Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Cuidado, companheiro! A vida é pra valer

Estar na vida plenamente é assumir compromisso com o encantamento a todo custo. Encantar e ser encantado, renovar e inovar quando necessário, enaltecendo o autêntico, o espontâneo, o inesperado.


cm_carnavalguerra_08.jpg No momento em que a realidade se esvai e a fantasia toma conta, muito pouco importa. A inebriação é fugaz, mas tem efeitos a longo prazo no espírito. O faz-de-conta é matéria-prima da evolução humana; é de onde surgem as narrativas, as ideologias, os propósitos. São poucas coisas que agradam os indivíduos há mais de milênio. Essas permanecerão indefinidamente, com poucos retoques para não estragar a experiência.

A ânsia pela conquista cega e faz tropeçar. É preciso ter sabedoria e experiência de vida para alinhar um pé atrás do outro, criar um espetáculo atraente e aguardar o público sedento por magia e ludicidade. Viver a vida como artista de circo pode ser uma das piores decisões a ser tomadas por um mancebo. Mas é das péssimas decisões que surgem os projetos mais grandiosos e inimagináveis.

Talvez não seja para tanto, isso de cores, fitas e picadeiros, mas na trajetória de qualquer cidadão que não seja excessivamente medíocre há de se desenvolverem as soft skills de mágicos, palhaços e trapezistas. Do contrário, a existência se torna colagem de momentos esquecíveis, cujas experiências enfadam e embrutecem.

Bem ou mal, costumam ser lembrados os fôlegos que faltam, o suor das mãos distônicas, o tremor na voz diante do incrível. Em contrapartida, são esquecidos os protocolos, as repetições, as obviedades. Estar na vida plenamente é assumir compromisso com o encantamento a todo custo. Encantar e ser encantado, renovar e inovar quando necessário, enaltecendo o autêntico, o espontâneo, o inesperado.

Todas essas escolhas podem dar muito errado, como frequentemente dão, mas ainda é mais proveitoso do que passar em branco, ser um amontoado de números de matrícula e uma frase feita à moda da Hallmark gravada em lápide de carrara. Quem nasce José Maria pode se elevar a José Régio, desflorar florestas virgens e desenhar os próprios pés na areia inexplorada. O mais que se faz não vale nada!


Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
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