Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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O racismo não é uma experiência individual, mas uma opressão social coletiva

A persistência do racismo no Brasil está de mãos dadas a uma falta de sensibilidade diante de um quadro de opressão social em relação aos negros, que inclui falta de acesso a direitos sociais básicos, baixa participação política, tratamento desigual em estabelecimentos comerciais, se comparado a como são tratados os indivíduos de outras etnias.

53731686_303.jpgO racismo existente no Brasil dos dias de hoje se filia a uma longa tradição sociocultural, construída ao longo de séculos. Como deixa claro Carlos Moore (2007), no livro Racismo e sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo, não é consistente historicamente a visão de que o racismo é uma experiência da contemporaneidade, com raízes no processo de escravidão de povos africanos conduzido pelos europeus no século XVI. Tanto, que desde a Antiguidade há relatos de racismo pautados nos fenótipos humanos.

Da mesma forma, o racismo também “não é um mero fenômeno de relações interpessoais, ou uma artimanha ideológica do sistema capitalista” (idem, 2007, p.27). A persistência do racismo no país está de mãos dadas a uma falta de sensibilidade diante de um quadro  de opressão social em relação aos negros, que inclui falta de acesso a direitos sociais básicos, baixa participação política, tratamento desigual em estabelecimentos comerciais, se comparado a como são tratados os indivíduos de outras etnias.

Adicionalmente, existe, de acordo com Moore (2007, p.29), um movimento estruturado com o intuito de “legitimar e consolidar a posição do segmento racial dominante, mediante um discurso e práticas conscientemente orientadas para a manutenção de um status quo”. Da mesma forma, esse grupo atua no sentido de deslegitimar as lutas de quem sofre racismo. Assim, o preconceito se embrenha nas estruturas do Estado Democrático de Direito, influencia a atuação de partidos políticos e a cultura de massa.

Moore (2007, p. 282) classifica o racismo como um ódio peculiar dirigido contra uma parte da humanidade identificada a partir dos povos denominados negros, consistindo em um sistema normativo da realidade social. Quanto às motivações do racismo, pode-se dizer que ele “surgiu e se desenvolveu em torno da luta pela posse e a preservação monopolista dos recursos vitais da sociedade”. (idem, 2008, p.283) Ou seja, sua função é blindar os privilégios do segmento hegemônico da sociedade, ao mesmo tempo que fragiliza, fraciona e torna impotente o segmento subalternizado.

Grosso modo, o racismo é uma recuperação cultural de um "conjunto de comportamentos agressivos, violentos e egoístas cuja finalidade é a estruturação e a sustentação de sistemas de gestão dos recursos” (idem, 2007, p.285). Busca-se, nesse contexto, a erradicação do Outro, a partir de uma visão totalizante.Djamila_Ribeiro.jpg

Em entrevista à rede BBC, a escritora Djamila Ribeiro frisou que um jovem negro é morto no Brasil a cada 23 minutos, e essa estatística representa o quanto o racismo mata. A esse racismo, ela acrescenta, existem muitas ações de resistência, desde os quilombos, passando por episódios históricos como a Revolta dos Malês, até as manifestações contemporâneas do movimento negro. Lembrar desses modos de resistência é uma maneira de fortalecer a luta contra o preconceito. (BBC NEWS, 2020)

Djamila frisa, ainda, que 90% da população brasileira reconhece a existência do racismo mas não se reconhece racista, seguindo a tendência de limitar os preconceitos ao nível individual, e não como um sistema de opressão. “Se pessoas negras não ocupam posição de poder, é porque elas partem de um lugar em que as oportunidades são limitadas por conta do racismo. Falta esse entendimento às pessoas e discutir esse lugar de branquitude. Chegar em um espaço ocupado somente por pessoas brancas, em um país de maioria negra, e não questionar aquilo. Será que aquelas pessoas estão ocupando esses espaços porque são inteligentes e geniais ou porque tiveram condições concretas de estar nesses espaços? O grande problema do brasileiro é naturalizar o lugar do privilégio, como se ele não tivesse sido construído a partir da opressão de outros grupos. Há quem diga que basta se esforçar, basta querer, negando toda essa estrutura que impossibilita condições concretas para que a população negra tenha mobilidade social e consiga acessar um lugar de dignidade e cidadania no Brasil”. (idem, 2020)

No ambiente corporativo, o racismo enquanto um sistema estruturado se revelou diversas vezes no ambiente corporativo, a exemplo de processos seletivos para preenchimento de vagas em vários níveis hierárquicos. Ao estabelecer uma dezena de critérios para seleção dos candidatos, de maneira consciente ou não, as empresas excluem do processo candidatos negros que teriam condições de ocupar muitos dos cargos. Fica clara uma pré-disposição para perpetuar um lugar de privilégio, e atrair para aquele ambiente de convivência pessoas brancas, bem relacionadas e com uma trajetória acadêmica exemplar.

Para sanar ou ao menos minorar essa questão, podem ser replicados bons exemplos de criação de metas de diversidade, como é o caso da Magazine Luiza, que “busca aumentar seu número de lideranças pretas e pardas para 56,1%, refletindo a composição da sociedade brasileira”, de acordo com reportagem da Infomoney (2021). Em 2019, a varejista constatou que apenas 16% de seus líderes eram pessoas não brancas. Após o estabelecimento de programas voltados para contratação de minorias, a empresa já conta com 30 trainees que se identificam como pretos ou pardos, cujas chances de assumir postos de liderança são expressivas.

REFERÊNCIAS

BBC NEWS. Todo mundo sabe que o racismo existe no Brasil, mas ninguém se acha racista, diz Djamila Ribeiro. Perfil no YouTube (2020). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Al365qzdjZE

INFOMONEY. Em corrida para bater metas de diversidade, Magazine Luiza terá 2º programa de trainee exclusivo para pessoas negras. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/do-zero-ao-topo/em-corrida-para-bater-metas-de-diversidade-magazine-luiza-tera-2o-programa-de-trainee-exclusivo-para-pessoas-negras/. Acessado em 10/11/2021.

MOORE, Carlos. Racismo e sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007, p. 21-32, 279-293.


Fellipe Torres

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