Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
[email protected]

Mário de Andrade: esbórnia e hedonismo no Recife da década de 1920

Na companhia de amigos como Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre e Joaquim Inojosa, o autor de Macunaíma vivenciou a fundo a capital pernambucana durante viagem etnográfica pelo "norte" do Brasil. Experiências incluíram sarapatel no Mercado da Madalena, água de coco na Avenida Boa Viagem, cachaça artesanal, cocaína e éter durante o carnaval, ao som do frevo Vassourinhas.

1.jpgEnquanto escrevia Macunaína, seu livro mais célebre, o escritor Mário de Andrade se lançou em uma viagem de três meses pelo “norte” do Brasil, dedicada à pesquisa da cultura nacional. Entre 7 de maio e 15 de agosto de 1927, ele se dedicou inteiramente a essa expedição etnográfica, em que investigou diversas manifestações do folclore nacional. No ano seguinte, fez outro percurso de três meses, e aproveitou para encontrar amigos como Ascenso Ferreira, Jorge de Lima, Cícero Dias e Câmara Cascudo.

Na jornada, o poeta registrou as impressões em um diário de 28 páginas, com letras minúsculas para aproveitar bem o espaço. No regresso a São Paulo, os escritos dariam origem ao livro O turista aprendiz. Além do olhar curioso a respeito dos lugares e pessoas, os manuscritos descortinam revelações sobre o próprio escritor: “É incrível como vivo excitado, se vê que ainda não sei viajar, gozo demais, concordo demais, não saboreio bem a minha vida. Estas notas de diário são sínteses absurdas, apenas para uso pessoal”.

Quando ainda estava planejando sua viagem cultural, Mário escreveu ao amigo pernambucano Manuel Bandeira, em 19 de maio de 1926.

“Vou na Bahia, Recife, Rio Grande do Norte onde vive um amigo de coração que no entanto nunca vi pessoalmente, o Luís da Câmara Cascudo. É um temperamento estupendo de sujeito, inteligência vivíssima e inda por cima um coração de ouro brasileiro. Gosto dele. Ele me arranja duas conferências no Norte, uma em Recife e outra em Natal”. 

14.JPG

Mário aceitou convite de Olívia Guedes Penteado, considerada mecenas dos modernistas, que financiou a viagem. O poeta resistia, mas topou diante da insistência. “Afinal, quando tudo quase pronto, resolvi ceder mandando à merda esta vida de merda. Vou também”.

Em 7 de maio de 1927, o escritor deixa São Paulo de trem, segurando uma bengala (“enorme, de cana-da-índia”) comprada especialmente para a ocasião. No dia seguinte, encontra o amigo “Manu” no Rio de Janeiro (“uma cidade mui feia. A natureza sim é maravilhosa, eu sei, mas a cidade, a urbanidade, o trabalho do homem, o sofrimento e a glória do homem, é uma coisa detestável”). No dia 10 de maio, às vésperas de embarcar no navio Pedro I, registra ter sonhado com o escritor Machado de Assis (morto havia 17 anos), contando que estava no inferno. “Mas estou no inferno de Dante, no lugar pra onde vão os poetas. O único sofrimento é a convivência.” Ao iniciar viagem, estava há um ano escrevendo Macunaíma, que só seria lançado em 1928.

15.jpg

O Recife da década de 1920

Em 15 de maio, desembarcou no Recife, onde passaria 24 horas na companhia dos poetas Ascenso Ferreira e Joaquim Inojosa. Nascido em Palmares (Zona da Mata de Pernambuco), Ascenso (cujo nome de batismo era Aníbal Torres) era um amigo recente. Casado com Stella Gris Ferreira, filha do poeta Fernando Griz, mudou-se para a capital após um período de perseguição política, motivada por ativismo abolicionista. Publicava poesias desde os 13 anos de idade, mas foi naquele ano de 1927, aos 32, que, incentivado por Manuel Bandeira, publicara seu primeiro livro, Catimbó. Na reunião de poemas, havia ecos modernistas da Semana de Arte Moderna (1922) traduzidos em um sotaque pernambucano. Sempre de chapelão na cabeça, Ascenso era um homem corpulento, de quase 2 metros de altura, e um tanto sem modos. Mário de Andrade dedica parte de suas anotações para analisar o jeito de ser do amigo:

“Ascenso Ferreira é de fato um indivíduo extraordinário. Não existe ligação nenhuma entre o espírito dele e o ser físico. Este é dum verdadeiro irracional, bruto, pesadão, sem absolutamente nenhum sequestro, tem sede bebe, tem fome come o que tem e quanto tem até não poder mais. Passa um indivíduo vendendo jornais, Ascenso compra, passa os olhos sem ler, compra por comprar, está empanzinado e bebe dois copos de água de coco gelada e bebe um café em cima. No meio da comida, boca suja, fala: – Porque Macunaíma não pode ser compreendido no sul... E continua comendo. Ninguém não falara em Macunaíma nem ele falará mais. O espírito, isolado do corpo, não consegue raciocínio quase nenhum. Vive de decretos e iluminações. Detesta escrever prosa e jamais será prosador. Um ser extraordinário, escarra onde está por cima do ombro, se suja todo. Suja os outros, não senta sem se deitar, encosta em tudo, até na gente, vê uma mulata fica louco, bonita, feia, todas são bonitas pra ele.”

