autores como Machado de Assis o feminino é lugar da malícia e da ascensão social, em Guimarães Rosa ele ganha um novo paradigma. “Grande Sertão tira o feminino de um lugar fixo e o trata como questão mutável”, pontua Karina Bersan Rocha.

Tanto nas artes quanto na sociedade, o empoderamento da mulher tem se tornado palavra de ordem. Esse traço contemporâneo tem forte reflexo na produção literária, com surgimento de personagens femininas capazes de ir além de qualquer limite imposto historicamente.

DEMASIADO HUMANO

A figura do jagunço surge em Grande Sertão: Veredas como um capataz contratado por grandes fazendeiros para proteger seus interesses, mesmo que de maneira ilegal, cometendo homicídios e outros crimes. Enquanto serve a um senhor, ele tem status e é visto quase como um herói.

Como acontece com boa parte das questões levantadas na obra por Guimarães Rosa, o jagunço enfrenta uma dicotomia, aquela estabelecida entre poder instalado e exploração do povo. Quando ele se coloca contra os fazendeiros, fazendo as mesmas atividades de antes, é visto como bandido.

Para a pesquisadora Karina Bersan Rocha, a questão humana segue atual. “O leitor de hoje vai encontrar paralelos com a realidade e pode até traçar paralelo com a atual política do Brasil”, sugere. A incerteza entre o bem e o mal é marca crescente na obra literária e audiovisual.

[ Adaptações

1965 Documentário Grande Sertão: Veredas. Direção e roteiro: Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira.

1985 Minissérie da Rede Globo, direção de Walter Avancini. No elenco, nomes como Tony Ramos, Bruna Lombardi e Tarcísio Meira.

1992 Adaptação teatral de Luís Alberto de Abreu, com interpretação do grupo Escola Livre de Teatro de Santo André.

1993 Curta-metragem Rio de Janeiro, Minas, dirigido por Marily da Cunha Bezerra, imagina encontro de Riobaldo e Diadorim no porto do Rio de Janeiro e a travessia pelo rio São Francisco.

1994 Adaptação para o teatro, com direção de Regina Bertola, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro.

1998 Docudrama exibido na tevê por ocasião do centenário de nascimento de Guimarães Rosa. Combinou depoimentos, entrevistas, trechos encenados.

2006 Espetáculo teatral O homem provisório, livremente inspirado em Grande Sertão: Veredas. Criação de Geraldo Alencar, interpretada pelo grupo Casa Laboratório para as Artes do Teatro.

2014 Adaptação em formato de graphic novel, assinada pelos quadrinistas gaúchos Eloar Guazzelli e Rodrigo Rosa. Editora Biblioteca Azul, 180 páginas


Fellipe Torres

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