Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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O legado esquecido de Solano Trindade

Obra do poeta e cineasta padece no esquecimento quase 50 anos após a morte do artista. Estudiosos veem necessidade de reparar descaso


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Vinte anos após a abolição da escravatura, em 1908, nascia o recifense Francisco Solano Trindade, filho de sapateiro mulato e de doméstica cafuza. A despeito do sangue branco e indígena nas veias, não houve confusão sobre a raça do menino. Cresceu ouvindo a zombaria: “Oh meu Deus, matai o Solano. Este negro feio, de beiço grande”. Era pobre e vivia em uma época difícil para os seus, mas foi capaz de contrariar o determinismo social e econômico para se revelar um ícone da cultura brasileira. Autodidata, leitor compulsivo, rapidamente tornou-se respeitado por contemporâneos como Carlos Drummond de Andrade. Foi cineasta, pintor, ator de cinema, homem de teatro, militante e, sobretudo, poeta. Hoje, quase 50 anos depois de sua morte, a multiplicidade padece no esquecimento.

A obra do pernambucano dificilmente é encontrada em bibliotecas ou livrarias. Em dois dos principais acervos universitários do Recife, apenas cinco itens fazem referência aos trabalhos do poeta. Um dos poucos sinais de sua existência é a estátua erguida no Pátio de São Pedro, Bairro de São José. A falta de informações foi percebida de perto pelo cineasta recifense Alessandro Guedes, autor do documentário Solano Trindade - 100 anos (2008). “Quem pesquisar no meio acadêmico vai encontrar pouquíssima coisa. Apenas dados fragmentados. Os livros não ganharam novas edições”. Para o doutor em letras pela UFPE Élio Ferreira, é preciso fazer uma campanha para ressaltar o poeta. “Solano Trindade foi o grande defensor da cultura negra”.

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O fio condutor das facetas artísticas foi a própria negritude, tema recorrente. Por meio da arte, Solano denunciava discriminações e o racismo. “Foi um novo ponto de vista, de um negro compartilhando as experiências e a identidade da raça, que fez surgir a ‘literatura negra’”, diz a pesquisadora Maria Robevânia Virgens.

As poesias de Solano estão repletas de referências aos ritmos, costumes, religiões africanas, além de mitos e lendas do povo negro. Ele foi pioneiro ao “ressignificar o ranger dos grilhões, gemidos, murmúrios e silêncios da senzala”, acrescenta a doutora em teoria literária Silvana Maria Pantoja. Solano é o equivalente brasileiro do poeta norte-americano Langston Hughes, segundo o professor Élio Ferreira. “São escritores centrais, importantes para a poesia da negritude. Mas enquanto Hughes é muito lembrado e respeitado, por aqui Solano Trindade é esquecido”.


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