Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Marianne Peretti: a dama dos vitrais

Livro narra vida e obra da única mulher na equipe de Oscar Niemeyer na construção da capital federal


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No subsolo de uma escola técnica de Paris, França, onde funciona refeitório para os alunos, está instalado desde 1972 um painel colorido de 16 metros de largura, feito de resina, ferro e placas de vidro. Desde a colocação da peça ali, 27 mil alunos comeram no local imaginando a origem ou importância daquilo. A administração do centro não tinha informações sobre o vitral e previa destrui-lo como parte de uma reforma. Felizmente, a demolição não ocorreu antes do período de cinco anos de estudo para a criação do livro Marianne Peretti – A ousadia da invenção, sobre a renomada artista franco-brasileira. Radicada em Olinda, hoje aos 92 anos, é a responsável não só pelo painel na França, mas por incontáveis obras como os vitrais da Catedral de Brasília, do Panteão e do Memorial JK.

A obra traça panorama sobre vida e obra da única mulher na equipe de Oscar Niemeyer na construção da capital federal. A artista plástica participa de bate-papo com autores do livro. A exaltação à criadora dos “vitrais dos trópicos” inclui exposição itinerante - com passagem pelo Recife em 2013 - e um documentário em fase de finalização.

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Para a idealizadora e coordenadora-geral do projeto, Tactiana Braga, a iniciativa corrige uma falha histórica acerca da importância de Marianne para a arte moderna e universal. “São produções de escala, de metros quadrados monumentais, que dificilmente caberiam nas nossas escolas tradicionais de pintura e escultura. Ela esteve em meio a engenheiros e políticos, um mundo de homens, para impor a sua arte delicada e sensual com ousadia, atrevimento”, enaltece.

Além de análises de especialistas em arte e patrimônio, depoimentos de Peretti conduzem o leitor da publicação pela história, às vezes pelos bastidores, das mais de seis décadas de trabalho. Na introdução, o livro reproduz documento escrito por Niemeyer em 1991, com depoimento sobre ela. “Vou dizer como me emocionava vê-la durante meses debruçada a desenhar os vitrais da Catedral de Brasília. Eram centenas de folhas de papel vegetal que, coladas, representavam um gomo da Catedral. Um trabalho que diria corresponder aos velhos tempos do Renascimento quando, apoiados pelos príncipes daquela época, os pintores e escultores executavam obras extraordinárias. Não acredito que naqueles velhos tempos um vitral de tal vulto tenha sido realizado”.

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Marianne recorda o primeiro contato com Niemeyer. Embora já morasse no Brasil, aconteceu em Paris, quando visitava a mãe. Ao assistir a entrevista com o arquiteto pela tevê, ficou encantada com o prédio da Editora Mondadori, em Milão, mostrado no programa. Sentiu um impulso de ver de perto. “Tinha tanta admiração, que peguei um trem ou avião e fui a Milão para ver a obra. Fiquei olhando e fui embora no dia seguinte. Mas valeu a pena. Quando contei a Oscar, muito depois, ele adorou”, recorda. Na volta ao Brasil, Marianne foi ao Rio procurar Niemeyer e, assim, foi plantada a semente da parceria criativa entre a artista e o arquiteto.


Fellipe Torres

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