Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Não haveria Seu Jorge sem Chico Science

Cantor revela como se inspirou no líder do manguebeat para dar início à carreira e buscar o próprio regionalismo


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“Véio, você tem que conhecer e acreditar no seu regionalismo”. Com a voz esganiçada e um falso sotaque nordestino, o cantor Seu Jorge resgata da memória as palavras ditas por Chico Science durante entrevista, em meados da década de 1990. Entre mordidas em um sanduíche de charque e comentários sobre o movimento manguebeat, o pernambucano influenciaria na criação do grupo Farofa Carioca, marco inicial da carreira do compositor fluminense. O episódio foi lembrado em conversa com a reportagem no bar Karavelles, administrado por ele no bairro dos Jardins, na capital paulista.

Após refletir sobre qual era o próprio “regionalismo”, Seu Jorge encontrou resposta nos sambas de Bezerra da Silva e Martinho da Vila. Desde então, passou a se dedicar com vigor ao gênero e apostar em canções como espécie de crônica social.

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Bem-sucedido na música, no cinema e nos negócios, o sambista ainda hoje faz questão de prestar reverências ao ícone do mangue. “Agradeço muito a Chico Science. Era um homem sério, um líder. Se estivesse vivo, a música dele já não estaria mais aqui. Já não nos pertenceria, porque ele era plural, falava para todo o mundo”. A admiração de agora, contudo, não existia no primeiro contato de Seu Jorge com a banda Nação Zumbi, quando assistiu a um trecho do clipe Maracatu atômico, veiculado em propaganda televisiva. “Achei horrível, um bando de caras imitando o Red Hot Chilli Pepers”, confessa. A banda norte-americana havia lançado, anos antes, o clipe de Give it away, esteticamente semelhante ao do grupo pernambucano.

A opinião mudou após os primeiros acordes de um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro. “Lembro como se fosse há duas horas. Eu estava no meio da plateia e ouvi aquele negócio: ‘Eu vim com a Nação Z…. BUM, BUM, BUM!’. Fui parar atrás da mesa de som. Ali, percebi como eu era idiota. Eles tinham inventado a melhor coisa que podia ser inventada”. Vários anos depois, Seu Jorge se tornaria parceiro musical da banda (a essa altura sem Chico Science), por meio do projeto Almaz. “Com esse pessoal, a música nordestina está muito bem representada”.

entrevista >> Seu Jorge

Desejos de parceria

“Adoraria poder ter nível para fazer um som com Hermeto Pascoal, um dos artistas brasileiros que admiro muito. Ele é uma das coisas mais interessantes de hoje. No cinema, fiquei muito a fim de fazer o Jimi Hendrix, me achava parecido, o corpo e tudo. Mas fiquei feliz que foi o André 3000. Ele é canhoto, ‘negroide’, canta bem. Também adoraria fazer um filme de ficção científica, trabalhar com o Tarantino…”

Vida em Los Angeles

“Cidade de Deus foi um filme muito determinante em minha vida. Ele me tornou um artista reconhecido e respeitado, e isso me credenciou a morar nos Estados Unidos. As possibilidades lá são grandes. Mas uma das coisas que mais me atraiu foi a educação oferecida. Meus filhos se aclimataram bastante, e eu também gosto”.


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