3.jpg

Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira e Mário de Andrade

Já Joaquim Inojosa, um advogado de 26 anos, era natural de São Vicente Férrer (à época uma vila da cidade de Timbaúba), no Agreste de Pernambuco, e morava no Recife desde 1915, quando foi estudar no colégio interno Aires Gama. Em 1920, o casarão de dois andares no Bairro da Boa Vista passaria a abrigar o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), fundado em 1826 e considerado o instituto histórico mais antigo do Brasil.

A capital pernambucana encantava o jovem interiorano, que havia deixado para trás paisagens delineadas por “canaviais verdejantes, bananeiras em cachos, coqueirais sombrios”, como ele próprio descrevera. No Recife do início do século, por outro lado, saltavam aos olhos os recém-inaugurados bondes elétricos, as ruas calçadas, a energia elétrica. Naquela cidade Joaquim daria seus primeiros passos na vida profissional, ao ingressar em 1919 na Faculdade de Direito do Recife, de onde sairia bacharel em 1923.18.jpg

Joaquim, Ascenso e Mário passaram uma manhã regada à água de coco gelada na Praia de Boa Viagem, à época praticamente desabitada, em um misto de região rural com vila de pescadores. Palacetes e chalés de inspiração romântica indicavam que aquela área da cidade era dedicada ao veraneio de famílias mais abastadas, uma configuração que havia ganhado forma há poucos anos, em decorrência de um plano de melhoramentos para o Recife. A expansão foi planejada pelo engenheiro Francisco Saturnino de Brito a mando do então governador do estado, Sérgio Loreto. A avenida à beira-mar por onde passaram os três amigos naquela manhã de maio havia sido aberta há apenas dois anos, em outubro de 1925, quando Boa Viagem começou a ser alvo de uma feroz especulação imobiliária. Diferentemente do centro do Recife, área de sobrados com inspiração holandesa, Boa Viagem privilegiava a circulação de automóveis. 6.jpg Ao vislumbrar a praia como ambiente de lazer dos mais ricos, a capital pernambucana seguia os passos do Rio de Janeiro, que oito anos antes havia reinaugurado em Copacabana a Avenida Atlântica, duplicada e com um iluminado canteiro central, dando lastro aos primeiros edifícios residenciais da região. Entre eles, estava o Copacabana Palace Hotel, erguido em 1923, onde a alta sociedade carioca passou a se encontrar. Naquele dia, Mário e os dois amigos almoçaram e jantaram no restaurante mais antigo do Brasil, o Leite, fundado em 1882 e até hoje em funcionamento. Chamado de “fatalidade recifense” pelo escritor, que chegou a compará-lo ao Instituto Butantã (São Paulo), o estabelecimento receberia, anos mais tarde, a visita do casal Jean Paul-Sartre e Simone de Beauvoir, que dividiu mesa com Gilberto Freyre.

21.jpeg

Restaurante Leite, década de 1920

DEZEMBRO DE 1927

Sete meses depois, em 10 de dezembro, Mário de Andrade retornou à cidade e ficou hospedado no Hotel Glória, na rua Nova, no Bairro de Santo Antônio. Foi recebido novamente por Ascenso Ferreira e Stella. Juntos, almoçaram peixe-de-coco e feijão, comeram cajus e mangas. Anotou: “Queijo daqui é meio parecido, porém mais gostoso que requeijão. Feijão-de-coco é sublime”. 

À tarde, Mário recebeu a visita de Ernani Braga, pianista carioca radicado no Recife e participante da Semana de Arte Moderna. Em seguida, foi à casa de Ascenso para jantar em companhia de alguns conhecidos, entre eles o poeta Jaime Gris, irmão de Stella, e o poeta Manuel Bandeira. Aproveitou a noite para visitar igrejas e passear pelas ruas mais antigas da cidade. No dia seguinte, foi de carro ao município de Igarassu (à época, um trajeto de 13 horas; hoje, de meia hora), com direito a uma parada em Paulista, no meio do caminho, e banho de rio. Registrou observações diversas sobre a experiência: “Toda a estrada bordada de casinholas, evoluídas dos mocambos, bem pintadas com florões no frontão, pintados com variedade popular deliciosa. Uma venda intitulada Casa dos Pobres. Passa um caminhão chamado ‘Deus me perdoe!’”. 

23.png

Engenho Monjope, Igarassu, década de 1920

Para o poeta, a “feiúra” era culpa da invasão dos “matutos, sertanejos, da zona do mato”, estabelecidos na cidade em busca de dinheiro, em casas “de barro feio, cobertas com folhas caídas dos coqueiros”. Enquanto no Rio e em São Paulo, os desvalidos se “disfarçam morando em cortiços invisíveis”, analisava, “o Recife é mais sincero, conta a ‘tristura’ de tantos desiludidos”.

