Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
[email protected]

Depravação, escatologia e violência nos contos de Rubem Fonseca

Em obras como Feliz Ano Novo e Secreções, excreções e desatinos, fica evidente a engenhosidade do escritor mineiro na construção dos textos, que se valem de escatologias, atos de violência e depravações como recursos linguísticos poderosos, que só confirmam o refinamento literário do autor.

RUBEM-FONSECA-45.jpg.jpg

Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925, o escritor José Rubem Fonseca entrou para o cânone literário brasileiro com uma obra pujante e vigorosa, que, à semelhança do que pretendia o dramaturgo Ariano Suassuna com seu Movimento Armorial, associa temáticas e formatos populares a uma certa erudição. Ao mesmo tempo em que investe em novelas policiais e narrativas protagonizadas por prostitutas e ladrões, aposta em diálogos com autores como Gustave Flaubert, Edgard Allan Poe e Conan Doyle.

Tal produção lhe rendeu, em 2003, aquele que é considerada a mais prestigiada premiação para escritores em língua portuguesa, o Prêmio Camões. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais, seguiu carreira na polícia do Rio de Janeiro, cuja rotina lhe iria reverberar muitos anos depois, em seus contos e romances. Também cursou Administração na New York University. Embora seus contos sejam uma espécie de marca registrada, Rubem Fonseca tem incursões relevantes em romances cuja ficção é amalgamada a personagens e fatos históricos, como é o caso de O Selvagem da Ópera, sobre o compositor Carlos Gomes, e Agosto, a respeito de conspirações que envolvem o suicídio de Getúlio Vargas (VIDAL, 2000).

Este artigo se debruça especificamente sobre a suposta “vulgaridade” de boa parte dos contos escritos por Rubem Fonseca, em que são recorrentes cenas gráficas, popularescas, de natureza escatológica e/ou violenta. Tal investigação se deu a partir dos livros de contos Feliz Ano Novo e Secreções, excreções e desatinos, que costumeiramente são lembrados por tais características. O primeiro, vale ressaltar, chegou a ser censurado durante o regime militar, em que pese Rubem Fonseca ter sido um apoiados do golpe de 1964.

 

Boa parte da obra do escritor mineiro Rubem Fonseca (1925-2020) é construída a partir de pilares como a surpresa, o choque, a repulsa, a falta de pudor, a ironia, o escândalo, o estranhamento, a ojeriza, o riso. Afinal, as mais de 30 obras lançadas passeiam entre temas como o amor depravado, a miséria extrema, a morte repentina, a opressão e a banalização da violência, de maneira que se constituam em críticas ao capitalismo selvagem, à hipocrisia das instituições, à lógica perversa das sociedades modernas, entre outras mazelas contemporâneas, sobretudo referentes às grandes metrópoles (FIGUEIREDO, 1996). São recorrentes os palavrões, as marcas de oralidade, as descrições escatológicas, as narrações de estupros e homicídios. Dessa forma, Rubem Fonseca ataca o leitor na intenção de gerar desconforto e, possivelmente, reflexões, a partir das ações de personagens tidos como “marginais”.

Essas figuras aparecem imersas num mundo sem Deus, sem ética, sem moral. São figuras degradantes e irreverentes que marcam essa narrativa que, com apurada técnica cinematográfica, reinventa uma literatura capaz de conduzir  o leitor a uma desmistificação da violência, que reina operante. Nesse entorno, a presença do outro é rechaçada, e o individualismo e a solidão apresentam-se como rota de fuga. (SILVA, 2017, p.469)

 

Por esses e outros motivos, Alfredo Bosi classifica o autor mineiro como “brutalista” (LAFETÁ, 2000). Observando-se os livros de contos de Rubem Fonseca, destaca-se a obra Feliz Ano Novo, em que a violência gratuita salta aos olhos. Os contos reunidos espelham, de alguma forma, uma realidade que assola algumas capitais brasileiras, em especial o Rio de Janeiro, que serve de palco para muitas das narrativas do escritor mineiro.

Nesse horizonte, a obra do escritor Rubem Fonseca é uma boa fonte para análises do tema. Dono de uma prosa clara e direta, sem muitas descrições, o autor de Feliz Ano Novo, entre outros livros, expõe a violência das grandes cidades de maneira cortante há cerca de quarenta anos, exatamente à época em que ela, a violência, começava a impressionar pelo aumento de sua agressividade. A referida obra, publicada em 1975 e censurada um ano depois pela ditadura, possui contos que chocaram pela crueza; sua censura não foi gerada apenas pelos palavrões utilizados nos textos, mas pela exposição gritante da realidade. A meu ver, entretanto, o que está em jogo ali não é apenas a denúncia social grave, mas a tentativa de evidenciar o problema através da comicidade, do ridículo (FRIZON, 2005, p.2).

