Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
[email protected]

Cigano não é fantasia: para além do estereótipo

Etnias ciganas chegaram ao Brasil em uma perspectiva excludente de cidadania. Só muito recentemente cresceu um movimento de etnias ciganas com associações buscando espaço de participação no estado.

PFR_0945.jpg

Produtos culturais dos séculos XIX e XX, segundo a  a historiadora Renata Melo, contribuíram com a construção de um estereótipo das étnicas ciganas que não correspondem à verdade, com lendas relacionadas, por exemplo, ao roubo de crianças. “O preconceito é tão grande que é pouco falado de ciganos que tiveram destaque na nossa sociedade, que são economicamente bem-sucedidos, mas o que se sobressai é a representação negativa”.

Em episódio do programa Habitar/Habitat, do Sesc TV, depoimentos de ciganos da etnia Calon assentados no Distrito Federal dão conta da discriminação existente com esses povos no Brasil e no mundo. Sobre essa inviabilização, a historiadora Fernanda Martins comenta que as etnias ciganas chegaram ao Brasil em uma perspectiva excludente de cidadania. “Só muito recentemente cresceu um movimento de etnias ciganas com associações buscando espaço de participação no estado. Um marco é o Dia Nacional do Cigano, estabelecido em 2016 pelo governo, o que possibilitou políticas públicas. A partir da luta eles vão ganhando espaços. [...] (As ciganas) ouvem todos os dias que não deveriam existir. O racismo e o preconceito estão incrustrados na sociedade. Os agentes públicos precisam de capacitação para lidar com a diferença” (HABITAR/HABITAT, 2018).

A realidade de preconceitos e estereotipação não é uma particularidade do Brasil. Por todo o mundo há relatos de discriminação com etnias ciganas. No programa Por dentro das prisões mais severas do mundo, disponível no catálogo da plataforma Netflix, o jornalista britânico Raphael Rowe visitou a penitenciária Craiova, na Romênia, país onde a cultura cigana ainda é muito forte, e concluiu que 60% dos encarcerados são ciganos. Isso a despeito desse povo corresponder a apenas 3% da população nacional (POR DENTRO DAS PRISÕES MAIS SEVERAS DO MUNDO, 2018).DtfvMKcWwAE46GJ.jpg

Segundo o levantamento de Rowe, até o século XIX os ciganos da Romênia eram escravizados. Após um difícil histórico de perseguições, boa parte dos integrantes dessa etnia decidiu viver à parte da sociedade romena, o que somente intensifica a exclusão social. Os desafios enfrentados por esses povos decorrem da falta de acesso à educação, do hábito de contrair matrimônio ainda na infância, e do machismo e patriarcalismo extremo comum a essa cultura, que glorifica os indivíduos fora da lei. Faz parte da cultura cigana, por exemplo, a prática de vendetas, ou seja, atos de vingança extremos, que vitimam centenas de famílias. Participar desses rituais violentos é uma questão de afirmação perante a própria comunidade (idem, 2018).

 Ao comentar sobre a construção da identidade dos povos ciganos, Silva e Conceição (2018) destacam a necessidade de se investir em uma educação inclusiva, por meio de um currículo intercultural, que considere as questões multiculturais. Citando Candau (2010), os autores frisam a importância de promover o reconhecimento das identidades culturais; de desvelar o daltonismo cultural presente no cotidiano escolar (fazer com que se enxergue a diversidade cultural da sociedade); de buscar a alteridade e de conceber a prática pedagógica como processo de negociação cultural (afastar o conceito de conhecimento escolar como uma seleção de fatos e conceitos inquestionáveis e imutáveis).

Para Candau (2010), é possível promover uma educação intercultural crítica e emancipatória a partir da penetração no universo de preconceitos existente na sociedade; da articulação entre igualdade e diferença; no resgate dos processos de construção de nossas identidades culturais; na promoção de experiências de interação sistemática com os “outros”.

REFERÊNCIAS

CANDAU, V. M. (org.). Sociedade educação e culturas(S): questões e propostas. 3. Ed., Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2010.

SILVA, Maria Marlene Rodrigues da; CONCEIÇÃO, Alexandre José da Silva. Sociolinguística: por um currículo intercultural e inclusivo para povos ciganos. Revista Comunicaciones en Humanidades. n. n. 6, 2018, p. 01-17.

HABITAR/HABITAT: CIGANOS. Sesc TV, 14 de março de 2018. Disponível em: https://youtu.be/VtP1Zr8Gw

POR DENTRO DAS PRISÕES MAIS SEVERAS DO MUNDO. Romênia: a prisão de ciganos. Netflix. 2018.


Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Fellipe Torres