Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Como superar o racismo e construir uma cultura de paz

O ensino da história da África e do negro na sociedade e na escola brasileira deve partir da desconstrução de uma história africana, contada no âmbito da educação escolar, que é distorcida, falsificada e preconceituosa.

ForaBolsonao-Racismo-Facismo-VidasNegrasImportam-Manifestaçao-Protesto-Esplanada-25-868x644.jpgEm um mundo marcado por migrações forçadas e/ou motivadas pela necessidade, multiplicam-se os casos de racismo, xenofobia e intolerância religiosa, que não raro ocasionam desigualdades e violação dos direitos humanos. Por conta disso, aponta o antropólogo Kabengele Munanga (2015), é mister a “implementação de políticas que visem o respeito e ao reconhecimento da diferença, centradas na formação de uma nova cidadania por meio de uma pedagogia multicultural” (MUNANGA, 2015). Entre os ganhos possíveis com essas políticas, estão a construção de uma cultura de paz, à proteção de culturas minoradas.

Munanga (2015) defende, por exemplo, o quanto a defesa da diversidade e da diferença é uma questão importante para construir uma cidadania, nas palavras dele, duradoura e verdadeira, “sem abrir mão da defesa de nossas semelhanças e nossa humanidade genérica”. Seria necessário, portanto, investir em “uma educação e uma socialização que enfatizem a coexistência ou a convivência igualitária das diferenças e das identidades particulares”. (MUNANGA, 2015, p.21).

O ensino da história da África e do negro na sociedade e na escola brasileira, para Kabengele Munanga (2015), deve partir da desconstrução de uma história africana, contada no âmbito da educação escolar, que é distorcida, falsificada e preconceituosa. A história verdadeira teria sido negada pelos ocidentais por questões ideológicas e políticas que foram acabaram alienando a personalidade coletiva do africano. O ponto de partida seria, então, reconhecer que a África tem história, de modo a se discutir a história “da diáspora negra que na historiografia dos países beneficiados pelo tráfico negreiro foi também ora negada, ora distorcida, ora falsificada” (MUNANGA, 2015, p.25).

A história de um povo é o ponto de partida que ajuda a lastrear a construção de sua identidade, assim como sua economia, seus comportamentos coletivos, sua língua etc. Justamente por isso que, segundo Munanga (2015), as ideologias de dominação tentaram falsificar e destruir as histórias dos povos que dominaram. “A história da África na historiografia colonial foi negada e quando foi contada o foi do ponto de vista do colonizador” (MUNANGA, 2015, p.31).

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Nesse contexto, pode-se dizer que a Nação Xambá - primeiro quilombo urbano do Norte e Nordeste, localizado em Olinda, Pernambuco - é um símbolo da resistência e dos costumes de matrizes africanas no Brasil, devido à maneira como as culturas e a identidade às quais está ligada é transmitida a cada nova geração. O terreiro da Nação Xambá tem, inclusive, sido uma referência para algumas instituições de ensino que buscam desconstruir uma visão eurocêntrica da história, cravejada de preconceitos e distorções, e, por conseguinte, fazer valer a Lei 10.639, cuja redação prevê a abordagens pedagógicas da história afro-brasileira.

Na avaliação de Hostensky (2020), a formação do quilombo do Portão do Gelo – Nação Xambá é o resultado de uma série de articulações e deslocamentos empreendidos por seus próprios sujeitos, para a ativação do seu patrimônio-territorial. Esses movimentos  “envolvem estratégias de construção identitária e de preservação, valorização e difusão da cultura Afro e Xambáiv”. HOSTENSKY (2020).

Ao analisar o caso da Nação Xambá e de sua consolidação enquanto espaço de resistência da matriz africana em Pernambuco, Costa (2007) menciona o sociólogo Bauman (2005), segundo quem a identidade é construída a partir do momento em que é negada, ou seja, as pessoas só “afirmam”, “forjam” suas identidades quando outrem a nega, sendo esta construção uma invenção e não uma descoberta (BAUMAN, 2005).

Portanto, para Costa (2007), a Nação Xambá se insurge para reivindicar uma identidade africana dentro de uma perspectiva da história sociocultural do Brasil. “Isto não significa, no entanto, anular as construções de possíveis continuidades com o Continente africano, mas enfatizar os processos culturais, as continuidades e as descontinuidades que no contexto colonial foram reestruturadas em algumas de suas práticas rituais” (COSTA, 2007, p. 7).

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

COSTA, Valéria Gomes. Nação Xambá: memórias e configurações  de uma identidade “africanizada”. 2007. XXIV Simpósio Nacional de História.

MUNANGA, Kabengele. Por que ensinar a história da África e do negro no Brasil de hoje? Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 62, p. 20–31, dez. 2015.

HOSTENSKY, I. L. (2020). Patrimônio-territorial de quilombos no Brasil: caso da Nação Xambá do Portão do Gelo – PE. PatryTer – Revista Latinoamericana e Caribenha de Geografia e Humanidades, 3 (6), 185-201. DOI: https://doi.org/10.26512/patryter.v3i6.26992

TERREIRO DE XAMBÁ. Canal Saúde: construindo a cidadania, 31/08/2015. Disponível em: http://intranet.canalsaude.fiocruz.br/streaming/Unidiversidade_209. Acesso em 10/10/2021.


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