 

Por ser supostamente subversivo, Feliz ano novo chegou a ser censurado no Brasil pelo regime militar, em 1975, na mesma época em que era publicado livremente em países como França e Espanha. No conto que empresta título à obra, três homens famintos decidem invadir uma festa de ano novo da alta sociedade carioca. Com o desenrolar do plano, acabam assassinando três pessoas e estuprando uma menina. Após o sucesso do ataque, o trio comemora a passagem do ano novo.

Como é seu nome?

Maurício, ele disse.

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor? Ele se levantou. Desamarrei os braços dele. Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda-suja no papo.

Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina 12 e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?

Ele se encostou na parede.

Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone  (FONSECA, 1975)

 

xRubem-Fonseca.jpg.pagespeed.ic.V4Awaibbe5.jpg

Outro viés importante da obra fonsequiana é a recorrência de cenas escatológicas, notadas particularmente no livro de contos Secreções, excreções e desatinos, que reúne histórias curtas escritas entre 1992 e 2006. Os textos evidenciam questões biológicas e anatômicas do homem e sugerem, grosso modo, que as secreções e as excreções norteiam a existência humana. São contos sobre tumores, urina, fezes, esperma,  saliva, menstruação e outros elementos que, de alguma forma, relembram a condição animal do leitor. Em Cropomancia, por exemplo, o protagonista é obcecado por analisar os próprios dejetos.

Não obstante minha reação inicial de repugnância, eu observava minhas fezes diariamente. Notei que o formato, a quantidade, a cor e o odor eram variáveis. Certa noite, tentei lembrar as várias formas que minhas fezes adquiriam depois de expelidas, mas não tive sucesso. Levantei, fui ao escritório, mas não consegui fazer desenhos precisos, a estrutura das fezes costuma ser fragmentária e multifacetada. Adquirem seu aspecto quando, devido a contrações rítmicas involuntárias dos músculos dos intestinos, o bolo alimentar passa do intestino delgado para o intestino grosso. Vários outros fatores também influem, como o tipo de alimento ingerido.

No dia seguinte comprei uma Polaroid. Com ela, fotografei diariamente as minhas fezes, usando um filme colorido. No fim de um mês, possuía um arquivo de sessenta e duas fotos — meus intestinos funcionam no mínimo duas vezes por dia —, que foram colocadas num álbum. Além das fotografias de meus bolos fecais, passei a acrescentar informações sobre coloração. As cores das fotos nunca são precisas. As entradas eram diárias (FONSECA, 2001).

 

Este artigo tomou como amostra do conjunto da obra de Rubem Fonseca os livros Feliz Ano Novo e Secreções, excreções e desatinos, cujos contos são representativos no que tange à presença de cenas de violência e descrições escatológicas, além de depravações sexuais. Foram analisadas a linguagem empregada nos textos, a presença da oralidade e de palavrões, dos recursos utilizados pelo autor para interagir com o leitor, sempre com lastro na bibliografia existente a respeito da obra fonsequiana.

A partir da análise dos contos reunidos em Feliz Ano Novo e Secreções, excreções e desatinos, percebe-se a engenhosidade do escritor mineiro Rubem Fonseca na construção dos textos, que se valem de escatologias, atos de violência e depravações como recursos linguísticos poderosos, que só confirmam o refinamento literário do autor. Por trás da aparente baixeza das narrativas, há propostas sofisticadas de reflexão a respeito de mazelas sociais, fenômenos socioeconômicos e interpessoais. Em trabalhos futuros, pode ser interessante ampliar o escopo da pesquisa para os romances de Rubem Fonseca, que sabidamente empregam outro tom, outra linguagem, e têm propostas bastante distintas dos contos “sujos” do autor.

 

REFERÊNCIAS

BOSI, A. (2006). Situações e formas do conto brasileiro contemporâneo. In

O conto brasileiro  contemporâneo. São Paulo: Cultrix

 

FIGUEIREDO, Vera Follain de. A cidade e a geografia do crime na ficção de Rubem Fonseca. Revista Literatura e Sociedade. v.1. n.1. p.88-93, São Paulo, 1996

 

FONSECA, Rubem. Feliz Ano Novo. Rio de Janeiro: Arte Nova, 1975.

 

FONSECA, Rubem. Secreções, excreções e desatinos, Companhia das Letras, 2001.

 

FRIZON, Marcelo. Rubem Fonseca: violência e comicidade em Feliz Ano Novo. Nau literatura, 2005.

 

LAFETÁ, J. L. Rubem Fonseca, do lirismo à violência. Literatura e Sociedade, [S. l.], v. 5, n. 5, p. 120-134, 2000.

 

SILVA, Emília Rafaelly Soares. MENDES, Algemira de Macedo. A plasticidade da contística brutalista de Rubem Fonseca: a estética da violência e da solidão na pós-modernidade. In O conto: o cânone e as margens. 2017.

 

VIDAL, Ariovaldo José. Roteiro para um narrador: uma leitura dos contos de Rubem Fonseca. Ateliê Editorial, 2000.

 


Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Fellipe Torres