sem trocadilhos

arte: garantindo minha sanidade desde 1990 e algumas bolinhas

luísa d.s.

Quando pedem para eu me descrever, eu mudo de assunto. Falo de Luísas e Louises, e de alguma forma, (me) satisfaço.

Pop Art?

O que foi a Pop Art (ou Arte Pop)? Quando surgiu e quem a "criou"? O que falava-se do kitsch? E Andy Warhol, por que nos encanta tanto?


warhol2.jpg Campbell's Soup, 1968. Andy Warhol.

A arte pop surgiu como uma espécie de reação ao “hermetismo” da arte moderna, isto é, como a própria denominação sugere, arte pop é a arte popular, a arte do cotidiano, a arte que faz seu “espectador” se sentir em casa. Logo, seu campo de abrangência é muito mais amplo que o da arte moderna por abordar temas com que a grande maioria, senão a totalidade das pessoas é familiarizada. A idéia de uma arte pop surgiu a partir de um evento realizado em Londres pelo Independent Group no Institute of Contemporary Art (ICA) em 1954-55 que decidiu discutir, como o tema do programa público da instituição, o ambiente comercial urbanizado. A idéia era tirar a cultura pop do “escapismo” e tratá-la com a seriedade da arte. Esses artistas desenvolveram o conceito de estética do descartável, aquilo que é belo é aquilo que dura pouco, que tem prazo de validade, o culto ao efêmero. É importante observar que a pop é compreendida em toda sua extensão nos EUA pelo ambiente econômico vivido no país (quando o país enfim se reerguia das consequências causadas pela crise de 1929), diferente do pop na Inglaterra, onde a estética era diferente daquela dos EUA. Na Inglaterra, os precursores do pop (protopop) trabalhavam inseridos num grupo, o Independent Group, como já foi citado, e eram os “herdeiros” de Francis Bacon. Nos EUA, até a primeira metade da década de 60, os artistas trabalhavam individualmente, até duas exposições feitas em 1963, que os caracterizaram como um grupo. warhol.jpg À la recherche du shoe perdu, aprox. 1955. Andy Warhol.

Em seu artigo sobre a avant-garde e o kitsch, Clement Greenberg, o principal teórico e crítico do modernismo, despreza o kitsch (expressão em alemão - país onde essa nova modalidade da arte foi amplamente difundida), a arte popular, por “cultivar a insensibilidade” das pessoas, por ser fruto de uma junção de objetos e idéias corriqueiras, do dia-a-dia e finalmente, por se aproveitar do fato de ter uma base acadêmica para se afirmar como arte. A arte pop é caracterizada por não ter um estilo, nem dogmas. Também pelo uso de collages, onde o artista cria um novo objeto/ambiente a partir de objetos “recortados” de lugares distintos dando a eles um novo significado, ou, como podemos observar nas latas de sopa Campbell de Andy Warhol, tira-lhes o significado original, colocando objetos em série - outra importante característica do pop, a serielização de objetos. São obras que representam o cotidiano, a rapidez com que as coisas acontecem no mundo desde a industrialização e a globalização cada vez mais evidentes. Utiliza-se recortes de jornais e revistas, propagandas, imagens que normalmente passam despercebidas aos olhos das pessoas. É o comum. Richard Hamilton, um dos expoentes do grupo pop da Inglaterrra, caracterizou os “princípios da nova sensibildiade artística” como sendo: popular, transitório, dispensável, de baixo custo, produzido em massa, jovem (direcionado à juventude), engenhoso, sexy, habilidoso, glamuroso e um grande negócio. Há, por parte dos artistas, um grande interesse pelo presente, pois o presente é algo palpável. Todos podem fazer arte. Com essas características, o pop atraiu e continua atraindo muitos olhares e admiradores, que não são necessariamente parte da comunidade acadêmica artística - uma outra crítica feita por Greenberg ao kitsch. Tom-Wesselmann-Bathtub3.jpg Bathtub 3, 1963. Tom Wesselmann.

Os principais nomes do pop e proto-pop inglês são: Peter Blake, David Hockney, Richard Hamilton e, R.B. Kitaj, que apesar de ser norte-americano, vivia na Inglaterra. Nos EUA: Robert Rauschenberg (técnica dos combines), Jasper Johns, Larry Rivers, Joseph Cornell, Roy Lichtenstein e Andy Warhol. Lembrando que, num primeiro momento, o pop inglês surge no meio acadêmico e o estadunidense não. Andy Warhol é a personificação do pop. É hoje um dos nomes mais conhecidos dentro e fora do meio artístico e suas obras são leiloadas a milhões de dólares em casas de leilão como a Sotheby’s e a Christie’s ou galerias pioneiras como a Gagosian. Por que a obra de Warhol vale tanto? Seriam as cores vibrantes? A representação de diversas celebridades conhecidas pelo mundo todo? Seria ele e sua obra o símbolo dos 15 minutos de fama com que quase todos sonham? Ou a forma como que Warhol tira o significado, ou reformula este significado, de pessoas e objetos que individualmente são uma coisa e colocados em série, como fez Warhol, se tornam banais? As pessoas se identificam com essa banalidade, trivialidade da vida? Somos mesmo tão superficiais que damos mais valor ao superficial que ao profundo, ao que nos faz filosofar, refletir? Warhol é a busca da superficialidade plena. Sem espaço para filosofias ou grandes reflexões. Era isso o que ele queria. Mostrar o que as pessoas e os objetos que representava eram: nada mais do que aquilo que se via. Seria uma crítica à sociedade norte-americana industrializante, rápida e sem conteúdo? Possivelmente não. Críticas pressupõem um pensamento mais profundo e questionador. Warhol era o que se via nele. E ponto. Em uma exposição denominada Mr. America que passou por diversos países, inclusive o Brasil, no primeiro semestre de 2010, senti na pele (meu órgão mais superficial) o que Warhol pretendia. Mas suas pretensões comigo não deram muito certo. O que ele pintou, o que ele esculpiu e escreveu me fizeram pensar. Foi provavelmente a exposição que mais me fez pensar sobre mim, sobre o mundo em que vivo. Pela sua simplicidade. As pessoas só conseguem refletir a fundo sobre algo que têm conhecimento, que seja mínimo. Sobre a superficialidade, sobre como as cores me divertem, sobre como as coisas perdem sentido colocadas em série... Disso, todos entendem muito. Talvez em seu íntimo era exatamente isso que ele pretendia, mas provavelmente não sabia. warhol4.jpg Marilyn Monroe, 1967. Andy Warhol.

“Um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele - por qualquer razão - pensa que seria uma boa ideia dá-las a elas.” - Andy Warhol.


luísa d.s.

Quando pedem para eu me descrever, eu mudo de assunto. Falo de Luísas e Louises, e de alguma forma, (me) satisfaço..
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