Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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O poeta exibicionista e obscuro que fundou a literatura portuguesa

No contexto da Geração de Coimbra, em 1870, o escritor Antero de Quental teve papel destacado, sendo um nome forte do realismo português, cujas discussões filosóficas davam contas de temas de grande relevância social para o período.

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“Antes de Antero de Quental praticamente não houve literatura portuguesa. Antes disso, o que existia era preparação para uma futura literatura ou uma literatura estrangeira escrita em língua portuguesa” (PESSOA, 1915). A máxima do poeta Fernando Pessoa ajuda a dimensionar a importância do escritor e filósofo Antero de Quintal para a gênese da literatura portuguesa, de maneira geral, e para a chamada Geração de 70 (ou Geração de Coimbra), de modo específico.

No contexto dessa geração de intelectuais, Quental teve papel destacado, sendo um nome forte do realismo português, cujas discussões filosóficas davam contas de temas de grande relevância social para o período. Nascido nos Açores, na Ilha de São Miguel, estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde se tornou líder da chamada Sociedade do Raio, cuja ambição era repudiar o romantismo e renovar a literatura daquele país.

Deu-se  o  nome  de “Questão  Coimbrã” às  querelas  observadas  entre  intelectuais portugueses a partir de uma série de poemas, artigos em periódicos e cartas abertas publicadas nos  anos  de  1865  e  1866,  que  acabaram  por  expor  divergências  nas  formas  de  se  pensar  a literatura portuguesa e, de forma mais ampla, a situação de Portugal ao final do século XIX. O adjetivo  que  a  denominou  está  diretamente  ligado  à  Universidade  de  Coimbra,  local  de formação dos principais envolvidos e da publicação de alguns de seus escritos. (FARIAS BRITO, 2015)

 

Os primeiros livros de Quental a serem publicados foram Visão dos Tempos e Tempestades sonoras, ambos em 1864. Mas foi em Odes Modernas (1865) que o poeta deixou transparecer sua total desvinculação ao romantismo, ao sentimentalismo e à poesia tradicional. Ficaram claras, a partir de então, o quanto estariam presentes na sua obra ideias de justiça e liberdade, em vez da recorrente religiosidade lírica de outrora (FERREIRA, 1988).

Este  livro  é  uma  tentativa,  em  muitos  pontos  imperfeita,  seguramente,  mas sempre  sincera,  para  dar  à  poesia  contemporânea  a  cor  moral,  a  feição espiritual da sociedade moderna, fazendo-a assim corresponder à alta missão que  foi  sempre  a  da  Poesia  em  todos  os  tempos  (...) –isto  é,  a  forma  mais pura daquelas partes soberanas da alma coletiva de uma época, a crença e a aspiração. (QUENTAL, 1865, p.151)

 

A partir de uma troca de farpas públicas com o poeta Antônio Castilho, defensor do romantismo, as ideias de Quental ganharam fôlego e publicidade, constituindo aquilo que viria a ser a Questão Coimbra. Acusado de ser exibicionista e obscuro, o poeta realista levantava a bandeira da liberdade e da independência de escritores, que seriam capazes de renovar a literatura, suplantando os românticos. Esse foi um divisor de águas entre o romantismo e o realismo (LOPES, SARAIVA, 1975).

Militante de causas sociais e artísticas, Antero de Quental chegou a fundar um partido, um jornal e uma série de conferências. Em sua obra, nota-se grande influência dos filósofos Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Pierre-Joseph Proudhon (PIRES, 1992). De modo geral, essa produção poética pode ser classificada em três fases: uma inicial, com influências múltiplas, sem direção muito clara; uma segunda, de caráter militante; e uma última, existencial e metafísica, pautada pela angústia.

Entre suas principais produções, estão Sonetos de Antero (1861), Bom Senso e Bom Gosto (1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (1865), Portugal perante a Revolução de Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), Tendências Gerais da filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890), Raios de extinta luz (1892).

 

REFERÊNCIAS

FARIAS BRITO, R. DE J. “Questão Coimbrã”: a problematização sobre Portugal através de uma polêmica literária pela Geração de 70 (1865-1866). Oficina do Historiador, v. 8, n. 2, p. 154-173, 23 nov. 2015.

FERREIRA, Alberto; MARINHO, Maria José. A questão coimbrã (Bom senso e Bom gosto). Coleção Textos Literários. Lisboa: Editoria Comunicações, 1988

LOPES, Oscar. SARAIVA, Antônio José. História da literatura portuguesa. 8ª Ed. Porto: Porto Editora, 1975.

MACHADO, Álvaro Manuel. A Geração de 70 – uma revolução cultural e literária. 3º Ed. Lisboa: Ministério da Educação e Cultura, 1986.

PESSOA, Fernando. Carta a William Bentley, 1915.in Correspondência 1905-1922, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 197, ISBN 972-37-0505-2.

PIRES, Antônio Machado. A ideia de decadência na geração de 70. 2º Ed. Lisboa: Vega, 1992

QUENTAL, Antero de. Odes Modernas. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1865. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=mUMuAAAAYAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false. Acesso em 07.06.2021.


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