senhorita rosa

com o candelabro, na biblioteca

Senhorita Rosa

MARIA RACHEL é uma jornalista e psicanalista que nas horas vagas promove a oficina literária Terapia da Palavra. Às vezes recebe o espírito da SENHORITA ROSA, uma paraguaia muito intolerante, crítica e debochada, que escreve para se divertir e para divertir os outros, pois acredita que o humor é o melhor remédio

50 tons de deusas dançando com bambolês

Reflexões inúteis sobre o inexplicável sucesso do trailer do livro que vai virar filme - e do livro - da pior literatura erótica dos últimos tempos.


Cariños, com tanta notícia importante pra encontrar na internet, dei de cara com esta aqui:

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Não sou a maior especialista do mundo nem na sétima arte, nem em literatura, nem em sexo (infelizmente), mas tive certeza – quando li o primeiro volume da trilogia (o único que consegui) – que “deusa interior” foi uma das piores metáforas que alguém já inventou para tesão. Confesso que desisti de ler mais pela má qualidade do texto, que não sei se foi culpa da autora ou da tradutora, do que pela história em si. No meu caso, esta combinação de palavras saltava do papel cada vez que eu lia – era um tal da deusa interior da protagonista dar cambalhotas, bater palmas, e fazer mais não sei quantas performances esdrúxulas, como embarcar numa montanha-russa sem freio – que desisti. Minha “deusa interior” – eeeewk – brochou.

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No entanto, acredito que o enredo tenha provocado frisson nas mulheres por uma razão muito mais simples do que a mídia suspeitou a princípio. Ao contrário do que se disse à época do lançamento dos livros – que se o homem fosse bonitón e rico, “as nega” topava até apanhar. Nada disso! O que provocou todo o frenesi foi a cumplicidade entre Anastasia (que parece uma anestesia de tão chata) e Mr. Cinza, o cinza. Tudo, tudo era às claras. Era necessário confiança – e isso não se encontra em qualquer esquina. Até contrato tinha. Como não está nada fácil encontrar uma pareja pra dizer “Me joga na parede e me chama de lagartixa!” a coisa toda ganhou essa repercussão gigantesca e desproporcional. (Em tempo, advirto: o risco de uma pessoa hoje em dia dizer laRgatixa é imenso e isso estragaria enormemente a brincadeira.)

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Não acho que o sadomasoquismo seja a coisa mais erótica do universo, embora reconheça que o perigo às vezes é bastante sedutor. E confiar com tesão e perigo em jogo faz a coisa toda mais sedutora ainda. Não fosse sedutor o perigo, para quê existiram, aliás, as montanhas-russas? As russas? Os amantes? As montanhas e os alpinistas, hein? Nada de inveja de helicópteros, roupinhas da Victoria Secrets ou coisa que o valha.

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Sobre literatura erótica, vamos combinar: há exemplos melhores. A História de O., de Pauline Réage, um clássico do sadomasoquismo, literatura boa para quem curte e para quem não curte. Vargas Llosa escreveu o primoroso “Elogio à Madrasta”, o bom e velho D.H. Lawrence atacou com seu “O Amante de Lady Chatterley” e, pra terminar a lista de sugestões de leitura de sacanagem boa, de presente aí embaixo o que eu creio ser um dos textos eróticos mais lindos e bem escritos de todos os tempos: o capítulo 7 de Rayuela (O Jogo da Amarelinha), do Júlio Cortázar, que deixo de brinde para que vocês, cariños, possam transar mais inspirados e de um jeito menos cafona.

"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água."

Caso prefiram a sétima arte para dar onda, assistam “Azul é a Cor Mais Quente” – mesmo não sendo lésbicas ou plurissexuais, como o Caetano se definiu certa vez. É bom. O filme É bom. “De Olhos Bem Fechados”, do Kubrick, é outra pedida. E “Os Sonhadores”, do Bertolucci, é maravilhoso. Ou procurem no Youtube o vídeo da cena clássica da manteiga do “Último Tango em Paris”. Mas não venham me dizer que esse romance cinza é erótico. Cá no Paraguay ele não provoca qualquer Asunción.

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Agora, se quiserem rir, não deixem de assistir a este vídeo:

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Garanto risadas. Com todo o mundo pairando e balançando la cabecita no final (como Stevie Wonder e não como Ray Charles).


Senhorita Rosa

MARIA RACHEL é uma jornalista e psicanalista que nas horas vagas promove a oficina literária Terapia da Palavra. Às vezes recebe o espírito da SENHORITA ROSA, uma paraguaia muito intolerante, crítica e debochada, que escreve para se divertir e para divertir os outros, pois acredita que o humor é o melhor remédio.
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