ser ou não ser

Arte e Vida

Victor Barros

Sede de viver.

O Hamlet de Richard Burton

Como o talento, criatividade e personalidade conseguiram eternizar uma atuação.


Playbill.jpegPrograma original da produção

Hora lúgubre entre a madrugada e o amanhecer. A roda que forma minha personalidade gira em sua capacidade máxima. Contínua, leve, magnética, suspirante a todos os detalhes. Todos os olhares e timbres de voz. Cada trejeito, costume, estilo, andar, intensidade. Tudo é levado em consideração, como um aprendiz observando o mestre.

Ser ou não ser

Hora lúgubre. A voz de Burton ainda ecoa forte pelas paredes do quarto. Como se estivesse no próprio Lunt-Fontanne naquela noite em 1964, épica para todos os presentes. O evento: Hamlet. O ator: Richard Burton. O texto poderia acabar aí, na simples citação de seu nome e na peça que encenava. Mas não é o bastante.

Esta perfomance de uma três melhores peças de Shakespeare na minha opinião (sendo as outras, Macbeth e Ricardo III) não foi uma simples performance. Sua produção não foi comum, sendo evidenciado este fato até pelos próprios atores e pessoal de apoio. E ele é perceptível na tela, no som, no desespero, na imponência e na fragilidade que o Hamlet de Burton se faz exercer.

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Veterano de Shakespeare e do próprio Hamlet nos palcos do Old Vic de Londres, Burton surpreendeu platéias, noite após noite, durante nada menos que 137 performances esgotadas. Críticos eram divididos entre elogios no desempenho de Burton junto com o excelente elenco e em críticas a tamanha publicidade que seu recente casamento com a estrela Elizabeth Taylor trazia para as portas do teatro, em todas as performances. Taylor, que estava na maioria dos espetáculos para presenciar seu marido atuar, atraía multidões noite após noite.

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Segundo o próprio Burton, após um pouco mais de uma dúzia de performances, o ator se viu completamente entediado com toda a experiência. E o que fez? Em cada espetáculo, acrescentava ou retirava características diversas no personagem. Uma noite se via um Hamlet arrogante e afetado, em outras se via o personagem sombrio e depressivo. Em outras noites, Burton até recitava o solilóquio de "Ser ou não ser" em francês ou alemão para que, segundo ele: "Ver se estavam prestando atenção". Isso pode parecer simples estórias para engrandecer a lenda, mas, surpreendentemente, eu pude afirmar este fato após assistir o vídeo e ouvir o LP dos melhores momentos da peça em que foi gravado o áudio de uma diferente noite da que se exibe no filme.

O papel caiu como uma luva e muitos esperavam grandes anunciações e rajadas de intensidade eloquente (característica tão comum em seus filmes épicos), mas apesar das variações de personagem acima, Burton sempre era consistente numa qualidade de discurso mais meditativa e introspectiva. Buscou parte de si mesmo para o papel e o encontrou com perfeição em passagens como "Fragilidade teu nome é mulher".

O espetáculo foi um sucesso na broadway, quebrando recordes de público e temporada. O sucesso foi tanto, que no meio da temporada foi decidido empregar uma tecnologia nunca antes vista na época. Uma técnica cinematográfica chamada Electronovision que consistia em montar várias câmeras em pontos estratégicos do teatro e filmar uma performance teatral ao vivo, sem cortes ou repetições. O filme, que consistiu na montagem de três noites diferentes, foi lançado nos cinemas por um tempo limitado. Porém, hoje em dia, o fato deste filme existir é uma prova da memorabilidade desta montagem de Shakespeare.

Aos amantes de teatro e grandes atuações, recomendo a todos que buscarem o filme para simplesmente estudar o quanto criativo, impecável e eterno, Burton foi e sempre será na coisa que sempre admitiu fazer bem: Atuar Shakespeare.


Victor Barros

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