Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano.
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Poética na natureza selvagem: versos com o peso de uma viga

Em livro de estreia, poeta pernambucana Julya Vasconcelos volta o olhar para si mesma, costurando pontes entre memórias, dores existenciais, referências literárias, estéticas e acadêmicas.


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O excesso de objetividade da ciência, cravejada de regras e métodos cartesianos, motiva válvulas de escape para quem, simultaneamente, estuda os demônios alheios e lida com seus próprios. Este parece ser o caso da coletânea de poesias A súbita insistência das coisas (Urutau, 2019), livro de estreia de Julya Vasconcelos. Um par de anos após mergulhar na obra da artista performática guatemalteca Regina José Galindo, a pernambucana volta o olhar para si mesma, costurando pontes entre memórias, dores existenciais, referências literárias, estéticas e acadêmicas.

Pesquisadora da influência de traumas e violências nas artes, Julya investe em um eu lírico em sintonia com os objetos de sua investigação: uma voz que esquadrinha a própria reação diante de vazios, abismos e fendas, na iminência de desastres, guerras, explosões ou desabamentos. Essas imagens, naturalmente, insinuam-se como metáforas para dar conta de sentimentos extremos, de modo similar às referências a figuras da mitologia grega, assim como a galáxias, planetas, estrelas, satélites.

Da incerteza ao ódio, da tristeza ao medo, da decepção amorosa à indignação diante do imprevisível, Julya combina erudição – ao flertar com Barthes, Cortázar, Lygia Clark, Jane Austen, Alice Notley, Guimarães Rosa, João Cabral – a referências ao jazz, à música pop e até a uma notícia de jornal, o que confere à sua poética um tom quase armorial. Em um movimento de bricolagem, ressignifica lembranças do eu lírico e lança mão de um léxico inspirado na fauna e flora (lagarto, pássaro, pardal, tigre, raio, sol, espinho de flor, bicho de zoológico, cabras, peixe, alcaçuz, ficus, lebre, raízes violentas, vacas e leões, frutas, pé de jasmim, inseto, lima-da-pérsia).

Em oposição ao silêncio e à passividade de outrora, os versos indicam sublevações pautadas em uma agressividade sutil e refinada, de quem aprendeu a se defender e a não se calar. Isso fica claro desde os versos inaugurais do livro: “Eu, que agora sei o que gritar/ jogo um petardo/ contra os muros de contenção”; e ressurge no verso de fechamento da obra, como quem sinaliza a ambição para um futuro breve: “não me equivoquei/ eu quero/ ter o peso/ de uma viga”.

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O livro está à venda no site da editora Urutau

A súbita insistência das coisas

Julya Vasconcelos

Entendo

absolutamente nada

da matéria escura

que sustenta os planetas

São mãos de grandes dedos

que se afunilam

e palmas abertas

como uma espécie de pianista

que toca

é só assim que entendo.

Melhor entendo

que não há lá grande coisa

para além do trombo

do teu corpo transitando

junto ao meu

num acidente de desnível

no bar na calçada

do subúrbio

às 2h da madrugada.


Fellipe Torres

Jornalista e produtor editorial, entusiasta de pintura e fotografia. Mata um leão por dia na tentativa do ultra-humano. [email protected]
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