Fellipe Torres

Jornalista, produtor editorial e fotógrafo. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Quadrinistas brasileiros emprestam talento para Marvel e DC Comics

Ilustradores pernambucanos desenham para as gigantes das HQs mundiais


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A última década foi de prosperidade para o mercado brasileiro de histórias em quadrinhos, com a multiplicação de revistas, adaptações literárias, obras traduzidas e até o surgimento de editoras especializadas no nicho. Ainda não foi superada, contudo, uma série de dificuldades para quem atua nessa área e busca espaço para publicar trabalhos autorais. De tanto conviver com a falta de oportunidades, alguns migraram dos fanzines de HQs para a publicação independente via crowdfunding (financiamento coletivo). Outros, já há algum tempo, estão focados em exportar o próprio talento.

Direto de um quarto no bairro do Janga, em Paulista, o quadrinista Thony Silas coloca lápis, tintas e pincéis a serviço de personagens conhecidos mundialmente. Não por hobby. Ele de fato tem contratantes internacionais do porte da Marvel e DC Comics à espera de revistas inteiras protagonizadas por heróis como Batman e Homem-Aranha. Há dez anos dedicado aos mercados norte-americano e europeu, ele começou a carreira voltado a ilustrações infantis e somente aos poucos conseguiu migrar para os desenhos “mais acadêmicos e complexos”.

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“Por muito tempo resisti a entrar para o mercado americano. Cheguei a recusar convites porque acreditava que a renda da pessoa aumenta muito, mas crescem também os gastos, e você fica preso nessa história”, revela o artista gráfico. A mudança de ideia veio com o casamento e o nascimento da filha. Para turbinar o orçamento, procurou os gringos e foi bem aceito. Passou a trabalhar com prazos curtos e alto nível de exigência. “É essencial ser muito rápido e manter a qualidade, algo cobrado pelas editoras e pelos fãs”.

Figura conhecida nos sebos do Centro do Recife na década de 1990, Milton Estevam foi outro a ser aceito entre as grandes editoras. De casa, no bairro da Macaxeira, Zona Norte, ele faz os primeiros rabiscos das personagens Queen Sonja e Lady Rawhide (heroína do universo do Zorro). Para isso, recebe um roteiro traduzido, com referências a histórias anteriores. Depois do lápis, vem a arte-final com o nanquim e a colorização.

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“A demanda norte-americana por brasileiros começou motivada pela mão-de-obra barata. Eles nos viam como talentosos, esforçados, rápidos... e ainda cobrávamos menos. Hoje temos as mesmas condições de trabalho dos gringos”, comenta Milton, que além de quadrinista é agenciador em parceria com o desenhista e empresário cearense Ed Benes, conhecido por treinar desenhistas e inseri-los no mercado. “Nos últimos anos, mais de 15 artistas passaram por aqui e se tornaram profissionais. É contínuo. Nos EUA, há vários brasileiros famosos, reconhecidos. Isso melhora nossa receptividade. A Marvel e a DC Comics são as que mais nos requisitam”, diz Ed Benes.

Para o historiador mineiro Wellington Srbek, pesquisador e autor de quadrinhos, nos anos 1990 os brasileiros eram vistos como habilidosos para copiar o estilo das HQs estadunidenses. Com o tempo, no entanto, passaram a se destacar e conseguir negociar a produção a preços melhores. “O mercado de quadrinhos está bom, mas ainda difícil. As editoras não estão em uma boa fase. Com a crise econômica, temos um mercado retraído”.

Passo a passo

Os desenhistas brasileiros recebem, via internet, o roteiro da HQ traduzido para o português, além de elementos que sirvam de referências para o trabalho e menções a histórias anteriores do mesmo personagem

Os primeiros esboços são feitos, a lápis, escaneados e enviados pela web para aprovação da editora norte-americana

Se o material for aprovado, o quadrinista começa de fato a produção da revista. Os prazos são curtos e é exigido um alto padrão de qualidade para os desenhos

Depois do lápis, vem a arte final com nanquim, que engrossa os traços. Essa etapa pode ser feita pelo mesmo desenhista ou por outro artista gráfico

A colorização vem por último. Várias técnicas podem ser utilizadas, desde a aquarela manual até o método digital

A revista finalmente é enviada para aprovação final, colocação dos textos, numeração das páginas, revisão e impressão.

De Pernambuco para o mundo

Thony Silas Começou a carreira como auxiliar de ilustrador em 2000. Entre as primeiras publicações internacionais, Contract, The Cheng Brothers, Rage: Bane of demons. Em 2012, pela Marvel Comics, ilustrou Amazing Spider-Man: Ends of the Earth, seis edições da revista Venom e três Daredevil: Dark nights. Em 2014, pela DC Domics, Batman beyond 2.0.

Milton Estevam O início da carreira foi com histórias em quadrinhos regionais, em parceria com outros desenhistas do estado. Após treinamento técnico no estúdio Ed Benes, no Ceará, passou a ilustrar para editoras do exterior. Inicialmente, trabalhou como assistente, desenhando Super-Homem. Depois, fez várias revistas das personagens Queen Sonja e Lady Rawhide.


Fellipe Torres

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