Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Da luxúria à sarjeta: a história de uma cafetina


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Eny Cezarino dirigiu um império do sexo pago em Bauru, que chegou a empregar 30 garotas de programa A vida de luxúria da recifense Hilda Maia Valentim (1930-2014) ganhou status de lenda. Radicada em Minas Gerais, era figura conhecida dos anos 1950 e 1960 na zona boêmia da capital, onde era prostituta. A trajetória inspirou o livro Hilda Furacão, de 1991, escrito por Roberto Drummond, e a minissérie homônima, exibida na TV Globo em 1998. Ela morreu em 2015, aos 83 anos, em Buenos Aires. Agora, a mesma emissora ressuscita outra representante da “profissão mais antiga do mundo”, a paulistana Eny Cezarino. A produção televisiva de dez capítulos tem protagonista em comum com o livro Eny e o grande bordel brasileiro, do jornalista Lucius de Mello, lançado em 2002 e agora reeditado.

A famosa cafetina foi criada nos moldes tradicionais, mas abandonou tudo para se prostituir em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Paranaguá, no Paraná. A última parada foi Bauru, no interior paulista, onde começou como funcionária em um bordel e, sete anos depois, terminou dona do estabelecimento. O negócio expandiu, mudou o endereço para a entrada da cidade e passou a ter mais de 40 quartos, piscina, churrascaria, dança de salão em formato de violão, tudo em um terreno de 15 mil metros quadrados. Surgia um império do sexo pago, onde chegaram a trabalhar, simultaneamente, 30 garotas de programa. A fama nacional atraía frequentadores VIPs, como o poeta Vinícius de Moraes e o político João Goulart.

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“Eny era cosmopolita. Nasceu e começou ser prostituta na capital paulista, no Bom Retiro, e aprendeu tudo com as madames francesas. Foram boas professoras. Ela também sempre foi empreendedora e enxergou em Bauru tinha um espaço a ocupar. Com ajuda do político mais influente da região na época, se tornou atração turística da cidade”, comenta Lucius de Mello. A mulher havia deixado o passado humilde para se tornar rica, influente e respeitada.

Uma série de contratempos, no entanto, colocou o bordel e ela própria no rumo da decadência. Foi roubada por um contador (“pegou todo o dinheiro, fugiu para Paris e virou transformista”), enfrentou a morte de um grande amor e, por fim, viu o movimento do bordel ser prejudicado pela multiplicação dos motéis. Em referência à liberação das moças de família para as aventuras sexuais (àquela altura, munidas de anticoncepcionais), a cafetina teria afirmado: “Está na hora de eu fechar, porque nunca vi profissional perder para amador”.

Eny Cezarino morreu aos 69 anos, em 1987, pobre, doente e esquecida. A minissérie da Globo vai se chamar A dama da noite, ainda sem previsão de estreia. Entre as atrizes consideradas para o papel da protagonista, Alinne Moraes e Bárbara Paz. Além da biografia, Lucius de Mello lança o e-book Crônicas do grande bordel, com histórias deixadas de fora do livro.

três perguntas >> Lucius de Mello, jornalista e biógrafo da cafetina Eny Cezarino

Como surgiu o interesse pela vida de Eny Cezarino?

Foi puramente jornalístico. Nasci em cidade vizinha a Bauru e fui trabalhar lá em 1988, um ano depois da morte de Eny. Precisava ficar atento às personalidades da cidade, pois tudo o que elas faziam podia virar notícia. Pessoas vinham falar comigo sobre a cafetina com tristeza e sempre davam um brilho de celebridade para o nome dela. Passei dez anos ouvindo ex-amores, ex-funcionários, prostitutas, familiares dela.

Biografar uma cafetina causou algum mal estar? Como o livro foi recebido?

Perguntaram por que escrevi sobre uma prostituta (nas entrelinhas, alguém sem valor social). Ainda não existia Bruna Surfistinha, biografia de prostituta, a não ser A dama das camélias (de 1848, por Alexandre Dumas Filho). Quis falar de tolerância. Somente se biografavam histórias de mulheres e homens consagrados, como Olga, Chatô, Carmem Miranda. Somava ao nome do autor. Fui pela contramão, escolhi uma excluída. Sou biógrafo de prostituta. Isso foi uma quebra de paradigma. Fui pela história e pelo valor dessa mulher. Não julguei ou tive preconceitos, apenas fui levado pelas histórias saborosas que ouvia nas esquinas de Bauru.

Você aponta a discrição e o traquejo político como diferenciais de Eny. Quais outras características a tornaram notável?

O grande pulo do gato foi quando ela percebeu que havia criado um ambiente “familiar”. Nos anos 1960, o garoto que não podia transar com a namorada ficava com ela até meia-noite, com hormônios à flor da pele. Depois, no prostíbulo, realizava a fantasia com uma prostituta tão comportada, bem penteada, perfumada, bem vestida quanto a namorada. Tudo ensinado por Eny, que dava aulas às garotas nos cinemas, mostrando Sophia Loren e Elizabeth Taylor. Eram referências sobre como se vestir, segurar o cigarro, como sentar. Mas Eny também tinha o lado “bruxa”. Quando arranjava abortos para as prostitutas, mandava o médico esterilizar todas. Sentia-se dona dos corpos delas.


Fellipe Torres

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