Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
[email protected]

Zé Negão: A voz da África que merece ser ouvida

Amigos e admiradores de coquista pernambucano têm se mobilizado para viabilizar a gravação do primeiro disco do artista


ze.jpg Há um sambinha composto por Gilberto Gil cuja letra vaticina: “Aparece a cada cem anos um/ E a cada 25 um aprendiz/ Aparece a cada cem anos um mestre da canção no país”. Licenças poéticas à parte, não há como precisar com tanta certeza de quanto em quanto tempo surgem figuras como Mestre Zé Negão, percussionista, educador, ativista e uma referência para muita gente quando o assunto são manifestações da cultura popular, sobretudo aquelas de origem negra e relacionadas à musicalidade. É certo, por outro lado, a humildade com a qual carrega o título no nome artístico. Aos 67 anos, prefere ser identificado como brincante ou “admirador da brincadeira”.

Reconhecido pelo Ministério da Cultura como Griô de Tradição Oral, o homem de vida simples à frente do Laboratório de Intervenção Artística (Laia), na comunidade João Paulo II, em Camaragibe, há muito tem se dedicado aos cantos do período escravagista. O “coco de senzala”, como ele chama, resgata canções entoadas pelos escravos quando, diante de uma boa safra, recebiam a anuência dos senhores para festejar. “Nas músicas, conto a história de quando os negros chegaram no Brasil e uma parte foi trabalhar nos engenhos e outra nas fazendas, onde tinha plantação de frutas”, explica.

As letras das canções - curtas e diretas - fazem referência ao cotidiano de sofrimento diante das longas jornadas e dos castigos físicos. Os mais atormentados, frisa Zé Negão, eram os negros designados para trabalhar com cana-de-açúcar: “Só dava trabalho e não dava alimentação, porque o camarada não vai se alimentar de caldo de cana, não é? Esses tinham que comer os restos da casa-grande”, fala com propriedade o neto de escravos e ex-cortador de cana. “O negro se sentia obrigado a cantar. Trabalhava cantando para diminuir o sofrimento. Naquela época, a moenda do engenho era toda no braço, com quatro negros puxando”.

Nascido em 1950 em Goiana, na Zona da Mata Norte, José Manoel dos Santos se aproximou da música popular por muitas frentes. Criado somente pelo pai, rodeado por dificuldades financeiras, batia ponto na porta dos terreiros em busca de alimento para o corpo e para a alma. Antes das cerimônias religiosas, pegava carona no mungunzá e arroz doce distribuído para os visitantes. Por ser proibido de entrar devido à pouca idade, espiava pela janela, encantado com os batuques potentes.

Outra influência musical foram as chamadas bandas de música de Goiana: Curica (a mais antiga do Brasil, fundada em 1848 pelos conservadores) e Saboeira (a rival, ligada aos liberais). Sem tomar partido, ele assistia às duas com o mesmo gosto, assim como visitava os cocos e os cavalos marinhos. A formação incluiu, ainda, performances da escola de samba Bafo de Onça (pela qual já desfilou vestido de Saci Pererê) e as rodas de capoeiras realizadas “no meio do mato”. Todas as experiências foram levadas na bagagem quando se mudou para Camaragibe depois de uma enchente. Desde então, está envolvido com transmissão de conhecimento sobre cultura popular.

Hoje, Mestre Zé Negão alimenta dois sonhos. O primeiro é conhecer o continente africano, origem das manifestações culturais pesquisadas por ele. O segundo é gravar CD com as canções do coco de senzala com as quais se apresenta há tantos anos. O disco já tem nome: Tumbeiro, em referência aos navios encarregados por trazer escravos ao país. "Cada um trazia 600 negros. No meio do caminho morria a metade. Mas ainda assim valia a pena. Então meu desejo é divulgar essa história, junto com a musicalidade que veio da África. A diferença é que agora o Tumbeiro não vai trazer escravo e, sim, esperança".

CAMPANHA Amigos e admiradores de Mestre Zé Negão têm se mobilizado para viabilizar a gravação do primeiro disco do coquista (clique aqui para informações sobre a campanha). Diante da falta de incentivos para o registro fonográfico, ele demonstra um misto de resignação e tristeza.

"A cultura maltrata o artista. Quem faz arte não consegue sobreviver através dela. A importância desse projeto é divulgar a cultura brasileira. A cultura que foi e é esquecida, que a população não conhece e as escolas não trabalham em sala de aula".


Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 11/s/musica// @obvious, @obvioushp //Fellipe Torres