ser ou não ser

Arte e Vida

Victor Barros

Sede de viver.

Para Ace Rothstein


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O que é a vida sem prazer? O que são os dias sem a satisfação de seus desejos, por menores que sejam? Na verdade não existem pequenos desejos, o que pode existir é uma paisagem ainda inacabada. As pequenas realizações: uma bebida forte durante a madrugada. Um cigarro à luz do postes e do luar. O quebrar das ondas. A areia fria sobre seus pés. A sabedoria de apreciar ambas a solidão e a companhia. Um beijo de uma linda garota enquanto você treme de antecipação por algo que não sabe bem o que é. As palavras escritas só podem realizar somente o que já é esperado. Então você tenta, experimenta, sorri, grita e cai em gargalhadas sobre alguma história ou estória interessante. E com o passar do tempo você aprende a apreciar a quietude, o som do gelo derretendo e a sensação das lágrimas ceremoniais e penosas da dor. Porém, até a dor é bem vinda, sendo como um investimento a longo prazo aonde você não sabe bem o quanto vai recolher daqui a alguns anos. Diabos! Pode recolher daqui a uma semana se tiver sorte em jogar os dados certos.

Por muito tempo eu tentei perceber quantos ângulos meus olhos deveriam perceber nas nuances de uma dança, no pulsar incendiário de um cigarro ou simplesmente nos olhos profundos de alguém querido. Por anos busquei as palavras certas nas horas erradas. Tentei, caí, rolei no chão até conhecer os lugares seguros, longe dos espinhos que ferem a carne preciosa. Algo realizado como vencer uma corrida e dar o seu troféu à aquele caído nos espinhos. O cintilar de esperanças. Ser enganado e se tornar impermeável a esquemas. Estudar as adversidades como um boxeador estuda o seu adversário mas sem perder o balanço de seus pés em caso algo mais aconteça. Poder gritar vitória. Porque as cartas jogam melhor que os dados e o contato visual melhora a percepção da mente com o ambiente ao redor. Me dê mais uma, mais uma, mais uma! 21.

Claro que há sempre riscos na felicidade, às vezes, mais riscos do que ganhos. Não é recomendável também, ignorar os investimentos a curto prazo. São eles que movimentam o caráter para sustentar o que há por vir. São as escapadas dos heróis secretos desta prosa. É poder lembrar do que foi feito no momento em que se está fazendo o novo. Está conquistando o novo. Sempre guardando o esperado e colocando suas fichas boas naquilo que não se conhece. Se todos parássemos de nos dar ao luxo aos prazeres desta vida, viveríamos o cotidiano e a vida seria revelada em fotos num álbum guardado no armário da cozinha. O cotidiano, que é simplesmente jogar pedras na construção vizinha. São projetos, gráficos, previsões infinitas. Infinitas previsões. Sempre três passos a sua frente num dia ruim. É a indecisão do jogador discreto. Você tem uma visão do jogo. Suas cartas são boas mas não perfeitas. Esse tipo de coisa mal acontece. O crupiê o espera. Ele olha para você e você devolve o olhar. E ele lê a sua mente tão bem que percebe toda sua insegurança. "Vamos lá!" dizem as cartas. "Nem ele sabe qual vai ser o resultado! Depende de você!" continuam a lhe dizer. Você olha suas fichas, escolhe sua aposta e dá as cartas.


Victor Barros

Sede de viver..
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