sem receita

Soluções espontâneas e esporádicas para o tédio da alma.

Camilo Alves Nascimento

Escritor por natureza, mesmo sem saber sobre o que escreve. Mineiro que gosta de rock, apaixonado pela beleza urbana e por todas as suas sutilezas. Insone, ex-fumante, que busca incessantemente entender a mediocridade humana, inclusive a sua. E acredita cegamente que um bom café pode salvar vidas.

Eu escrevia sobre o amor como ninguém...

Em tempos onde o tempo é cada vez mais curto para a reflexão e o sentir, um breve conto de Camilo Alves Nascimento, em forma de carta, que mostra como um escritor ficou sem palavras, para aprender o peso delas...Um conto, uma história e um sentimento que poucos realmente entendem.


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Linda,

Desde pequeno meu gosto por livros me levou para a escrita, assim mesmo, tão natural como se forma uma frase: sem muito pensar, mas acertando a ordem das palavras. Escrevia fantasias de criança: criava aventuras, diálogos e personagens.

De tudo, sempre tinha um pouco.

Com o tempo, assim como deve acontecer com todos os escritores, me debandei para a poesia. "Escrever poemas é fácil" - o escritor que só escrevia, pensava. As poesias apareceram na adolescência, como devem ser, e os temas sempre os mesmos: solidão, perda e amor. Escrever sobre o que não se vive, não se sente, mas que se lê e assiste.

Por anos o processo era o mesmo, brincar com palavras, trocá-las de ordem, figuras de linguagem, metáforas pobres e rimas sem rimas, na tentativa de ser livre. Era assim, e ao poucos esqueci os outros temas, conseguia escrever sobre qualquer coisa, mas isso não me interessava. Fiquei com o principal: o amor, que envolvia solidão e perda. Coisa mais lógica.

E mesmo sem conhecer sobre o que escrevia, eu escrevia. Não me entenda mal, era o que eu desejava sentir, era como eu imaginava que era. Aos poucos larguei a poesia, o escritor que só escrevia agora pensava, e descobria que a poesia é coisa fina, que só merece ser tratada por quem tem trato por ela.

Com as palavras descobri meu rumo, sou prosa, gosto de parágrafos. Hoje sou 80% prosa e 20% poesia, e tenho medo de escrever poemas - posso acabar ofendendo os que são donos dessa arte. Respeito é a palavra, admiração o sentimento. Na prosa me fiz, me sou e me faço. De tanto escrever, evolui, achei meus estilo, meu ritmo, minhas influências. Se eu era bom? Não sei.

Mas eu escrevia sobre o amor como ninguém... Cartas, contos e poemas. Todos elogiavam, pediam cartas para as namoradas, para os namorados: pedidos de desculpas, declarações, poemas fáceis, difíceis, músicas...Escrever era fácil.

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Eu escrevia sobre o amor como ninguém... até você me apresentar o que amor realmente é. Com você eu descobri sentimentos, cores, desejos, sons e ritmos que envolvem essa palavra. E por mais que eu queira, tente e me esforce eu não consigo mais escrever sobre isso. Já era, você roubou, acabou com tudo o que eu conhecia, ou que achava conhecer.

Com um simples sorriso derrubou meu muro, meu mundo, e aqui eu estou...

Você transformou o que antes era fácil, em impossível. E todas as palavras sumiram, as frases se autocompletam, sem vidas, previsíveis e por vezes chatas. Tenho bloqueios, folhas ficam em branco por dias, talvez meses...a espera de uma palavra. E quando as tenho, são bobas, tolas, insuficientes.

Descobri, aos 30 anos, que até hoje, só brinquei de escrever, e que todos os poemas que existem sobre o amor são mentiras, meras palavras. O amor que eu sinto, não pode ser dito, não pode ser escrito, não consigo e nunca vou conseguir descrevê-lo. Passaria a vida utilizando vocabulários rebuscados e não captaria a mínima essência de te amar. Eu escrevia sobre o amor como ninguém...mas prefiro não conseguir fazê-lo.

Obrigado, por me mostrar que amor é muito mais do que meras palavras em livros, cenas na tv e pensamentos solitários.

Obrigado, por ensinar ao escritor o peso das palavras.

Do seu...


Camilo Alves Nascimento

Escritor por natureza, mesmo sem saber sobre o que escreve. Mineiro que gosta de rock, apaixonado pela beleza urbana e por todas as suas sutilezas. Insone, ex-fumante, que busca incessantemente entender a mediocridade humana, inclusive a sua. E acredita cegamente que um bom café pode salvar vidas..
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