A aventura continuou regada à cachaça Monjopina (“a melhor pinga do mundo, destilada em alambique de barro no engenho de Monjope, pura, macia, emoliente, extasiante, melhor que whisky com água-de-coco”), e passeio de lancha pelo Rio Capibaribe, providenciado pelo antropólogo Gilberto Freyre, aos 27 anos. Sobre a volta de barco, escreveu com entusiasmo: “maravilhoso, com vista da cidade, depois dos arrabaldes, da Madalena, com os velhos cais das vivendas das famílias ricas antigas”. 

Gilberto Freyre, por outro lado, não desfrutou tanto da presenta de Mário. Anotou: “Má impressão pessoal de M. de A. [...] Seu modo de falar, de tão artificioso, chega a parecer - sem ser - delicado em excesso”. No dia seguinte, Mário de Andrade estava novamente embarcado no navio Dom Pedro I. 27.jpg

Gilberto Freyre

FEVEREIRO DE 1929

Em 8 de fevereiro de 1929, uma sexta-feira de Carnaval, Mário retornou ao Recife, desta vez de carro, e saiu pela cidade em busca de um maracatu, mas não encontrou. Por volta das 22h, encontrou o pintor Cícero Dias, que conhecia havia menos de dois anos, embora estivessem se correspondendo. (“Caímos todos no frevo do Vassouras. Loucura e formidável porre de éter”). 

No dia seguinte, um Sábado de Zé Pereira, Cícero, Mário, Ascenso e mais dois conhecidos saíram novamente em busca de manifestações do carnaval pernambucano, mas não encontraram divertimento. De volta ao hotel, parte do grupo apostou mais uma vez no “porre de éter”, enquanto Mário encontrou companhia para cheirar cocaína no quarto dele. Eventualmente, todos descobriram. “Daí em diante o pessoal, principalmente Ascenso, se tornaram intoleráveis”. 

9.png

O grupo saiu para dividir um prato de sarapatel no “Bacurau”, como chamavam o mercado da Madalena, inaugurado há apenas quatro anos. Aborrecido com a “falta de mulatas”, Mário de Andrade não se alimentou. Curiosamente, em carta enviada a Manuel Bandeira um ano antes, em abril de 1928, Mário reconhecia os rumores de que era homossexual: “Está claro que eu nunca falei a você sobre o que se fala de mim e não desminto. Mas em que podia ajuntar em grandeza ou melhoria pra nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada.”. Outros episódios da vida de Mário, no entanto, sugerem uma bissexualidade. Por volta das duas da manhã, Mário driblou o grupo e convocou novamente o parceiro de cocaína para, reservadamente, injetarem sedol, uma espécie de morfina. O plano não vingou, pois o porteiro do hotel ficou desconfiado e acabou atrapalhando o uso da droga. Mário de Andrade compensaria nos próximos dias, embalados a bastante cocaína e éter.11.jpgPassada a quarta-feira de cinzas, Mário visitou o engenho do pai de Cícero Dias, na Zona da Mata Sul, e cruzou os municípios de Jaboatão dos Guararapes (“estrada péssima”), Cabo de Santo Agostinho e Escada (“sem nenhum interesse excepcional”). Voltou ao Recife, faz um sobrevoo em pequeno avião (batismo aeronáutico no Campo de Ibura, onde hoje fica o Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes), e seguiu para Olinda, “cidade cheia de caráter, uma gostosura. A Sé, uma merda exterior. Convento de São Francisco, maravilha de azulejos e pinturas”. Conheceu igrejas como a Ordem Terceira de São Francisco, Madre de Deus (“Os pintores que andaram por aqui eram mesmo bons”). Na despedida, um almoço na casa de Cícero Dias com a presença do pintor Murillo la Greca (“depois, ateliê de Murilo ver bobagens dele”).

BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Rita de Cássia . As praias e os dias: história social das praias de Olinda e do Recife. 1ª. ed. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2007. 

BARROS, Manuel de Souza. A década 20 em Pernambuco: uma interpretação. Rio de Janeiro: Editora Acadêmica, 1972.

BARROS, Natália Conceição Silva. Arquivos da vida, arquivos da história: as experiências intelectuais de Joaquim Inojosa e os usos da memória do modernismo / Natália Conceição Silva Barros. – Recife: O autor, 2012. 

INOJOSA, Joaquim. Livro íntimo. Diário de um estudante (1920-1921). Volume 1º. Rio de Janeiro: Editora Férias. 1959.

_______________. Notícia Biobibliográfica de Joaquim Inojosa. Rio de Janeiro: Editora MeioDia, 1975.

PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos. São Paulo Editora Unesp, 2005.

REZENDE. Antonio Paulo. Desencantos modernos: histórias da cidade do Recife na década de vinte. Recife: Fundarpe, 1997.

TEIXEIRA, Flávio Weinstein. As Cidades Enquanto Palco da Modernidade: O Recife de Princípios do Século. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História. Recife: UFPE, 1994.


Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Fellipe Torres