Mariana Dias

20 anos, estudante de jornalismo e não sabe fazer descrição de si mesma.

A universalidade da trilogia das cores

A liberdade, igualdade e fraternidade desconstruídas e ilustradas pelo diretor Krzysztof Kieslowski, decifradas e respondidas por nós espectadores. O acaso que não enxergamos durante nossas vidas mas que nesses três filmes somos levados a observar e organizar, viajando em uma jornada onde cada personagem principal se torna nós mesmos.


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A trilogia das cores são representadas através dos ideais da revolução francesa e apresentadas em três filmes; 'A liberdade é azul'(Troi Couleurs: Bleu), 'A igualdade é branca'(Troi Couleurs: Blanc) e 'A fraternidade é vermelha'(Troi Couleurs: Rouge). O primeiro sendo realizado em 1993 e os dois últimos em 1994.

Todos os filmes tratam de personagens que por algum motivo são forçados a sair de suas zonas de conforto e a enfrentar sozinhos o novo. O primeiro conta a história de Julie, esposa de um famoso compositor que perde o marido e a filha em um acidente de carro, para logo em seguida tentar se libertar de tudo que lembra sua vida passada. O segundo filme conta a história de Karol, que é expulso de casa por sua mulher e se vê perdido pela França até ser obrigado a fugir para seu país natal, a Polônia. O terceiro filme fala de Valentine, uma modelo solitária que, ao atropelar um cachorro pela rua, tem sua vida modificada.

Kieslowski organiza o acaso, cada mínimo detalhe nos filmes se torna importante para a compreensão e o diálogo entre o espectador e a obra. Os elementos são sutis e o diretor se comunica com seu público de forma subjetiva através do uso frequente de closes. Como, por exemplo, no primeiro filme 'A liberdade é azul', em um dos closes a personagem se encontra em um café, logo após conversar com o homem que a ama. Assim que ele a deixa, ela observa um personagem na rua e logo em seguida vemos um close em que delicadamente ela mergulha um cubo de açúcar em seu café e esse aos poucos vai penetrando o cubo fazendo um longo caminho até que seja completamente tomado.

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Nesse momento somos levados a perceber que a personagem nos diz que não liga para nada que a cerca, nem para o homem que a ama, nem para o resto das pessoas a sua volta e muito menos para o que está a sua frente. Essa comunicação entre obra e espectador é contínua, nunca temos as respostas prontas, somos levados a pensá-las subjetivamente.

Outro ponto em destaque é a composição da fotografia, que é realizada de forma a ressaltar a cor de cada filme, resultando em cenas belas que colocam em destaque os valores das obras e personagens.

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A medida em que à obra segue, notamos como os personagens se esbarram e como que em cada filme temos uma opinião diferente sobre um mesmo personagem. Kieslowski nos leva junto com a história, deixando brechas e se comunicando diretamente conosco, fazendo com que nos tornemos amigos dos personagens. Preenchemos a lacuna que o diretor abre, acabando por responder da nossa maneira o sentido que o filme deixa, nos exigindo um nível maior de concentração ao assisti-lo e, com isso, acabamos por capturar e incorporar a essência de cada história e esse diálogo nos aproxima e faz com que os valores e elementos do filme sejam levados para nossas vidas.

A trilogia das cores é acaso, é amizade entre cinema e espectador. Foi um dos projetos mais ambiciosos de Krzysztof Kieslowski, feito durante uma época em que a Europa passava por grande transformação com o fim da URSS, o intenso desejo de mudança e a ideia da União Européia. Mesmo assim, o filme consegue se conectar com qualquer pessoa, independente de onde essa viva, pois, esse acaso, sentimentos e valores organizados por Kieslowski são e sempre serão universais.


Mariana Dias

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